Essa semana, vindo pra casa com as marmitas e a arrumação de casa na cabeça, fui parado na rua por um conhecido. Não era qualquer conhecido — era meu maior dueto de Elvis no karaokê do Jacksons, alguém que já viu minha voz tentando ser charme e falha técnica ao mesmo tempo e ao invés de rir, cantou também.
Ele me disse:
— Cara, eu li seus textos. São incríveis.
E me olhou como quem acabou de abrir a minha cabeça com uma colher de sobremesa ( o que tinha acabado de fazer.)
Eu travei. Pensei:
Meu Deus, agora ele sabe. Sabe como eu penso, como eu quebro, como eu tenho apelidos imaginários para pessoas que não gravo ou não quero dizer os nomes, como eu frito cebola quando tô carente e como eu sou um pouco poesia, drama, sarcasmo e melancolia tudo com farofa e pimenta em cima.
Eu agradeci, dei um abraço, e fui embora com a sensação de que alguém tinha me visto nu — mas não nu sensual, nu de alma, de dentro da pia bagunçada da minha psique.
Em casa e comecei a cozinhar e após uma mensagem do Dublê de Elvis, fiquei olhando como vejo sentido em tudo e como meus diálogos mentais são esquisitos e ricos.
Eu estava ali, misturando com temperos minhas reflexões sobre relações, sexo e cozinha.
Digerindo o mundo, o passado, o presente e tudo que eu sinto enquanto misturo muita carne dentro de uma grande panela de pressão, com minha reflexão diária dos últimos tempos: estou cozinhando só pra mim.
Cortei o que quis, exagerei na pimenta sem me preocupar com quem tem gastrite, usei cebola até dar vontade de chorar (e não foi pela cebola).
Fiz meus próprios caldos — literal e metaforicamente.
E fui feliz.
Não tirei nada do prato. Nem da essência.
Pela primeira vez, a comida era pra mim, por mim, do meu jeito.
E olha que, por anos, eu cozinhei pra batalhões.
Já fiz almoço pra namorado, ex, namorado de ex, ex de namorado, mãe do namorado, amigo da mãe do namorado…
Mas sempre, sempre tive quem lavasse a louça depois.
Essa semana, a pia era minha.
E foi ali, com o dedo dentro da esponja e a alma fora do eixo, que eu percebi:
o preço da autonomia emocional e física é encarar a louça.
Literalmente.
E olha, tinha muita louça. Tinha o prato fundo que eu nunca uso, o talher da fase minimalista e — claro — a caneca mágica que o João- Jarro me deu de aniversário antes de me jogar na cara que eu era só uma noite de sexo, e, sem saber, me devolver pra minha cidade.
Aquela mesma caneca, que ele me deu na melhor vista de São Paulo na minha última semana lá.
É daquelas que mudam de cor quando recebe café quente e ela revela uma música, que naquele momento só se lia a frase: “Você viu só que amor, nunca vi coisa assim…”
Pois bem.
Mesmo fria, sem café e sem graça, a frase ainda tava lá. Aparecendo. Persistente.
Como um recado atrasado do universo, ou uma notificação afetiva do passado.
Joguei ela na bacia de água fria.
Apagou na hora.
E eu pensei:
nem tudo eu preciso lembrar, né?
Às vezes, o amor frio também precisa ser lavado.
Mesmo que a louça tenha sido presente.
Mesmo que já tenha servido um café de bom dia.
Hoje, sábado de chuva, a cidade tá em preto e branco e meu apartamento em luz âmbar.
A marmita tá pronta.
A casa tá em silêncio.
E eu tô deitado na cama, pensando em como cozinhar sozinho tem sido um tipo de masturbação emocional:
você faz do seu jeito, sente prazer, não precisa explicar o ponto do molho pra ninguém, e no fim…
sim, tem sujeira.
Mas é só sua.
E sinceramente?
Que delícia! Voltando pro quarto na casa escura dancei no corredor.
Nem tudo precisa de plateia.
Nem todo prato precisa ser dividido.
Nem todo gozo precisa de dois corpos.
Às vezes, o prazer tá em fazer do seu jeito — e limpar depois. Ou não.
Minha louça tá limpa, quase toda, sabe a panela de pressão?
Tá cheia de água com detergente desde ontem.
Não lavei.
Mas também não deixei na pia.
Joguei ela na lavanderia.
Só porque lá tem tanque e… sinceramente, ela não cabe na minha pia.
Nem eu.
E hoje, pela primeira vez, tive um sábado inteiro só meu.
Silencioso.
Molhado.
Quente só onde precisava ser.
E tive amor suficiente.
Prologo: o Palavras Cruzadas (ou seria reencontro do Tinder? Ou só amigo do passado que nunca foi nada? Chamarei ele do Cara que não era dono do chinelo!), ele ainda me escreve, e eu não sei ainda em que caixa coloco ele, talvez algumas pessoas nos mantem na vida não por gostar da gente, mas por nossa utilidade, só que isso, isso já é material do próximo texto.
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