Às vezes, tudo começa com algo pequeno.
Uma frase curta, um “oi” fora de hora, ou um sapato tirado. Uma música cantada na hora que não era sua.
Uma noite com whisky e 40 ou mais personalidades andando por 70 metros.
A verdade é que essa história nunca foi publicada.
Talvez porque nunca teve enredo.
Ou talvez porque, mesmo sem, ela vai doer como se tivesse fim.
Foi uma conexão silenciosa — dessas que começam com piadas internas, olhares cúmplices e uma vontade absurda de estar perto sem explicação lógica.
Ele apareceu assim. Sem prometer nada, mas deixando muito no ar.
Me convidou pra cantar, me ofereceu silêncio, e quando entrou na minha casa… tirou o sapato.
Parece banal eu sei, mas pra quem já teve o coração pisado por coturnos emocionais, aquilo foi quase um ritual.
Uma reverência. Um : “eu respeito teu chão”.
É isso, é lindo.
A partir dali, tudo virou enigma.
Nos aproximamos como dois personagens que não sabiam que estavam em filmes diferentes.
Eu, com 39 anos, querendo direção, roteiro e final.
Ele, com 22, só querendo o improviso. Iguais diferentes.
E foi nesse contraste que me perdi — como sempre me perco quando amo o improvável.
Nosso sexo seria um jazz.
Era Trouble, de Elvis, cantado fora do tom, mas com alma.
A gente se errava bonito.
Errava de corpo, de tempo, de entrega.
Mas errava junto. Talvez a gente só errou pelo compasso.
E isso, por um instante, parecia um acerto.
Foi nesse intervalo entre erro e ilusão que me vi ali por alguém que nunca esteve inteiro.
E ainda assim, acreditei.
Porque ele ria dos meus devaneios, porque deixava mensagens, porque me mandava casos como quem confia.
E porque me chamava — às vezes.
Me chamou pro pub.
E eu fui.
Achando que era convite. Era saudade. Era chance.
Mas lá estava ela.
A menina que ele pegava.
Sorrindo no banco ao lado, como se nada tivesse acontecido. E talvez nunca aconteceu.
Como se eu tivesse apostado tudo num gesto simples, num sapato no chão.
Naquela hora, senti que estava num filme.
E lembrei de Nosso Amor de Ontem, com Barbra Streisand.
Ele era o Hubbel — bonito demais pra durar, leve demais pra ficar.
E eu, claro, era a KakaKatie. Confuso demais pra pensar, intenso demais pra durar.
Mas no meu caso: um homem velho demais pra acreditar, e jovem demais pra desistir.
Freud diria que estou repetindo o trauma — tentando curar, com a repetição, o que nunca cicatrizou.
Nietzsche, mais cruel, me lembraria que “aquilo que fazemos por amor está sempre além do bem e do mal”.
Barthes diria que meu afeto virou texto, e que amar é escrever sem resposta.
E eu?
Eu só queria que ele tivesse ficado, se importado, cuidado ou até insistido. Mesmo sem publicar o texto que pra ele pensei.”:
Que a gente tivesse cantado Trouble no compasso certo.
Que ele tivesse me beijado com calma, com verdade — sem deixar minha boca roxa.
Que o toque dele fosse menos acidental… e mais escolha.
Mas ele preferiu a leveza.
Preferiu o que não pesa, o que não exige, o que não marca. E eu com minha boca roxa.
Ele? Preferiu a bege!
A estética da ausência. A calmaria estética dos que nunca foram profundos.
Eu?… aceitei.
Aceitei que ele ficasse com uma mulher linda e dentro do padrão.
Sorri e disse: sua garota é um docinho, Hubbel.
Como quem entende que perdeu antes mesmo do jogo começar. Por que não vou jogar.
Como quem sabe que algumas derrotas vêm embaladas em vestidos neutros e unhas feitas.
E eu, que sempre fui mais sinfonia que trilha incidental, fiquei desafinando sozinho.
Sabendo, lá no fundo, que no roteiro dele… eu era só a cena bonita que não volta mais.
Quando terminamos de cantar, uma moça na plateia disse:
“Vocês acabaram com a música.”
E eu, sorrindo de leve, pensei:
sim — mas pelo menos foi com estilo. Eu cheguei em casa e: chorei.
Prologo: No fim, não houve drama. Só silêncio.
Ele agradeceu pelo rolê, pelo improviso, e sumiu na madrugada — como todo personagem que só serve pra impulsionar o arco de outro.
Eu fiquei ali, com o “boa noite” atravessado no peito e o sapoema esquecido sobre o balcão da Maria.
Talvez seja isso o amor em 2025: emojis educados, despedidas risonhas e uma vontade imensa de ter sido mais lembrança do que cena cortada.
Freud ainda talvez teria algo a dizer.
Mas eu?
Eu só repito: “sua garota é um docinho, Hubbel.”
Enquanto volto pra casa cantando Trouble, dessa vez, afinado. Ainda que sozinho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário