quinta-feira, 8 de maio de 2025

Mashup de capítulos (ou a crônica da mesa da varanda)



Nas últimas semanas, tudo aconteceu e nada aconteceu. Um belo dia, enquanto carregava o celular na distribuidora onde conheço meus novos vizinhos, o dono do lugar me chamou pra lanchar com ele e uns amigos, disse que não queria ir sozinho. Fui. Chegando lá, ele foi embora. Me deixou sozinho num boteco insalubre com três ilustres desconhecidos ativando meu pânico social como se fosse Alexa.


Ao me ver sozinho, respirei fundo e anunciei: “Queridos, foi um prazer, preciso ir.” Uma menina ao meu lado começou a chorar. Disse que não tinha onde dormir, precisava de um sofá. Eu, relutante mas ainda empático, ofereci pagar um Uber até a casa dela. Ela recusou: alegou que o toque de recolher a impedia de entrar no bairro. Resultado? Me acompanhou até a minha casa e, num plot digno de Hitchcock, subiu comigo.


Peguei uma cerveja pra mim e outra pra ela. Disse que podia esperar o amanhecer ali, que depois ela ia trabalhar. Ela (pasmem) me mandou ir dormir porque precisava descansar. E eu fui. Não sei se por perplexidade diante da cara de pau, por empatia mesmo… ou pelas três cervejas que já tinham tirado minha coragem de ser ríspido.


No dia seguinte, quando acordei, tinha sacolas de roupa em cima da mesa que custei a organizar. E, na varanda, uma calcinha pendurada como bandeira de ocupação. No celular, uma mensagem: “Vou aí buscar minhas coisas.”


Aquela garota estava tentando voltar pra dormir na minha casa de novo. Eu disse que tinha jogado tudo fora, que não admito desrespeito, que ela estava forçando algo que me deixa desconfortável . Perguntei se tinha alguma cueca minha na varanda. Não? Então por que tinha uma calcinha dela? Ela pediu desculpas. Eu disse que não precisava: “Você não é minha amiga. Nem nunca vai ser. E na minha casa, não entra mais.” Acabei de conseguir um lugar com vista. Jamais permitiria que alguém estragasse minha vista com uma calçola de vó descuidada.


Passado o ódio, conheci um piloto de avião — desses de uniforme alinhado e voz grave com sotaque de torre de controle. Trocamos mensagens, marcamos um jantar. Ele transformou o convite em um passeio de balão. Gostei. Achei decidido, arriscado, poético. Mas virou só isso: um encontro que nunca veio. Porque eu desisti. Ou o universo desistiu por mim. Não era dia de voar. Era dia de pouso.


Foi quando o universo, esse roteirista sádico e genial, me mandou Robson.


Sim, o Robson. Personagem recorrente da minha série, aquele dos episódios antigos — sempre entrando no quarto com uma mala e uma solução. Ele veio da Áustria, mas parecia que vinha do passado. Chegou como se nunca tivesse ido, como se as temporadas entre a gente fossem só intervalo comercial. Decidiu passar três dias comigo, Três. O mesmo número de dias que Jesus levou pra ressuscitar e que eu levei pra esquecer meu último quase date.


Dormiu no meu sofá, riu na minha varanda, comprou café e queijos comigo no supermercado como quem protagoniza uma cena de sitcom afetiva. Foi comigo à praia, viu o sol que banha Itapuã, mergulhou no pedaço da praia que eu mergulho desde que era  uma criança,  sentou nas cadeiras que vieram de São Paulo — as mesmas que um dia sustentaram amores, crises, esperanças… e que agora sustentavam ele(de novo), o Robson expatriado, agora importado.


Levei Robson ao meu restaurante preferido. Mostrei a vista do pé do Morro do Moreno como quem apresenta um segredo. A verdade é que estava mostrando um pedaço de mim. Ele achou tudo lindo. E eu achei surreal: meus mundos se fundindo como crossover de temporada especial — tipo Friends com ER, Gilmore Girls com Parenthood, ou só Pablo com Robson mesmo, numa série que, por alguns episódios, voltou a ter o mesmo título.


Mas Robson tem isso: vem com afeto e bagunça. O que tem de querido, tem de relaxado. Quando foi embora, deixou a pia cheia, a cama desarrumada, e o coração levemente melhor. Disse, antes de sair, que a mesa da varanda — a mesa dos dramas — era onde o tempo passava mais devagar. Concordei. A luz âmbar, as flores secas, e o silêncio dali desafiam qualquer cronômetro. Ali, as lágrimas parecem poesia. E o vinho, rito de passagem.


Na tarde seguinte, fui buscar roupas na casa da minha mãe. Robson ainda estava comigo. Paramos numa blitz. Claro. O carro — que estava parado há 5 anos — não tinha nenhum documento em dia. Robson ria. Disse que tudo isso era muito típico de mim, que estava feliz por estar de volta ao seriado. Eu chorei — pela multa, pelo aluguel indo embora, por gastar o pouco que eu tinha pra continuar fingindo que estou tudo bem. Numa dessas ironias cósmicas que a vida escreve em letra cursiva.


À noite, a Naju veio chorar na mesma cadeira em que Robson gargalhou. A cadeira sentiu o peso das emoções e chiou. Literalmente. Aquilo ali já é quase um oráculo. Ela, a cadeira. E eu, o bobo da corte emocional.


A casa tá de volta. Tenho luz (literalmente, depois de uma semana de banho frio e escuridão existencial). Mas ainda sem muita energia emocional. Fui lavar a roupa suja — simbólica e real — mas a máquina não ligou. Talvez o universo esteja dizendo: não é hora de resolver nada. A sujeira que existe faz parte da decoração. Ou talvez só queira me ensinar a lavar roupa na mão. E resolver meus conflitos com menos drama e mais sabão.


Liguei pra minha mãe. Falei dos documentos do carro. Ela, como sempre, ríspida. Mas ao final, eu disse: “Te amo.” E ela respondeu com um “te amo” do mesmo jeito que se diz “se cuida” depois de mandar um “vá à merda.” Desliguei. Segurei o telefone. E disse: “Também.”


E ali, entre caixas vazias, cadeiras tortas, móveis bambos, blitz, multas, boletos a vencer e roupa suja acumulada, eu entendi: eu preciso aceitar o peso do recomeço. Dizem que quando estamos no caminho certo, as coisas começam a dar errado. Seja pelo diabo. Ou pelo subconsciente desligado.


Ainda não tenho roteiro claro. Mas tenho elenco afetivo e uma varanda iluminada como plateia que espera o próximo ato.


Hoje, quem me ajudou a tirar o carro do pátio foi justamente o Dione, o dono da distribuidora — o mesmo que me lançou num boteco insalubre com desconhecidos e que, sem querer, hospedou uma ocupante do Movimento Sem Terra de varanda (com direito a bandeira de calcinha). Prova viva de que quem te joga na lama também pode te buscar com reboque autorizado pelo Detran. A vida, definitivamente, é um ciclo… com plot twists.


Para terminar, transformo meu cansaço em oração:


Que as paredes me abracem

com a memória das mãos que já me ajudaram a levantar.

Que a varanda sopre pra longe

os nomes feios que me disseram — e os que eu mesmo acreditei.

Que nenhuma calcinha pendurada me ameace,

e que toda louça por lavar seja só prova de vida,

não de fracasso.


Que o chão que hoje parece peso,

amanhã seja solo fértil.

Que cada boleto vencido seja queimado no tempo certo,

como oferenda moderna de quem sobrevive com estilo.


Que minha cama seja templo,

meu travesseiro, oráculo,

e que até minha máquina de lavar, um dia, cante.


Que a dor de agora vire texto,

e que o texto me devolva a leveza.

Que os amigos cheguem —

de avião, de Uber, ou da Áustria.


E que o Universo,

esse roteirista confuso e genial,

me escreva uma boa noite

com todas as estrelas certas.


Amém. Axé. Que seja.

E se não for, que vire crônica.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Decorando a casa para tirar a alma do aluguel por temporada

Eu não montei minha casa com a intenção de sair em uma revista de decoração, ou de virar referência de “apê tumblr chique minimalista”. Tudo aqui tem história — ou ao menos uma boa desculpa para estar onde está.


Existe uma estética que não se compra, apenas se constrói com tempo, camadas e uma boa dose de ironia. Nada aqui combina em tons de bege e silêncio, nem eu. Minha casa foi feita para HABITAR — com letra maiúscula, com alma, e com histórias que se empilham como livros lidos pela metade.


Aqui, cada objeto tem uma razão para existir. Mesmo que a razão seja apenas sentimental. A balança de Orifeto com mais de cem anos repousa ao lado de uma cafeteira moderna, como se o tempo não fosse um conflito entre eles, mas só uma conversa elegante entre as décadas. A máquina  de escrever não é um ornamento: é memória de trabalho, de sonho, de cartas que talvez nunca nem foram enviadas. Os quadros esperam moldura encostados na parede, como quem diz que a beleza, também pode ser provisória.


O escritório é o coração da casa — ou talvez o cérebro. Madeira escura, cadeira de couro, tapete persa e um globo terrestre que já deve ter girado mais do que o eu. Um ambiente que, pra mim, evoca Nova York dos anos 70, mas sem a pretensão de ser. É como se Patti Smith e eu pudéssemos sentar e tomar um café discutindo Direito, psicanálise ou falando sobre um amor antigo.


A varanda é onde a poesia relaxa. Poltronas vermelhas estilo jazz bar, mesa redonda com cara de conversa longa e flores secas que desafiam a pressa. Ali, o tempo vai escorrer devagar, e isso é proposital. O tapete pode não estar perfeitamente esticado, mas isso diz mais sobre liberdade do que sobre decoração.


Não quero que minha casa seja uma vitrine. Quero que ela conte a minha história — com um pouco de sarcasmo, um tanto de afeto e muita verdade. Tem tapeçaria torta? Tem. Tapete fora do lugar? Também. Mas tem alma.


É chique? Não sei. Mas nunca é do tipo que precisa provar nada a ninguém.

É old money? Se for, é o tipo que já foi à falência, aprendeu a rir disso e continua servindo café com estilo, fuma em varanda fechada e discute nietzsche com os vizinhos.


Pensei, quem precisa de Paris quando se tem um cigarro aceso, uma taça de espumante e a luz certa sobre  mesa própria?


Ali já era sexta-feira. Ou uma quarta que se achava importante por que está antes de um feriado longo. No relógio da parede — que ainda não existe — era 18:00 da noite, e eu, finalmente, finalmente tinha algo que fosse meu e não apenas o caos emocional que me aluga por temporada. A casa. Meu apartamento. Meu templo de sarcasmo e sobrevivência. Pelo menos nos próximos 12 meses de contrato de aluguel.


Na mesa redonda de madeira que viu mais dramas do que muitos palcos do Off-Broadway, repousava todos clichês de uma noite boa: espumante barato, um cigarro com pretensão de europeu e um silêncio que, pela primeira vez, não parecia hostil.


Sob o abajur âmbar, ligado graças a uma bela surpresa - ou só uma vizinha que me foi luz… Bem, essa luz faz qualquer desabafo parecer filosofia, percebi: talvez eu tenha vencido. Ou pelo menos empatado com a vida.


Não havia visitas. Nem mensagens não lidas de alguém interessante. Existe eu. E meu sofá. Meus quadros tortos. Meus arranjos de flores secas com ares de viúva rica e emocionalmente indisponível.


Minha casa não é minimalista como disse. Nem instagramável. Mas ela me obedece. Ou melhor: ela me representa. Tem drama, tem sobreposição, tem histórias e um leve toque de “não tô nem aí”. E isso, meus caros, isso é chique.


Entre uma tragada e um gole, compreendi que decorar a casa pode ser mais íntimo que transar com alguém. Porque ninguém te toca tão profundamente quanto um lugar onde você se sente inteiro. Ou deliciosamente despedaçado com estilo.


E foi assim que, naquela noite — entre um gole e outro, entre o passado que ainda visita e o futuro que não sabe se vem —, eu me dei boas-vindas. Sem alarde. Só com o som do gás da espumante, o eco discreto da vitória e uma música que, sinceramente, acho que só eu escuto. 


O espumante borbulhava. O abajur dava o tom dourado que já acompanha minha visão de mundo, e o meu caos, por todo tempo parecia… confortável.



Assim — ao som de Take Me Home, Country Roads, com uma taça na mão e a alma na outra — que, depois de tanto tempo vagando, eu finalmente entendi: ninguém me traria pra casa, eu a traria, assim que voltasse pra mim.


Agora se puder, bebe um vinho e coloca essa música para tocar, por mim.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Do recomeço.

 



Entrei.

Não precisei bater, a casa é minha agora.

As paredes não sabem meu nome ainda, mas vão aprender.

Talvez no começo elas ecoem meus silêncios, minha falta de energia — literal e emocional — mas logo, com o tempo, com minha risada ainda alta ou meus choros de soluços, elas vão me reconhecer.

Vão saber onde dói e onde eu deito.


Coloco minha mochila no chão, tiro os sapatos – não, não vou tirar – deixa o barro entrar também, não tem problema. Aqui ninguém vai limpar minha história para debaixo do tapete.


Essa casa vai ouvir a partir daqui meus gritos de raiva, meus sussurros de saudade, meus áudios de desabafo e meus silêncios de “não aguento mais hoje”.

E vai continuar me esperando no fim do dia.

Com ou sem luz.


Essa casa talvez não vá curar meu braço, mas vai começar a curar minha alma.

Vai ser meu ninho. Meu palco.

Meu bunker nos dias ruins, minha sacada nos dias de sol, com direito a vista para o mar.


Serei bem-vindo, mesmo que ainda esteja tremendo.

Mesmo que ache que não vou dar conta.

Mesmo que eu sinta saudade do que foi ou medo do que pode ser.

Desde que eu não atrase mais de três aluguéis. 

Eu cheguei aqui, ralado, sem energia, mas cheguei.

E isso, por si só, já é um milagre.


E o maior milagre foi encontrar uma mudança para o dia seguinte e vaga no prédio, cedida pelo porteiro, que, depois de me ver chorar, fez todos do prédio se oferecerem para me ajudar.


A mudança veio! Comecei a juntar as coisas na casa da minha mãe às 5 da manhã; às 11 já estava tudo no caminhão, indo para a nova casa.

Saindo de casa meu carro antigo está parado, a anos sem funcionar, tento ligar para estacionar melhor e não causar problemas, ele liga, parece que até ele quer ir embora.

No Uber, chorando e indo para o apartamento, recebo uma mensagem: 


Rodrigo Vargas: “Oi???” 


Eu, na hora, mesmo sabendo que ele não está mais aqui, fiquei feliz como um suspiro de irrealidade que trouxesse meu melhor amigo de volta.


Entrei na mensagem com aquele calor no coração ainda do devaneio, e era a nova dona do celular dele. No meio da mudança, eu tinha ligado para ela sem querer (não vi essa ligação).

Entendi que era ele dizendo: “Ei! Você não tá sozinho.”


Entrei e, entre uma caixa e outra, entrei também em mim.

Olhei a varanda vazia, ouvi o barulho da rua, senti o cheiro da tinta nova misturado com o da vida antiga.


De repente estava lá: minha casa, meus móveis, meus quadros! Minhas louças, minhas taças, minhas cadeiras!


Por que a gente se prende tanto às coisas que constrói? (Por que eu me prendo?)


Eu sei!

Tudo aqui não foi comprado, foi preenchimento de vazios, de cada casa, cada escritório.

Eu sempre respeitei os lugares que entrei.

Cada móvel, cada quadro vai se encaixando.

Hoje, minhas cadeiras não são só cadeiras, são tronos onde meus amores e amigos sentaram.

Cada taça tá cheia de amor, tem cheiro das minhas histórias. Cada garfo é prato serviu bocas que me fizeram sorrir, gargalhar! Não são móveis, são um lar, um altar a minha história.


Pensei: “Meu Deus! Todos esses anos eu só precisava da minha casa?”

Sentei no sofá.

Uma abelha tocou em mim – eu e meus sinais – previ boa sorte!

Deixei a abelha seguir, fui arrumando a varanda e olhando para o mar…


Foi então que ouvi uma voz.

Não era dentro da minha cabeça (eu pensei que era) — dessa vez era real.

Uma vizinha, da varanda ao lado, falando sozinha, brigando com o vento, perguntando pra ninguém:

“E quando chove, eles fazem o quê?”


Eu pensava que aquele apartamento estava vazio, mas não.

Falei com ela, nossa, eu estava tão feliz que não tinha vizinho no prédio.

Pensei: ninguém vai reclamar de mim!

Ela disse: “Eu pensei o mesmo, minha mudança chega amanhã.”


Falamos sobre a dificuldade de achar apartamento.

Ali, sorri pela primeira vez no dia.


Em meio a tanto silêncio, uma vizinha que falava alto, que gostava de viver alto!

Eu, ainda sem energia (vital e real), fui levado pra carregar lá o celular, e ela disse: “Deixarei aberta a porta, entra quando quiser!”

Uma estranha deixando a porta aberta me fez lembrar quantas vezes tive que pular a janela porque minha mãe trancava a porta antes de eu chegar em casa.


Ali descobri também que, às vezes, a vida manda cumadres antes de mandar móveis.


Ela trabalha de casa, como eu.

Mora sozinha, como eu.

E, como eu, também lavou a varanda sem saber que aqui até a água precisa pedir licença pra descer.

Tem cheiro do meu tipo de gente: real, visceral, com cheiro de café sem horário marcado e visita sem formalidade!


Conversamos como quem tropeça em encontros que nem sabia que queria.

Mostrei minha casa desarrumada, ela mostrou a dela vazia.

E ali, no meio de caixas, sacolas e promessas não ditas, combinamos:

seremos cumadres.


Depois que o pessoal da mudança foi embora e sobrou só eu, minhas dores nas costas e uma pilha de coisas pra organizar (que decidi ignorar com a maturidade emocional de um adolescente), uma amiga veio me ajudar: a pensar, a escolher onde colocar o quadro, a abrir caixas com memórias que eu não saberia lidar sozinho. Rafa não organizou só as caixas, organizou memórias e enxugou uma cachoeira de lágrimas com um colo que eu nunca vou esquecer.


Ela foi embora e eu desci pra respirar.

Ou pra fugir. Nunca sei direito.


Fui até a distribuidora embaixo do prédio — o bar da esquina do destino — e, de repente, não era mais estranho.

Todo mundo se conhecia.

Me ofereceram cerveja, cadeira, apelido.


Em cinco minutos, eu era o Pablo do 801, o menino que carregou a casa nas costas e agora parecia um carteiro bêbado de liberdade.


E como se a vida tivesse roteirista, no meio daquela bagunça boa, começou a tocar “Chão de Giz.”


“Eu desço dessa solidão…”

— Eu também, Zé Ramalho. Tô descendo faz tempo, meu amigo.


“Espalho coisas sobre um chão de giz…”

— No meu caso, espalhei caixas, roupa suada, sonhos reamassados e a esperança de que amanhã eu descubra onde está a cafeteira.


“Há meros devaneios tolos a me torturar…”

— E também boletos. Muitos boletos.


“Eu vou te dedilhar…”

— Eu sorri e imaginei que, se casas pudessem ouvir, a minha agora me olharia meio emocionada, pensando: “Caralho, esse menino tortinho vai me dar trabalho…”


E ali, no meio do barulho das garrafas sendo abertas, gargalhadas de estranhos, o cheiro de churrasquinho e a brisa da praia subindo da orla de Itapuã, eu cantei baixinho pra minha casa nova, como quem promete sem prometer:


“Eu estou indo embora, mas estou indo embora…”


Só que, pela primeira vez, não era fuga.

Era chegada.


Eu não tava indo embora de nada.

Eu tava chegando — em mim.


E se amanhã lavar a varanda, e o vizinho de baixo reclamar,

e a cumadre me chamar pra um café às três da tarde,

e eu ainda não tiver encontrado o abridor de vinho — tudo bem.


O chão é meu.

O giz é meu.

A história sempre foi minha!


O roteirista, lá de cima, fazendo tudo lindo com sentido e significado, do nada coloca a trilha sonora com Frejat, Um Amor pra Recomeçar, e eu senti a benção de Deus dizendo:


“Eu te desejo não parar tão cedo

Pois toda idade tem prazer e medo

E com os que erram feio e bastante

Que você consiga ser tolerante

Quando você ficar triste, que seja por um dia

E não o ano inteiro

E que você descubra que rir é bom

Mas que rir de tudo é desespero

Desejo que você tenha a quem amar

E quando estiver bem cansado

Ainda exista amor pra recomeçar

Pra recomeçar

Eu te desejo muitos amigos

Mas que em um você possa confiar

E que tenha até inimigos

Pra você não deixar de duvidar

Quando você ficar triste, que seja por um dia

E não o ano inteiro

E que você descubra que rir é bom

Mas que rir de tudo é desespero

Desejo que você tenha a quem amar

E quando estiver bem cansado

Ainda exista amor pra recomeçar

Pra recomeçar

Eu desejo que você ganhe dinheiro

Pois é preciso viver também

E que você diga a ele, pelo menos uma vez

Quem é mesmo o dono de quem

Desejo que você tenha a quem amar

E quando estiver bem cansado

Ainda exista amor pra recomeçar

Eu desejo que você tenha a quem amar

E quando estiver bem cansado

Ainda exista amor pra recomeçar

Pra recomeçar

Pra recomeçar”



Recomecei. Ainda não totalmente, ainda sem energia, sem saber como pagar o aluguel, sem todas respostas, mas com a certeza que novas memórias serão construídas, aqui vou construir laços que não sei ainda que preciso, reconstruir outros que tenho certeza.

domingo, 20 de abril de 2025

Manual de primeiros socorros emocionais

Por Pablo Cofe


Naquela manhã de segunda (ou noite de domingo?) às 1h15, o asfalto me respondeu uma pergunta que eu já tinha feito algumas vezes: pra quem você liga quando tudo desaba? 

Literalmente — no meu caso, desabei emocional e fisicamente com uma motinha, em uma cidade onde você não encontra nenhuma cafeteria aberta depois das 10 e poucas opções de entrega no Ifood mas tem toda sua família e rede de apoio- Estava Eu Machucado, sangrando, a dignidade espalhada no chão — entre o cotovelo e o ego — e nenhuma alma viva ao redor. Só um silêncio gritante e um celular na mão.

A dor foi tanta que até o toque da tela parecia uma porrada.

A gente se engana achando que, se tudo der errado, é só ligar. Que tem alguém. Um “Rodrigo” qualquer, que venha te buscar no meio da madrugada, sem perguntas, só com um “respira, eu tô indo”. Mas a vida tem dessas crueldades cinematográficas: às vezes, o elenco de apoio não aparece (ou já partiu). E você se vê como protagonista de um drama sem figurantes.

Liguei.

Ninguém atendeu.

Com exceção de dois nomes — que, por razões de coração, eu nunca vou esquecer. Eles vieram. Me acolheram. E me disseram que eu não tava sozinho. Mas naquele instante antes deles (minutos que duraram horas), eu, sentado na calçada chorando, me senti mais abandonado que planta de escritório em véspera de feriado.

A real é: às vezes, o que mais dói não é a pele raspada no asfalto. É o silêncio do telefone. Eu nunca vi tanto sangue saindo de mim — e provavelmente eu realmente estava em choque. Ver a roda de um carro tão próxima da minha cabeça me fez perder ela por alguns minutos.

Naquele momento, percebi que amor não é sobre estar disponível, não é só cumprir um cuidado. Amor é sobre querer estar. Fazer questão. É sobre troca. Presença. E cuidar sem cobrar.

E naquela hora, entre lágrimas e vergonha, a médica me receita Rifocina (a pedido do meu irmão, que apareceu no momento certo — quem me deu amor, compaixão e acolhimento, junto com a família dele), mas eu pensei: se for pra doer, vai doer de uma vez — e que seja remédio, e não gente.

Depois do tombo — literal e emocional — eu tive alta médica e fui pra casa, sangrando pelo braço, mas com o ego ainda mais esfolado que o coração.

As mensagens não vinham.

Os exs não apareciam. E não que eu esperasse algum, mas são sempre tantas “d.r.s”, tantos dramas, tantos “amores”… e, no fim, eu tava sozinho. Pensei: por que gastamos tanta energia com gente emocionalmente inútil ou tóxica?

Enfim, nem o entregador da farmácia olhou pra mim quando pediu o código do iFood do jeito que eu precisava: com compaixão.

A verdade é que eu estava… sofrendo de abstinência emocional. Não de afeto. De alguém pra colocar uma gaze.

A ferida aberta doeu, claro. Mas o que me desestabilizou foi perceber que eu ia ter que me cuidar sozinho. E que a maioria das dores e dramas que estou vivendo é só pra anestesiar uma dor maior que sinto: a solidão que sinto na minha cidade natal, que é até maior do que em outras cidades onde vivi. Tive que arrancar esse curativo que fingia pra mim, quando estava longe, que, quando voltasse pra cá, não estaria sozinho. Tive que entender que nunca estive sozinho. Eu sou sozinho. E isso vai ser em qualquer lugar do mundo.

E foi aí que eu tive um reset emocional, revi tudo que sentia e como me relacionava, e iniciei o relacionamento mais íntimo e honesto que eu já tive — com remédios.

Sim. Remédios. (Será que nos relacionamos sempre buscando curar algo?)

Meu primeiro impulso, claro, foi correr pros braços tóxicos da Rifocina.

Aquela desgraçada ardia igual mensagem visualizada e ignorada.

Mas eu fui.

Fui porque me ensinaram que a dor faz parte da cura.

Fui porque eu achava que, se não doesse, não funcionava.

Fui porque, no fundo, ainda romantizava o sofrimento.

Ela ardeu.

Ardeu como arde se relacionar com gente tóxica e idiota: com intensidade, com promessas, com aquele prazer sádico de te lembrar da dor que você queria esquecer.

A cada aplicação, eu pensava: “É assim que tem que ser, né? Cura dói.” (Eu aprendi que o amor doía.)

Mas ela estava ali quando tudo sangrava.

Prometia proteção.

Prometia matar as bactérias.

Prometia que, apesar de doer agora, era pro meu bem.

Eu acreditei.

Como sempre.

Repeti padrões por tantas vezes, o que custava essa última?

A gente sempre acredita quando a dor vem vestida de cuidado.

E, como toda relação abusiva, ela não começou gritando.

Ela começou sussurrando: “É só uma ardência leve, eu tô limpando você.” (Doía muito mais o meu braço do que ardeu a primeira aplicação.)

E eu deixei.

Porque me ensinaram que cura tem que doer.

Porque eu tinha medo de infeccionar sozinho.

Porque era melhor sentir algo — qualquer coisa — do que lidar com o vazio de não sentir nada.

E lá estava eu, todos os dias, encostando nela, segurando o grito, chamando de cuidado o que era tortura.

Ela ardia.

Ela queimava.

Ela me fazia fechar os olhos e prender a respiração como quem espera o fim de uma briga.

E eu, bobo, penso sempre: “É isso que faz alguém ficar saudável. Doer até passar.”

E não passava.

O que ela fazia era me lembrar o tempo inteiro de que eu estava machucado.

Ela me protegeu, sim, mas até quando aquela dor ia ser necessária?

Até quando eu iria me manter refém da sensação de que, sem ela, eu pioraria?

E isso é o pior.

Porque, no fundo, a gente nunca acredita que vai se curar sem a dor.

Até que um dia… ela acabou.

Sim, eu usei um vidro de Rifocina em 5 dias, aplicando de 20 em 20 minutos — nem sei se pra doer mais ou pra sarar logo.

Mas quando acabou, eu percebi que eu não preciso manter pra sempre a dor ou aquilo que me agride — ainda que cuide de mim.

Quando a pele foi se formando, secando (quase com a velocidade do Wolverine), eu vi que, se comprasse mais Rifocina, aquele ressecamento já iria atrapalhar a pele nova que tava se formando no meu braço. E decidi não comprar mais.

Acho que foi um marco emocional pra mim.

Ali, eu parei.

Parei de agredir minha pele em nome de promessas químicas.

Parei de repetir a rotina da dor disfarçada de amor.

Parei de achar que eu merecia sofrer pra melhorar.

E foi nesse dia que eu descobri:

A Rifocina já não me salvava.

Ela começou a me impedir de cicatrizar.

Caramba! Será que era isso que todas as relações fizeram comigo? Me impediram de cicatrizar?

A ardência foi uma prisão.

A dependência era emocional.

E a relação que eu tinha com ela era exatamente igual àquela que tive com certos amores passados:

Ela só cabia existir em mim enquanto eu estivesse machucado.

Rifocina parece sua mãe depois dos 30: vai jogar na sua cara tudo, te fazer sentir dor como preço do cuidado.

Depois da Rifocina, eu achei que não fosse mais capaz de confiar em nada que tocasse minha pele.

Deus, como doía!

Não queria por perto nem produto, nem pessoa.

O trauma era tanto que qualquer toque parecia mais uma ameaça do que um cuidado.

Minha epiderme emocional — e literal — andava pedindo uma trégua.


Mas é aquela coisa: a gente só percebe o quanto está tenso quando alguém — ou alguma coisa — não machuca.


Foi assim que, no fundo da sacola da farmácia, apareceu ele: o Cicaplast.

O nome já parecia um trocadilho de novela das 7: meio cicatriz, meio plastificada.

Mas bastou uma aplicação pra eu entender…


Ele era o amigo da crise.

Ele aliviou na hora a ardência da pele.


Sabe aquele amigo que chega depois da merda toda?

Que não pergunta o que aconteceu, nem tenta passar sermão?

Só chega, senta do lado, e diz:

“Tá feio, tá ardendo, mas tô aqui. Vamos cuidar.”


O Cicaplast é isso.


Ele não arde. Ele age.

Ele não promete transformar sua pele de um dia pro outro — ele só pede constância.

É discreto, meio sem cheiro, meio sem graça… mas você termina o dia e pensa:

“Graças a Deus ele tava aqui.”


E foi aí que eu entendi que amizade — e amor — às vezes têm cara de dermocosmético francês.

É low profile, mas eficiente.

É silencioso, mas te cura.

É o tipo de cuidado que não te traumatiza.


Mas ele começou a secar minha pele demais.

Ele precisava ir embora — então exigia que eu lavasse a ferida várias vezes, o que acabava lesionando e impedindo a cicatrização.


Opa, não? De novo?

Vou me submeter a uma relação que vai me machucar mais que curar?

Eu preciso disso ainda?


Não, não.

Eu preciso de alguém que possa ficar, proteger, sem doer. Aliviar.


E aí, eu entendi o amor que vem depois da cura. (Que não veio ainda emocionalmente, mas, na pele, me permitiu entender que não preciso aceitar relações, proximidades ou medicamentos que corroem, ressecam ou agridem — ainda que em forma de cuidado.)


Quando sua pele já está fechada — ainda que sensível — o mais importante é tratar com amor, carinho, proteger aquele novo caminho, a nova pele que se forma. Conheci meu atual amor:


O nome dele? Dersani.


Sim, amor. DERSANI.

Com esse nome de vovó do interior, de óleo de girassol, de quem já viu o sol nascer e arder — e, ainda assim, resolveu acolher em vez de ressecar.

Dersani é aquele tipo de amor que você nunca achou que existia — porque passou a vida se relacionando com rifocinas sentimentais.


Quando eu abri o potinho e vi aquele óleo escorrer devagar, pensei:

“Não vai fazer nada.” “Isso é fraco demais pra mim.” “Isso não é remédio, é azeite.”


Mas então eu passei na pele…

E pela primeira vez em dias, não ardeu, não repuxou, não ressecou — e é natural! Ele pode ficar! Eu não preciso lavar!


Foi estranho.

Meu cérebro, já viciado na associação entre dor e cuidado, estranhou.

Quase gritei com o tubinho:

“Escuta aqui, teu merda: tu tá fazendo efeito ou tá só me iludindo, hein?” (Sem tempo, irmão.)


Mas aí, minutos depois, minha pele começou a acalmar.

A respirar.

Acho que tô cicatrizando de verdade.


E eu chorei algumas vezes no processo.


Chorei porque entendi que o problema nunca foi a dor —

Foi achar que só doendo é que funciona.

Foi normalizar relações que agrediam, rotular tapas como zelo e chamar abandono de “falta de tempo”.

Chorei porque percebi que amor calmo existe.

E ele não grita, não arde, não invade — ele acolhe.


O Dersani não promete milagres.

Ele não brilha.

Mas ele permanece.

E, dia após dia, sem alarde, ele constrói um novo pedaço de pele sobre o trauma.

E você acorda um dia e pensa:

“Caralho, isso aqui não dói mais.”


Então, hoje, se me perguntarem sobre amor, eu vou abrir minha gaveta, mostrar o Cicaplast e o Dersani e dizer:


“Esses aqui são os meus amores.”

Um chega quando tudo tá uma merda e ajuda a reconstruir.

O outro cuida todos os dias, com paciência e carinho, sem pressa e sem ferida — e nunca mais vai embora.


E é com eles que eu quero passar o resto da vida.

Pele com pele.

Sem ardência.

Chega de citar poetas ou paixões ardentes.

Chega de drama com gente indisponível.

Chega de dar palco pra quem não merece nem um holofote na minha vida.

Cada um que tenha e cumpra seu papel para estar nela — porque eu faço meu melhor todos os dias.


O que eu posso fazer hoje?

Tomar minha codeína, passar meu Dersani, postar esse texto e programar a mudança da casa da minha mãe. Desde que voltei de São Paulo, fiquei aqui provisoriamente. Tá na hora de deixar algumas feridas cicatrizarem.

Uma dica para vocês, meus amores virtuais: joguem foras vidros vazios(ou com resto de algo) que já te machucou - ainda que tenha sido pra te curar, entenda que a vida adulta é feita de quedas e curativos feitos com a mão esquerda, mas não precisa ser assim, é só a gente se cercar de relações naturais, que não vão embora, que não forçam, que não ardem, que não visualizam e não respondem, que te atendem sem fazer doer, o resto, que siga seu caminho, no final, acho que somos todos medicações, antes de se curar somos ardidos, curando somos secos, curados, somos dersani.

Em resumo foi ali sangrando e sozinho que percebi que minha cidade natal dói mais que qualquer queda de motinha.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Das Pessoas, Remakes e o Último Amor

 Vila Velha tem um ar diferente. Não é só o calor da terra ou o barulho do mar; é a forma como ela carrega memórias. Cada esquina, cada rua, tem algo para contar. É engraçado como, às vezes, precisamos voltar para o lugar de onde viemos para entender as voltas que a vida dá. E foi assim que cheguei novamente à minha cidade natal, sob uma Lua Cheia em Câncer – a Lua das emoções, dos reencontros, e, claro, dos amores do passado.


Sempre tive uma relação especial com as fases da lua. Não sei se é pela poesia ou pela força gravitacional que ela exerce em tudo que nos cerca, mas é fato: em noites de lua cheia, o passado sempre dá um jeito de bater à porta. E naquela noite, ele bateu, mas de forma mais sutil – uma mensagem inesperada, quase tímida: “isso sim foi uma surpresa…”.


Era ele. Não o Jarro, mas outra figura do meu passado. Aquele que sempre esteve por perto, mas nunca no lugar que deveria estar. Ele nunca foi “o amor” declarado, mas também nunca foi apenas um amigo. Sempre fomos algo entre os dois. Nunca nomeado, nunca assumido, mas sempre ali, como se estivesse esperando o momento certo para ocupar o espaço que parecia reservado.


“Como você está? Ainda em São Paulo?” – ele perguntou. Não estava. Naquele momento, eu estava aqui, em Vila Velha, tentando entender por que a vida parecia tão inclinada a fazer com que eu revisitasse histórias que ainda não tinham um ponto final. A Lua Cheia estava no céu, e eu não sabia se era ela ou se era o destino que estava revirando as páginas da minha vida, mas eu sentia que algo estava se movendo.


Eu nunca amei ninguém pela metade. Talvez por isso, em algum canto de mim, ainda ame todos os amores que passaram pela minha vida. É como se cada história tivesse deixado uma marca indelével, uma linha mal terminada, que de vez em quando reaparece pedindo um ponto final. Nos últimos tempos, parece que cada uma dessas histórias está voltando, como um desfile de remakes, para me fazer sofrer por elas uma última gota, como se o universo estivesse me preparando para o meu último amor.


Não sei se é a Lua, se são as memórias, ou se apenas cheguei a um ponto em que não consigo mais ignorar os sentimentos que arquivei. Cada encontro, cada mensagem inesperada, me coloca de frente com o que deixei para trás – e o que deixei inacabado. E é estranho, porque eu não quero remakes. Como já disse antes, remakes me deixam desconfortável. Não gosto de revisitar algo que já vivi, como se tentasse colocar um filtro moderno em uma foto que já foi linda à sua maneira.


Será que todos esses retornos são inevitáveis e  talvez todos nós sejamos remakes de nós mesmos, tentando corrigir erros antigos com as ferramentas que temos agora? 


 Das Pessoas Palavras-Cruzadas


Sempre pensei nas pessoas como Caças-Palavras e Palavras-Cruzadas. As Caças-Palavras são claras. Você precisa de paciência para encontrar o que está escondido, mas, uma vez que encontra, tudo faz sentido. Já as Palavras-Cruzadas são um enigma constante, cheio de espaços em branco que você tenta preencher com o que acha que é certo, mas nunca tem certeza, esse texto foi todo sobre uma pessoa específica, e ele de repente me aparece no Tinder, talvez o primeiro amor que tive, nos conhecemos com quantos? 18 anos?


Ele  sem dúvida é Palavra-Cruzada. Sempre foi. Ele preencheu espaços na minha vida que eu nem sabia que estavam lá, mas deixou muitos outros em branco. E agora, depois de tanto tempo, ele reaparece, como uma pergunta antiga que eu ainda não sei responder. Será que ele é o final de uma história ou o começo de outra?


“Que bom que Você voltou”, ele disse, como se isso fosse óbvio, mas ao mesmo tempo carregado de significados. Não sabia se ele estava falando de mim voltando para Vila Velha ou para ele. Talvez fosse um pouco dos dois.


Conversamos como se o tempo não tivesse passado, mas ele passou. Colocamos alguns ok toa nos Is, perguntei: “você lembra que quando começamos a conversar o que nos falávamos?” Ele disse “Sim, Lógico”, eu disse “Eu era apaixonado por você”, e ele “eu fiz direito por você”, reconheceu que existia uma tensão sexual imensa entre nós quando viramos amigos, o que deixava ele nervoso, e eu, confuso, mas eu já não fico mais sem respostas, Eu não sou mais o mesmo. Ele também não. Havia algo ali, algo que parecia inacabado, como um livro que a última página nunca foi escrita.


Eu disse como foi triste ter me afastado dele, durante anos ele foi o único a saber da minha sexualidade, da minha vida, ele era meu espaço seguro, onde eu contava tudo e podia ser eu, ele sempre foi meu apoio, “era o que eu sentia que era”, disse ele, perguntei por que nunca tivemos nada, ele disse, por que era tudo confuso, Eu sorri. Não porque concordava, mas porque era engraçado como tudo parecia convergir para aquele momento. A Lua, o mar, Vila Velha, ele. “Talvez a gente sempre tenha tido”, pensei.

Nossas conversas pareciam ter sintonia, carinho, história e significado, ele disse que odiava exposição, talvez por que eu escrevia sobre ele nesse blog, eu disse que deveríamos ter casado, ele disse que sim, teria nos poupado muito!

E, como se o universo tivesse decidido que a gente precisava resolver isso, convidei ele para  sair comigo no Carnaval,Porque, claro, se é pra revisitar o passado, que tenha máscaras, confetes e paetes, e que seja no meio da avenida. Mas, como toda boa história minha, o plot twist veio rápido. Antes mesmo do bloco, eu fui checar o Tinder – e lá estava o golpe: o match tinha sido desfeito.

Era como se a história inteira tivesse sido reduzida a um meme: “Devíamos ter casado, mas antes vou te dar um unmatch em você, Beijo, tchau.” E ali estava eu, segurando o dedo celular, rindo sozinho, porque, sinceramente, o que mais dava para fazer? A Palavra-Cruzada da minha vida, me deixou novamente com os espaços em branco para preencher, que eu preenchi dessa vez:

“Tudo bem? Notei que desfizemos o match no Tinder e, embora eu não saiba exatamente o que isso significa, kkkk, não gostaria que algo ficasse em aberto ou mal entendido entre a gente. Se foi algo que fiz, como continuar ativo por lá ou trocar as fotos, queria esclarecer que foi uma brincadeira no meu Instagram, mostrando matches possíveis em NY – nada real ou significativo. Sei que talvez nem faça diferença, mas achei importante dizer para que eu não me sinta mal por qualquer coisa.

O que eu queria te dizer pessoalmente era, na verdade, um pedido de desculpas. Lá atrás, quando nos afastamos, sinto que não insisti o suficiente para ouvir o seu lado da história. Também não respeitei tudo o que já tínhamos construído e o quanto nossa relação, mesmo nesse limbo entre amizade e algo mais, era importante. Hoje, vejo que poderia ter agido diferente.

Não espero nada com isso, só queria ser honesto e reconhecer como me sinto. Me desculpa, de verdade, por não ter sido melhor naquela época. Quero que tudo fique claro e resolvido entre a gente, sem pendências ou dúvidas (não deixo mais assuntos inacabados – rs).

Independentemente de qualquer coisa, sempre tive muito carinho por você e espero que fique bem.”

Enviei, porque, se tem algo que aprendi, é que nem toda história precisa de um final feliz, mas toda história merece um ponto final, ainda que depois tenha um novo capítulo. Não sei se ele vai responder, e, sinceramente, já aceitei que talvez essa seja só mais uma história sem conclusão, como um remake cancelado antes da estreia, e sobre o carnaval, se ele não quer ser meu match, até lá encontro um superlike melhor, afinal, eu nunca precisei de aplicativos.

Do Último Amor


Eu me pergunto se toda essa revisitação ao passado é para me preparar para algo maior. Para que, quando o último amor chegar, eu não tenha mais dúvidas ou pendências. É como se eu precisasse sentir cada dor, reviver cada erro, para que nada disso interfira no que está por vir. Talvez o último amor não precise ser perfeito, mas ele precisa ser meu. Precisa ser verdadeiro.


 Das Palavras-Cruzadas aos Caças-Palavras, dos remakes e aos revivals, todos eles têm algo em comum: eles só fazem sentido quando você decide que o jogo acabou. Quando você coloca o lápis de lado e diz: “Isso é o suficiente.”


E talvez seja isso que o amor verdadeiro seja – não um remake, não um enigma, mas o começo de uma história onde você não precisa preencher nenhum espaço em branco. Onde o que você é, basta.


Pós-Crédito :


Bom, como toda boa história, a vida decidiu adicionar mais um capítulo inesperado depois que publiquei aquele texto. A Lua Cheia em Câncer realmente sabe como bagunçar nossas emoções e mexer nas caixinhas de lembranças, não é mesmo? Pois bem, Ele  leu o texto. Respondeu. E a resposta? Me fez rir! Ele, com o jeitinho leve e bem-humorado de sempre, praticamente disse: “Para de drama, Pablo, tá tudo bem! Isso não muda nada!” E sabe de uma coisa? Talvez ele esteja certo.


Talvez a Lua Cheia não seja apenas sobre revisitar o passado, mas sobre encontrar paz com ele. E, quem sabe, abrir espaço para novos capítulos — sejam eles escritos com ele, com alguém novo ou, como sempre, só comigo mesmo. Afinal, o protagonista dessa história sempre fui eu, né?


Continuamos o papo com astrologia (descobri que ele não sabe NADA de signos, mas finge que sabe, o que é bem a cara dele), histórias de infância e, claro, meu famoso ceviche, que ele teve o disparate de dizer que nunca provou. MENTIRA. Provou sim, mas como bom narrador  dessa história, deixei ele com essa.


E sem final, seguimos. Com memes no WhatsApp, links do Spotify e risadas sobre tudo e nada. E quer saber? Isso já é o suficiente.




segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Remakes e Revivals ou Como viajar no tempo em São Paulo.

 



Na era dos remakes e revivals, somos constantemente convidados a revisitar o passado, seja na arte, seja em nossas próprias histórias. Essa reflexão não é apenas sobre séries, filmes ou novelas que retornam às telas, mas também sobre as relações e os capítulos da vida que insistem em reaparecer. Este texto é sobre isso: amor, memórias e a busca por recomeços – com novos olhares e uma Lua mais brilhante.

I. Dos Remakes e Revivals

Remakes estão na moda na atualidade. Harry Potter já está sendo refeito. Eles têm o poder de resgatar histórias, modernizá-las e conectá-las a novas gerações. Vimos uma série de Entrevista com o Vampiro em pleno 2023. Eu confesso que tenho um grande preconceito em reviver histórias. Me causa estranhamento ver de novo personagens que eu já amei sendo interpretados por outras pessoas. Me dá angústia, agonia, porque sou apegado à imagem antiga. Mas, incrivelmente, eu amei Entrevista com o Vampiro! Muito mais liberal e fiel ao livro. Na verdade, muitas vezes supera o sucesso dos originais – ainda que poucos saibam que são remakes.

No Brasil, novelas como O Cravo e a Rosa, inspirada em A Megera Domada, conquistaram públicos que desconhecem sua base literária. Enquanto isso, filmes internacionais como Os Infiltrados, vencedor do Oscar, superaram o alcance de sua versão original, o thriller asiático Conflitos Internos. Essa dinâmica de reinvenção cultural revela como a arte pode ser recriada para novos contextos, despertando amor por narrativas clássicas em roupagens modernas.

Há pouco tempo, um dos meus filmes preferidos, Segundas Intenções (Cruel Intentions), virou série. Por ter amado a nova versão de Entrevista com o Vampiro, pensei: Vou assistir!. Não consegui! Talvez porque eu ame demais Ryan Phillippe e Reese Witherspoon e não consegui superar suas substituições – assim como não superei o divórcio deles na vida real.

II. Da magia dos revivals

Bem, diferente de remakes, existe o revival, que, ao invés de substituir os atores, traz eles na idade atual, amadurecendo os personagens e fazendo-os se reencontrar. Eu amo revival! Sex and the City virou And Just Like That em 2022, com aquelas personagens que já amo enfrentando novos conflitos. Assim como Halloween, que voltou em uma trilogia maravilhosa, com Jamie Lee Curtis, aos 60 anos, enfrentando Michael Myers e dando vida a Laurie pela última vez. Ainda espero ver Robert Englund e Heather Langenkamp como Nancy e Freddy – nem que seja só por mais um momento.

Enquanto não vejo Robert interpretando Freddy Krueger novamente, um personagem de 2016 retornou à minha vida com o mesmo "ator": o Jarro. Vocês lembram? Aquele bonito, até bonito, com flores em alto relevo. Primeiro, recebo um áudio de um amigo às 3 da manhã dizendo que encontrou ele em uma festa, e que ele pediu para me desbloquear porque me amava. Pensei: Eram dois anos sem nenhum contato, oito anos de história... Por que não?. Mesmo com a minha aversão total a remakes, desbloqueei.

III. Do revival na minha vida

Após algumas discussões e atritos – como vocês sabem, estou de volta a São Paulo, terra cinza de Jarros, Lobos, Ursos e Pastores Belgas –, desci do escritório um dia e lá estava ele. Lindo, em alto relevo e com uma coleira segurando o Blue (um cachorro forte e com cara de bravo!). Ele me disse que foi me ver e apresentar o Blue. Não coloquei a mão (vide "Bizarre Love": eu não tenho sorte com cachorros bravos ou traumatizados). Conversamos e nos despedimos. Na hora de dar tchau, ele me abraçou e me deu um beijo na boca. Eu não entendi.

Por duas ou três vezes, ao descer do escritório, ele estava lá. Sempre me beijava e ia embora, sem respostas, sem falar nada. Eu me perguntava: Será que estou diante de um remake? Ou de um revival? Eu não conseguia definir.

Eu ensaiei um breve namoro (dos que não merecem texto nem registro) e, quando postei com ele no karaokê, recebi uma mensagem do Jarro: Não acredito que está namorando! Por que não me esperou?. Respondi: Você nunca me convidou para sair nem para nada. O namorico (ico porque nada foi) terminou bem rápido, e logo o Jarro me disse: Semana que vem, quinta, saímos juntos!. E eu disse sim.

IV. Das festas e confusões em 2024

Fomos ao karaokê. Quando cheguei, estavam todos os amigos dele – tipo uma confraternização da firma (eu esperando um date). Ele deixou claro que eu não era nada, só um amigo. Um dos amigos dele começou a dar em cima de mim, e ele me abraçou e me beijou (um beijo seco, sem vida, sem take, nem valia uma cena do episódio). Segurou minha cintura pelo resto da noite. Depois de muita bebida e várias festas, ele não me soltava. Um amigo dele me puxou e disse: Fica comigo, ele não te trata bem. Vai ser bom para diminuir o ego dele. Ele merece. Eu ri. Lembrei de tudo que ele já tinha me feito sofrer em 2016 e respondi: Olha o tamanho dele, ele vai te matar.

Festa estranha, com gente esquisita. Eu não tava legal e não aguentava mais birita. O Jarro, pela minha proximidade com o amigo, não falou mais comigo. Fui embora. Ele achou que não fui sozinho e, a partir daí, tivemos uma série de brigas. Perguntei: O que você quer comigo?. Ele disse: Nada. E fim.

IV. Das voltas a 2016 - Das viagens no Tempo que fazemos

Mas não era o fim (acho que nunca é). Definidos como amigos, ele me chamou para sair. O aniversário dele estava próximo, mas eu tive que dizer não. Não tinha dinheiro para um episódio de externas noturnas na minha série, nem energia. Na semana seguinte, após uma grande vitória profissional, decidi comemorar. Não tenho amigos na cidade, então escrevi para ele: Vamos comemorar comigo? Como amigos?. Ele disse sim.

Nos encontramos. Robson me escreveu: Voltamos à temporada de 2016?. Respondi: Não! Agora só amigos. O Jarro disse: Calma... A bebida começa a subir e já não é tão amigo assim.

Entramos na festa. Ele pediu para tirar uma foto comigo e postar (ele postar comigo? Estranhei). Tiramos as fotos, bebemos, dançamos, e, de repente, nos beijamos. Aquela balada virou uma cápsula do tempo direto para 2016. Era o mesmo Jarro, o mesmo toque, o mesmo beijo. Eu nem me sentia no chão. Por um momento, decidimos que ficaríamos ali para o resto da vida. Casa comigo?. Caso!.

Saímos de mãos dadas. Ele me abraçava por trás durante toda a fila. Tudo parecia estar onde deveria estar.

Dali, fomos direto para a casa dele. Blue estava lá. Eu estava com medo, mas ele era doce e carinhoso (os dois eram). Fui me aproximando do Blue, que estava meio agitado. J. disse que ele ficava assim com estranhos em casa. Respondi: Me desculpa. Ele disse: Ele tem que se acostumar. Você não é um estranho. Você é o Pablo!. Meu olho brilhou. Fui olhar a minha vista preferida de São Paulo: a janela do apartamento dele.

Mas, assim que o álcool passou, o Jarro disse: Tudo que falei foi porque estava bêbado, tá?. Respondi: Tudo bem. Então vou embora. Ele me puxou e disse: Não vai. Espera. Eu preciso me acostumar também. Te amo.

Deitamos e nos amamos. Dizem que, quando estamos perto de alguém que amamos, o cérebro libera ocitocina, levando o casal a um estado de sonolência. O Jarro virou e falou: Meu Deus, eu nunca me senti assim. Parece que estou dopado. Respondi: Eu também. Expliquei a ele como funciona a ocitocina no cérebro enquanto beijava o rosto dele. Ele disse: Por favor, para de me dar amor, porque não consigo continuar o que estava fazendo com você. Rimos. Ele conseguiu. Passamos a noite fazendo... mas sem chegar ao fim.

Dormimos durante o dia, e à noite ele pediu que eu não fosse embora, que ficasse ali (eu queria ficar pra sempre). Mas, na mesma intensidade que a gente se ama, o passado volta e a gente se odeia. Em minha cabeça, fica uma confusão: Vale a pena esse revival?.

O mesmo amigo que me fez desbloquear o Jarro comentou na foto que ele postou nossa: "O casal que eu shipo". Respondi: "Se depois de 9 anos ainda existe alguma coisa, isso provavelmente é amor. Deve valer a pena".

Tudo foi tão mágico e fantástico que eu só queria ficar ali, deitado no peito dele, abraçando o Blue, que nessa altura já era meu melhor amigo e encostava a cabeça na minha para pedir carinho. Ali era o único lugar em que me senti seguro e, de alguma forma, protegido há tempos. Saímos para passear com o Blue, arrumamos a casa, desci com o lixo dele, mas eu precisava ir em casa: trocar de roupa, pegar meus remédios diários e outras coisas. Ele me fez prometer voltar, e, como de costume, obedeci.

Indo para casa, fui desligando meu emocional. Afinal, era o Jarro, e ele podia, a qualquer momento, dizer que éramos só amigos. Senti que ele estava precisando de cuidado, talvez se sentindo sozinho. Vi nele uma vulnerabilidade que nunca havia sentido antes e quis cuidar dele também. Arrumei tudo e voltei.

Quando cheguei, ele estava bravo, tomando banho. Perguntei: "O que você está fazendo? Você bebeu mais?". Ele respondeu: "Você sumiu por duas horas...", muito nervoso. Às vezes, eu penso que ele me ama e não consegue admitir. Foi isso que pensei nessa hora. Dei banho nele e fomos para a cama.

Dormimos e, no meio da noite, ele me acordou. Ali, fiz tudo que não fiz em 2016, até o fim. Só não foi mais perfeito porque eu não consigo me entregar se não tenho certeza de que estou sendo amado. Mas foi mágico e parecia o início de um caminho.

V. Dos ciclos sem fins.

O dia amanheceu, e acordei sozinho. Escrevi para ele perguntando onde estava. Ele mal respondeu; tinha saído com o Blue. Quando chegou, levantei para dar um beijo e um abraço, mas ele meio que se esquivou. Fez café da manhã com o seu mau humor habitual. Nunca sei se ele está manifestando carinho ou me mandando embora, enquanto eu esperava ouvia suas musicas do Spotfy, musicas que eu amava, e nem me lembrava, pensei em como ele consegue me lembrar o pior e o melhor de mim.

Fiquei brincando com o Blue enquanto juntava minhas coisas. Ele me chamou para deitar na cama e mandou o Blue sair. Nesse momento, onde eu estava, o Blue estava em cima de mim – e eu já completamente apaixonado. E Quando o Blue saiu, ele veio. Eu disse: "Não". Ele nem tinha me beijado ou demonstrado qualquer carinho.

Então o Jarro começou a desenterrar todo o passado (como ele sempre fez), que eu nunca havia me entregado completamente a ele (como poderia me entregar a algo que nunca me quis por completo? que sempre disse que amava a outro e não a mim.) e um passado pós-2016 que nunca foi escrito aqui (nem será), do qual não me orgulho e que ainda me machuca. Afinal, quando caímos em um poço, às vezes a escuridão é tanta que não percebemos o que fazemos. Tentamos sair, nos machucamos, e foi isso que aconteceu comigo. Enquanto ele falava, eu queria chorar, queria responder, mas pensei: "Esse não é um texto que quero repetir. Quero deixar essas falas para trás. Não quero interpretar esse personagem de novo".

VI. Sem remakes, apenas novos capítulos

Arrumei minhas coisas, como já tinha feito tantas vezes antes, e pedi que ele me levasse até a porta. Ele perguntou: "Você vai fazer isso de novo? Vai terminar como sempre?". Perguntei: "Como você quer que termine?". Ele respondeu: "Nem todo mundo que te beija te ama. Eu amo o Blue, mas às vezes trato ele mal, e nem por isso quero que ele vá embora".

Eu ri. Ri porque ele me comparou ao cachorro, mas preferi acreditar que era a forma dele de dizer que me amava e queria que eu ficasse. Deitei na cama de novo. Não só por ele, mas porque não queria repetir uma cena que já vivi antes nesse epílogo.

Vimos um filme. Ele, com aquele jeito estranho de manifestar algum sentimento. Eu, ainda preso à ideia de que, mesmo ele sem saber, ainda me queria ali. Depois, ele foi fazer o almoço.  Almoçamos. Lavei as louças. Meu Deus, parecia que ele nunca tinha limpado uma panela na vida! Quando terminei, ele disse: "Vou ao parque com o Blue. Você vai dormir de novo? Pode tirar o lixo?".

Pensei: "Será que ele acha que vou ficar assim? Ele me tratando desse jeito?". Respondi: "Não. Preciso ir embora, lavar roupa, arrumar minha casa". Levantei, peguei minhas coisas, peguei o lixo e chamei meu Uber.

Saímos juntos do apartamento. Quando ele chamou o elevador, me deu um beijo e disse: não conseguimos jogar video game, nem ir na piscina. Olhei para ele e disse: "Eu nunca vou conseguir te entender". Ele sorriu.

Quando saí, o carro já estava me esperando. O Jarro pegou o lixo da minha mão e disse: "Deixa que eu jogo fora". Entrei no carro e fui para casa pensando, será que existe amor aqui? Será que devo voltar com o video game? Que jogo jogamos durante esses dois dias? Será que sou só uma memória quando ele beber e quiser colocar o lixo para fora?. Cheguei em casa e chorei. Não por ele. Chorei tudo que quis chorar quando ele desenterrou minha “Idade das Trevas”.

Me arrependi novamente de tudo que fiz e pensei: "Será que alguém vai perdoar esse passado um dia? Será que eu vou perdoar? Quantas vezes vou ter que reviver essa história ainda?".

A dúvida na minha cabeça era: Como explicarei alguma vez esse passado?. Preciso explicar algo que me machuca? Podia dizer como estava destruído por dentro de tantas formas. Podia responder, quando ele reclamou do meu cheiro de fumaça, que foi o que sobrou do tanto que ele e outros fizeram do meu coração – cinzas.

Ainda não sei como terminará essa temporada, ou esse revival, mas sei o que eu não quero mais. Não quero viver ou reviver o passado. Não vou fazer um remake. Não tenho mais o corpo de 2016. Não tenho mais o cheiro de 2016. Não tenho a beleza de 2016. Mas também não tenho a sombra de 2019. Não tenho mais o comportamento da minha "Idade Média". Ainda que eu não tenha as respostas para o futuro ou completamente o comportamento que espero ter, sei que estou caminhando para ele.

VII. Das novas luas cheias

Termino de escrever este texto. Olho para o céu de São Paulo. Está limpo, azul, e não cinza. A Lua está cheia. Exatamente a Lua dos amantes. A única certeza que tenho é que nunca a vi assim. A Lua de 2024 é muito mais linda que a de 2016. Talvez porque posso vê-la hoje. Ou porque coloquei meus óculos. Talvez esteja mais no olhar do que no momento. Eu só espero que alguem me veja assim também.


E Você já se sentiu como um remake ou revival da sua própria vida? Me conta nos comentários.