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quarta-feira, 22 de abril de 2015

"Como usar aplicativos de relacionamentos?" ou "Como acontece o amor em 2015?”



Dá o play e  vem comigo….




No século XVIII, na Inglaterra, se teve início a revolução industrial, sendo marcada pelo grande salto tecnológico onde máquinas a vapor revolucionaram o modo de produzir. Se por um lado a máquina substituiu o homem, gerando milhares de desempregados, por outro baixou o preço de mercadorias e acelerou o ritmo de produção.

Talvez nessa moda da industrialização... Melhor, da informatização... através da própria terceirização.. Substituímos serviços humanos por máquinas, programas.. aplicativos. É nesse pacote que foi a paquera e o flerte, onde as maquinas evoluíram de tal forma que todo trabalho humano se tornou desnecessário, extinguindo a fase inicial do namoro, senão o próprio, e acelerou seu ritmo de produção, pior, baixou drasticamente o preço das mercadorias.

Após um período vivendo “the single life” e sem nenhum encontro relevante,  comecei a me perguntar, Como acontece o amor em 2015? Ainda existe amor em 2015? Existe vida após o Tinder?

Hoje você não precisa convencer a ninguém a namorar com você, nem a ficar, não precisa conquistar, temos vários aplicativos que de diversas formas podem proporcionar o relacionamento que você precisa naquele momento, seja sexo casual ou com compromisso,  eles  combinam seu estilo, sua forma física, seu tipo preferido e até sua renda mensal com pessoas que estão próximas ou buscando as mesmas coisas que você.

Para entender isso eu sai para balada com amigos, entrevistei eles, e conheci pessoas, mas claro que isso não seria o suficiente para entrar no mundo do flerte automático, eu precisava senti-lo, e assim instalei e criei um perfil para cada aplicativo, e claro, aproveitei experiências de manas e manos que estão navegando nesse mar de possibilidades bem antes que eu (sem expectativa nenhuma de salvamento ou naufrágio), todas relatadas minuciosamente para vocês abaixo.

Resumidamente se quer um Encontro com muito live no Brasil, Badoo e Tinder, se procura um green card,  Ok-cupid e Grimpes, se quer um encontro para sexo casual[muito fogo e lançamento de single] Blindr, se for gay, Grindr  e se quer celebridades e seguidores/seguidos do instagram entre no Instamessage (esse te possibilita “cutucar"e conversar com seus seguidos/seguidores do Instagram onde se encontra de  ex-bbbs à celebridades e todas as pessoas do insta, ali, como uma bandeja de canapés a serem escolhidos).

E até aí minha experiência se resume e frenéticas noites de baladas em SP, 95 matchs no tinder, 68 encontros no Badoo, 4 mensagens no Insta, E varias fotos pornográficas nos outros… Mas eu precisava de um gole de vida,  pois sentia falta de frio na barriga, de olhar para a pessoa e esperar aquele olhar retornar. Eu sinto, sinto falta do arrepio do toque inesperado e do desespero para tentar entender o significado, qual significado tem o primeiro encontro se já houve um Match, uma combinação, se as afinidades já foram eletronicamente calculadas e estão ali com o mero intuito de realizar um desejo suprimido, sem segredos, sem descobertas, com todas nudes expostas em fotos e prints?

Depois de um “match" ficar se torna obrigatório, ninguém precisa conquistar ninguém, a fadiga da obrigação faz pessoas como eu simplesmente perder o tesão, não tem sentido, cansa. Tem que ter aquele formigamento quase náusea, borboleta, sino, tem que sentir alguma coisa ou ouvir um sinal antes do plaft plaft plaft. Mas não, mesmo com seu lado lindo místico, seus bares cheios e pessoas vazias, e eu cheguei a conclusão que não existe amor em SP.

E entre os matchs descobri a pergunta mais pedida: 

  • O que você procura?

De onde me surgiu a resposta mais sincera: 

  • Procuro uma forma de terceirizar minha capacidade de flertar e evitar ter que me arrumar, sair para algum lugar que tenha que me divertir até encontrar alguém que seja interessante, se interesse por mim e me convide para sair.

O mais incrível é que de vários matchs só 3 responderam essa pergunta dos quais só um levou adiante e depois de dias ainda não tinha feito o convite, mas discutiu o tema, apresentou ao texto uma nova possibilidade, a mudança do amor.

O amor não é diferente das maquinas, ele é só uma evolução, ele não existiu no passado, e poderá não existir no  futuro, há poucas décadas os casamentos eram arranjados para obter lucro patrimonial, há centenas de anos a união entre as pessoas tinha o único objetivo da procriação, ou seja, se o amor foi inventado os aplicativos são somente uma evolução, um upgrade, uma nova forma de amar, e este amor do toque, da conquista, para a próxima geração não vai existir, e para nós, mero saudosismo.

Nessa altura, a única conclusão que restava era que a falência do instituto casamento levou o flerte junto para o buraco, as pessoas não queriam o risco de começar uma história com uma outra que não fosse um match, que já não estivesse previamente associada, e isso começou antes dos aplicativos, começou quando os grupos de amigos começaram a apresentar casais dentro deles mesmos, tudo calculado, ou seja, a maquina só foi uma evolução natural que aumentou as possibilidades e denegriu o mercado, exatamente como na revolução industrial.

Então eu saí para ultima Leg de shows deste tema (leia-se ir a boate) e ao chegar me deparei com a sucursal do purgatório dos relacionamentos, parecia que todo mundo que alguém não quis em determinado momento estava ali, e pior, eu era um deles, aos amigos foi o aviso, sem performance, sem fogo, sem live, hoje não estou disposto, chegava a conclusão que depois de todas as baladas, todos os matchs, mesmo que o amor não aconteça mais, alguma coisa aconteceria, e nós, da velha guarda que gosta de sentir as borboletas na barriga, teríamos que nos adaptar.

A noite foi acabando e no outro canto da pista tinha alguém justamente igual a mim, ali, sem combinar com o envolta, sem se encaixar, talvez fosse-mos duas pessoas dispensadas que em um momento se encontraram:

- Nomes, Prazer!
[beijos]
[distancia]
(para amigos) - Ta vendo? não existe chances de amor, é só live.
[volta]
[beijos]
Errei
Anota meu número.
Toma o celular, grava aqui.
[foto da Disney]
(JUNTOS) amo a Disney!
Deus.
Também.
Familia.
Muito!
Sonho.
Também!
Noite.
Também.
Performance!
Eu subo!
Preciso descer.
Sofá.
Vamos?
Vou ao banheiro, me leva?
Sim.
Carinho.
Beijo.
Cuidado.
Confuso.
Cachorro Quente.
Embora.
Tchau.

E a historia terminaria aqui, se não fosse um telefonema e um encontro no dia seguinte, que foi mais ou menos assim:

Ela - Então tudo era para um texto.
Ele - Sim.
Ela - Porque?
Ele - Por que o amor faliu.
Ela - Mas acredita nele?
Ele - Sim.
Ela - então corre atrás.
Ele - Não corro, mas estou aberto para que ele chegue.
Ela - mas você acha que ele vai acontecer do nada? Que vai chegar para você e falar to aqui? Em um lugar onde o amor não estaria? Acha que vai encontrar alguém que combine com você no meio do nada e vão se dar super bem?
Eu - Alguém tipo você?
[beijos]

Aí você dá pausa no video do Criolo lá em cima e liga Ed Sheehan aqui embaixo, por que esse texto, que começou ao som de “Não existe amor em SP” termina com "pensando alto que  talvez encontramos o amor exatamente no lugar onde estamos"… Bom, talvez não seja o amor de fato, mas o amor não surge a primeira vista sempre, talvez ele seja construído entre duas pessoas com muito em comum e com disposição para fazer com que ele exista.

E no outro dia eu acordo, penso em tudo que queria escrever aqui, vou trabalhar, e começo a sentir todos os efeitos dos meus termogênicos, minha boca seca, minha barriga estranha, uma ansiedade… Suspiro e lembro, eu não tomei termogênico hoje.

“Maybe I found love where I are, maybe.”