sexta-feira, 30 de maio de 2025

As Ideias Ruins Antes do Café

 Conviver comigo deve ser algo tragicômico. Hoje eu acordei com uma gripe terrível digna de Tristão & Isolda versão viral. Me aconselharam beber água? Como? A água mineral acabou! E meu superego — sempre muito educado — tentou me convencer a sair pra comprar. Mas ele esquece que quem mora aqui é o id: preguiçoso, dramático e cheio de charme decadente.


Vou fazer um café e a cafeteira não quer funcionar. Que merda. Sempre quando preciso ou me apaixono por algo, não funciona. Nunca sei se sou eu que não funciono, o universo dando sinais claros de desistência ou só a simples necessidade de trocar por algo novo — como quem troca o namorado pela tendência da próxima estação.


Como conseguimos descobrir se descartar é algo necessário, ou se estamos vivendo exatamente aquilo que Bauman previa: relações líquidas com validade menor que o tofu da geladeira? Ou será só o velho truque do capitalismo sentimental nos convencendo que toda emoção vem com cupom de troca?


Coloco um pão de queijo pra assar — meu corpo precisa de serotonina — e vou usar a cafeteira da Nespresso que tá no escritório. Olho pela janela: o céu tá nublado e cinza. Vila Velha cada vez mais parecida com São Paulo e Nova York, num crossover entre Café Society e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, só que sem a trilha sonora francesa e com barulho de buzina e entregador gritando “pedido cancelado”.


Isso me faz pensar: será que a melancolia era das cidades onde morei, ou só uma característica da minha aura enevoada, assinada por Margiela?


Acendo um cigarro. O primeiro em dois dias. Com certeza não é uma boa ideia — minhas vias respiratórias precisam de dilatação — mas nunca fui homem de boas ideias. Eu sou devoto das ideias ruins. São elas que conduzem minha narrativa, como se fosse dirigida por Almodóvar em ressaca criativa.


Sento na minha poltrona vermelho bordô olhando pro mar. Cadeira essa que minha última ideia ruim sentou. Péssima, maravilhosa ideia. Vou começar a nomear minhas garrafas de bebida na varanda com o nome de cada ideia ruim que contribuiu pra elas estarem meio cheias. Freud chamaria de sublimação. Eu chamo de design afetivo com memória embriagada.


O pão de queijo apita pronto. Antes, corro ao banheiro doar meu nariz à causa. Um barulho estranho no escritório. Achei que meu computador — sempre ligado como um relacionamento ansioso — tinha finalmente pifado como a cafeteira. Mas não. Era só a Nespresso finalizando meu café com aquela elegância italiana que me lembra Marcello Mastroianni, se ele fosse mineiro.


Toca o interfone. Pensei: é uma ideia ruim chegando pra visita inesperada. Não. Era só a água do Ifood. Enfim, uma ideia boa. Elas sempre chegam pela porta dos fundos, discretas, e eu sempre as deixo esperando.


Pego meu pão de queijo, meu café barulhento e vou pra varanda. Barulho de vidro. Lá se foram minhas taças? Não. Era só uma garrafa mal colocada e vazia, derrubada pelo vento da varanda. Não era nada especial, só um nome que não será exposto. Talvez porque expor seria dar palco, e hoje meu palco tá fechado pra reforma emocional.


As ideias ruins ainda estão mais cheias que o vento aqui. A última, pela metade. Acho que é uma boa forma de esquecer pessoas: façam delas garrafas de visita. Quando totalmente vazias e sem reposição… lixo. Ou doação — como quem doa um sapato caro que machucava o calcanhar.


Como meu pão, tomo meu café. Não consigo nem sentir o cheiro. Meu telefone toca: minha sobrinha me convida pra assistir um evento dela na igreja. Eu vou. Me parece uma boa ideia horrorosa. Tipo usar terno de linho branco na chuva. As ideias ruins de verdade que me carregam costumam aparecer só depois das 8, e eu, eu estarem na missa.

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