quinta-feira, 29 de maio de 2025

Ensaio Sobre o Ritmo (ou: eu sempre fui a Katie, e ele… o Hubbel)



Às vezes, tudo começa com algo pequeno.

Uma frase curta, um “oi” fora de hora, ou um sapato tirado. Uma música cantada na hora que não era sua. 

Uma noite com whisky e 40 ou mais personalidades andando por 70 metros.


A verdade é que essa história nunca foi publicada.

Talvez porque nunca teve enredo.

Ou talvez porque, mesmo sem, ela vai doer como se tivesse fim.

Foi uma conexão silenciosa — dessas que começam com piadas internas, olhares cúmplices e uma vontade absurda de estar perto sem explicação lógica.

Ele apareceu assim. Sem prometer nada, mas deixando muito no ar.

Me convidou pra cantar, me ofereceu silêncio, e quando entrou na minha casa… tirou o sapato.


Parece banal eu sei, mas pra quem já teve o coração pisado por coturnos emocionais, aquilo foi quase um ritual.

Uma reverência. Um : “eu respeito teu chão”.

É isso, é lindo.

A partir dali, tudo virou enigma.


Nos aproximamos como dois personagens que não sabiam que estavam em filmes diferentes.

Eu, com 39 anos, querendo direção, roteiro e final.

Ele, com 22, só querendo o improviso. Iguais diferentes.


E foi nesse contraste que me perdi — como sempre me perco quando amo o improvável.


Nosso sexo seria um  jazz.

Era Trouble, de Elvis, cantado fora do tom, mas com alma.

A gente se errava bonito.

Errava de corpo, de tempo, de entrega.

Mas errava junto. Talvez a gente só errou pelo compasso.

E isso, por um instante, parecia um acerto.


Foi nesse intervalo entre erro e ilusão que me vi ali por alguém que nunca esteve inteiro.

E ainda assim, acreditei.

Porque ele ria dos meus devaneios, porque deixava mensagens, porque me mandava casos como quem confia.

E porque me chamava — às vezes.


Me chamou pro pub.

E eu fui.

Achando que era convite. Era saudade. Era chance.


Mas lá estava ela.

A menina que ele pegava.

Sorrindo no banco ao lado, como se nada tivesse acontecido. E talvez nunca aconteceu. 

Como se eu tivesse apostado tudo num gesto simples, num sapato no chão.


Naquela hora, senti que estava num filme.

E lembrei de Nosso Amor de Ontem, com Barbra Streisand.

Ele era o Hubbel — bonito demais pra durar, leve demais pra ficar.

E eu, claro, era a KakaKatie. Confuso demais pra pensar, intenso demais pra durar.

Mas no meu caso: um homem velho demais pra acreditar, e jovem demais pra desistir.


Freud diria que estou repetindo o trauma — tentando curar, com a repetição, o que nunca cicatrizou.

Nietzsche, mais cruel, me lembraria que “aquilo que fazemos por amor está sempre além do bem e do mal”.

Barthes diria que meu afeto virou texto, e que amar é escrever sem resposta.

E eu?

Eu só queria que ele tivesse ficado, se importado, cuidado ou até insistido. Mesmo sem publicar o texto que pra ele pensei.”:


Que a gente tivesse cantado Trouble no compasso certo.

Que ele tivesse me beijado com calma, com verdade — sem deixar minha boca roxa.

Que o toque dele fosse menos acidental… e mais escolha.


Mas ele preferiu a leveza.

Preferiu o que não pesa, o que não exige, o que não marca.  E eu com minha boca roxa.

Ele? Preferiu a bege!

A estética da ausência. A calmaria estética dos que nunca foram profundos.


Eu?… aceitei.

Aceitei que ele ficasse com uma mulher linda e dentro do padrão.

Sorri e disse: sua garota é um docinho, Hubbel.

Como quem entende que perdeu antes mesmo do jogo começar. Por que não vou jogar.

Como quem sabe que algumas derrotas vêm embaladas em vestidos neutros e unhas feitas.


E eu, que sempre fui mais sinfonia que trilha incidental, fiquei desafinando sozinho.

Sabendo, lá no fundo, que no roteiro dele… eu era só a cena bonita que não volta mais.


Quando terminamos de cantar, uma moça na plateia disse:

“Vocês acabaram com a música.”

E eu, sorrindo de leve, pensei:

sim — mas pelo menos foi com estilo. Eu cheguei em casa e: chorei. 



Prologo: No fim, não houve drama. Só silêncio.

Ele agradeceu pelo rolê, pelo improviso, e sumiu na madrugada — como todo personagem que só serve pra impulsionar o arco de outro.

Eu fiquei ali, com o “boa noite” atravessado no peito e o sapoema esquecido sobre o balcão da Maria.

Talvez seja isso o amor em 2025: emojis educados, despedidas risonhas e uma vontade imensa de ter sido mais lembrança do que cena cortada.


Freud ainda talvez teria algo a dizer.

Mas eu?

Eu só repito: “sua garota é um docinho, Hubbel.”


Enquanto volto pra casa cantando Trouble, dessa vez, afinado. Ainda que sozinho.

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