sábado, 31 de maio de 2025

Crônica para quem voltou gripado de um bar e não de um amor (ou: eu gosto de paz, mas me chamaram pra confusão)

 Era sexta-feira. A cidade, molhada. Eu, gripado. E ainda assim, fui.

Fui porque insistiram, porque chamaram, porque — no fundo — ainda há uma parte minha que acredita que ser chamado é o mesmo que ser querido.


Erro antigo, esse. Mas sou homem de ideias ruins — já deixei claro na última crônica. Ideias ruins me conduzem melhor do que qualquer Waze emocional.


Cheguei no bar. Rouco, febril e de casaco. Entreguei meu corpo pra uma cadeira desconfortável e esperei o afeto que me convocou. Mas quem apareceu primeiro foi o constrangimento. Sentou do meu lado, pediu uma cerveja e cochichou no meu ouvido:

“Você não devia estar aqui.”


Tarde demais. Eu já estava.


No meio da fumaça e das garrafas, um detalhe teatral: o namorado do aniversariante — amigo dele — veio me dizer algo que eu não pedi, mas que explicou tudo:

“Ele têm uma coisa comigo… sabe? Não sei explicar. É tipo um negócio mal resolvido. Ele gosta, mas não quer parecer. E aí faz ciúmes.”


Claro. Agora tudo fazia sentido.


O ciúme não era sobre mim.

Eu era o elemento cênico.

A isca.

A provocação.


Ao meu redor, beijos circulavam sem existir como bandeja de shot  de cachaça— e no centro, ele.

O moço que me chamou. O mesmo que disse querer me ver.

O mesmo que, naquela noite, me usou como peça no jogo de um ciúme que nem era meu.

Passaram a mão em mim na frente de todos. Não por desejo, mas por estratégia.


E em algum momento da noite, no meio de um riso sem graça, ele ainda soltou:

“Você canta alto demais.”


Não era sobre volume. Era sobre incômodo. Sobre me calar antes que eu desafinasse a narrativa que ele queria manter.

Não é sempre assim? Quando a nossa alegria atravessa o roteiro alheio, vira exagero.

Mas ninguém me perguntou se eu estava cantando por alegria ou pra não chorar.


Me quis objeto de disputa.

Narrativa de vingança.

Plot twist afetivo.


E eu — que só queria cantar uma música — fui colocado no meio de um triângulo torto, onde todos se olhavam menos a mim.

Fui bode expiatório de uma trama que nunca escrevi.

Um figurante com fala demais pra um papel que nunca pedi.


Fiquei ali tentando entender o que me custou mais: a febre alta, a exposição baixa ou o silêncio dele, que não teve coragem de dizer o óbvio.

Que me chamou pra compensar uma ausência.

Que me envolveu sem intenção de cuidar.

Que não esperava que eu fosse.


Mas eu fui. E voltei.

Voltei mais doente — de corpo, de ego, de paciência.


Em casa, escrevi:

“Quer ficar com os um casal? Fica. Mas não me envolve.”

Mandei sem vírgulas. Só raiva.


Depois completei, com a calma de quem já cansou de implorar por clareza:

“Me respeita. Pelos anos que a gente se conhece.

Só isso. Me respeita.”


Não sei se ele vai entender.

Não espero resposta.


Mas dessa vez, quem voltou gripado — e curado — fui eu.

Porque há dores que não precisam mais de remédio.

Só de um bom texto, um pouco de café…

e paz.

Sempre a paz. Amanhã vou comprar um cuador, minha cafeteira, acho que não volta mais.


Epílogo: deletei todas as mensagens na manhã seguinte e segui a vida. 

sexta-feira, 30 de maio de 2025

As Ideias Ruins Antes do Café

 Conviver comigo deve ser algo tragicômico. Hoje eu acordei com uma gripe terrível digna de Tristão & Isolda versão viral. Me aconselharam beber água? Como? A água mineral acabou! E meu superego — sempre muito educado — tentou me convencer a sair pra comprar. Mas ele esquece que quem mora aqui é o id: preguiçoso, dramático e cheio de charme decadente.


Vou fazer um café e a cafeteira não quer funcionar. Que merda. Sempre quando preciso ou me apaixono por algo, não funciona. Nunca sei se sou eu que não funciono, o universo dando sinais claros de desistência ou só a simples necessidade de trocar por algo novo — como quem troca o namorado pela tendência da próxima estação.


Como conseguimos descobrir se descartar é algo necessário, ou se estamos vivendo exatamente aquilo que Bauman previa: relações líquidas com validade menor que o tofu da geladeira? Ou será só o velho truque do capitalismo sentimental nos convencendo que toda emoção vem com cupom de troca?


Coloco um pão de queijo pra assar — meu corpo precisa de serotonina — e vou usar a cafeteira da Nespresso que tá no escritório. Olho pela janela: o céu tá nublado e cinza. Vila Velha cada vez mais parecida com São Paulo e Nova York, num crossover entre Café Society e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, só que sem a trilha sonora francesa e com barulho de buzina e entregador gritando “pedido cancelado”.


Isso me faz pensar: será que a melancolia era das cidades onde morei, ou só uma característica da minha aura enevoada, assinada por Margiela?


Acendo um cigarro. O primeiro em dois dias. Com certeza não é uma boa ideia — minhas vias respiratórias precisam de dilatação — mas nunca fui homem de boas ideias. Eu sou devoto das ideias ruins. São elas que conduzem minha narrativa, como se fosse dirigida por Almodóvar em ressaca criativa.


Sento na minha poltrona vermelho bordô olhando pro mar. Cadeira essa que minha última ideia ruim sentou. Péssima, maravilhosa ideia. Vou começar a nomear minhas garrafas de bebida na varanda com o nome de cada ideia ruim que contribuiu pra elas estarem meio cheias. Freud chamaria de sublimação. Eu chamo de design afetivo com memória embriagada.


O pão de queijo apita pronto. Antes, corro ao banheiro doar meu nariz à causa. Um barulho estranho no escritório. Achei que meu computador — sempre ligado como um relacionamento ansioso — tinha finalmente pifado como a cafeteira. Mas não. Era só a Nespresso finalizando meu café com aquela elegância italiana que me lembra Marcello Mastroianni, se ele fosse mineiro.


Toca o interfone. Pensei: é uma ideia ruim chegando pra visita inesperada. Não. Era só a água do Ifood. Enfim, uma ideia boa. Elas sempre chegam pela porta dos fundos, discretas, e eu sempre as deixo esperando.


Pego meu pão de queijo, meu café barulhento e vou pra varanda. Barulho de vidro. Lá se foram minhas taças? Não. Era só uma garrafa mal colocada e vazia, derrubada pelo vento da varanda. Não era nada especial, só um nome que não será exposto. Talvez porque expor seria dar palco, e hoje meu palco tá fechado pra reforma emocional.


As ideias ruins ainda estão mais cheias que o vento aqui. A última, pela metade. Acho que é uma boa forma de esquecer pessoas: façam delas garrafas de visita. Quando totalmente vazias e sem reposição… lixo. Ou doação — como quem doa um sapato caro que machucava o calcanhar.


Como meu pão, tomo meu café. Não consigo nem sentir o cheiro. Meu telefone toca: minha sobrinha me convida pra assistir um evento dela na igreja. Eu vou. Me parece uma boa ideia horrorosa. Tipo usar terno de linho branco na chuva. As ideias ruins de verdade que me carregam costumam aparecer só depois das 8, e eu, eu estarem na missa.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Ensaio Sobre o Ritmo (ou: eu sempre fui a Katie, e ele… o Hubbel)



Às vezes, tudo começa com algo pequeno.

Uma frase curta, um “oi” fora de hora, ou um sapato tirado. Uma música cantada na hora que não era sua. 

Uma noite com whisky e 40 ou mais personalidades andando por 70 metros.


A verdade é que essa história nunca foi publicada.

Talvez porque nunca teve enredo.

Ou talvez porque, mesmo sem, ela vai doer como se tivesse fim.

Foi uma conexão silenciosa — dessas que começam com piadas internas, olhares cúmplices e uma vontade absurda de estar perto sem explicação lógica.

Ele apareceu assim. Sem prometer nada, mas deixando muito no ar.

Me convidou pra cantar, me ofereceu silêncio, e quando entrou na minha casa… tirou o sapato.


Parece banal eu sei, mas pra quem já teve o coração pisado por coturnos emocionais, aquilo foi quase um ritual.

Uma reverência. Um : “eu respeito teu chão”.

É isso, é lindo.

A partir dali, tudo virou enigma.


Nos aproximamos como dois personagens que não sabiam que estavam em filmes diferentes.

Eu, com 39 anos, querendo direção, roteiro e final.

Ele, com 22, só querendo o improviso. Iguais diferentes.


E foi nesse contraste que me perdi — como sempre me perco quando amo o improvável.


Nosso sexo seria um  jazz.

Era Trouble, de Elvis, cantado fora do tom, mas com alma.

A gente se errava bonito.

Errava de corpo, de tempo, de entrega.

Mas errava junto. Talvez a gente só errou pelo compasso.

E isso, por um instante, parecia um acerto.


Foi nesse intervalo entre erro e ilusão que me vi ali por alguém que nunca esteve inteiro.

E ainda assim, acreditei.

Porque ele ria dos meus devaneios, porque deixava mensagens, porque me mandava casos como quem confia.

E porque me chamava — às vezes.


Me chamou pro pub.

E eu fui.

Achando que era convite. Era saudade. Era chance.


Mas lá estava ela.

A menina que ele pegava.

Sorrindo no banco ao lado, como se nada tivesse acontecido. E talvez nunca aconteceu. 

Como se eu tivesse apostado tudo num gesto simples, num sapato no chão.


Naquela hora, senti que estava num filme.

E lembrei de Nosso Amor de Ontem, com Barbra Streisand.

Ele era o Hubbel — bonito demais pra durar, leve demais pra ficar.

E eu, claro, era a KakaKatie. Confuso demais pra pensar, intenso demais pra durar.

Mas no meu caso: um homem velho demais pra acreditar, e jovem demais pra desistir.


Freud diria que estou repetindo o trauma — tentando curar, com a repetição, o que nunca cicatrizou.

Nietzsche, mais cruel, me lembraria que “aquilo que fazemos por amor está sempre além do bem e do mal”.

Barthes diria que meu afeto virou texto, e que amar é escrever sem resposta.

E eu?

Eu só queria que ele tivesse ficado, se importado, cuidado ou até insistido. Mesmo sem publicar o texto que pra ele pensei.”:


Que a gente tivesse cantado Trouble no compasso certo.

Que ele tivesse me beijado com calma, com verdade — sem deixar minha boca roxa.

Que o toque dele fosse menos acidental… e mais escolha.


Mas ele preferiu a leveza.

Preferiu o que não pesa, o que não exige, o que não marca.  E eu com minha boca roxa.

Ele? Preferiu a bege!

A estética da ausência. A calmaria estética dos que nunca foram profundos.


Eu?… aceitei.

Aceitei que ele ficasse com uma mulher linda e dentro do padrão.

Sorri e disse: sua garota é um docinho, Hubbel.

Como quem entende que perdeu antes mesmo do jogo começar. Por que não vou jogar.

Como quem sabe que algumas derrotas vêm embaladas em vestidos neutros e unhas feitas.


E eu, que sempre fui mais sinfonia que trilha incidental, fiquei desafinando sozinho.

Sabendo, lá no fundo, que no roteiro dele… eu era só a cena bonita que não volta mais.


Quando terminamos de cantar, uma moça na plateia disse:

“Vocês acabaram com a música.”

E eu, sorrindo de leve, pensei:

sim — mas pelo menos foi com estilo. Eu cheguei em casa e: chorei. 



Prologo: No fim, não houve drama. Só silêncio.

Ele agradeceu pelo rolê, pelo improviso, e sumiu na madrugada — como todo personagem que só serve pra impulsionar o arco de outro.

Eu fiquei ali, com o “boa noite” atravessado no peito e o sapoema esquecido sobre o balcão da Maria.

Talvez seja isso o amor em 2025: emojis educados, despedidas risonhas e uma vontade imensa de ter sido mais lembrança do que cena cortada.


Freud ainda talvez teria algo a dizer.

Mas eu?

Eu só repito: “sua garota é um docinho, Hubbel.”


Enquanto volto pra casa cantando Trouble, dessa vez, afinado. Ainda que sozinho.