Entrei.
Não precisei bater, a casa é minha agora.
As paredes não sabem meu nome ainda, mas vão aprender.
Talvez no começo elas ecoem meus silêncios, minha falta de energia — literal e emocional — mas logo, com o tempo, com minha risada ainda alta ou meus choros de soluços, elas vão me reconhecer.
Vão saber onde dói e onde eu deito.
Coloco minha mochila no chão, tiro os sapatos – não, não vou tirar – deixa o barro entrar também, não tem problema. Aqui ninguém vai limpar minha história para debaixo do tapete.
Essa casa vai ouvir a partir daqui meus gritos de raiva, meus sussurros de saudade, meus áudios de desabafo e meus silêncios de “não aguento mais hoje”.
E vai continuar me esperando no fim do dia.
Com ou sem luz.
Essa casa talvez não vá curar meu braço, mas vai começar a curar minha alma.
Vai ser meu ninho. Meu palco.
Meu bunker nos dias ruins, minha sacada nos dias de sol, com direito a vista para o mar.
Serei bem-vindo, mesmo que ainda esteja tremendo.
Mesmo que ache que não vou dar conta.
Mesmo que eu sinta saudade do que foi ou medo do que pode ser.
Desde que eu não atrase mais de três aluguéis.
Eu cheguei aqui, ralado, sem energia, mas cheguei.
E isso, por si só, já é um milagre.
E o maior milagre foi encontrar uma mudança para o dia seguinte e vaga no prédio, cedida pelo porteiro, que, depois de me ver chorar, fez todos do prédio se oferecerem para me ajudar.
A mudança veio! Comecei a juntar as coisas na casa da minha mãe às 5 da manhã; às 11 já estava tudo no caminhão, indo para a nova casa.
Saindo de casa meu carro antigo está parado, a anos sem funcionar, tento ligar para estacionar melhor e não causar problemas, ele liga, parece que até ele quer ir embora.
No Uber, chorando e indo para o apartamento, recebo uma mensagem:
Rodrigo Vargas: “Oi???”
Eu, na hora, mesmo sabendo que ele não está mais aqui, fiquei feliz como um suspiro de irrealidade que trouxesse meu melhor amigo de volta.
Entrei na mensagem com aquele calor no coração ainda do devaneio, e era a nova dona do celular dele. No meio da mudança, eu tinha ligado para ela sem querer (não vi essa ligação).
Entendi que era ele dizendo: “Ei! Você não tá sozinho.”
Entrei e, entre uma caixa e outra, entrei também em mim.
Olhei a varanda vazia, ouvi o barulho da rua, senti o cheiro da tinta nova misturado com o da vida antiga.
De repente estava lá: minha casa, meus móveis, meus quadros! Minhas louças, minhas taças, minhas cadeiras!
Por que a gente se prende tanto às coisas que constrói? (Por que eu me prendo?)
Eu sei!
Tudo aqui não foi comprado, foi preenchimento de vazios, de cada casa, cada escritório.
Eu sempre respeitei os lugares que entrei.
Cada móvel, cada quadro vai se encaixando.
Hoje, minhas cadeiras não são só cadeiras, são tronos onde meus amores e amigos sentaram.
Cada taça tá cheia de amor, tem cheiro das minhas histórias. Cada garfo é prato serviu bocas que me fizeram sorrir, gargalhar! Não são móveis, são um lar, um altar a minha história.
Pensei: “Meu Deus! Todos esses anos eu só precisava da minha casa?”
Sentei no sofá.
Uma abelha tocou em mim – eu e meus sinais – previ boa sorte!
Deixei a abelha seguir, fui arrumando a varanda e olhando para o mar…
Foi então que ouvi uma voz.
Não era dentro da minha cabeça (eu pensei que era) — dessa vez era real.
Uma vizinha, da varanda ao lado, falando sozinha, brigando com o vento, perguntando pra ninguém:
“E quando chove, eles fazem o quê?”
Eu pensava que aquele apartamento estava vazio, mas não.
Falei com ela, nossa, eu estava tão feliz que não tinha vizinho no prédio.
Pensei: ninguém vai reclamar de mim!
Ela disse: “Eu pensei o mesmo, minha mudança chega amanhã.”
Falamos sobre a dificuldade de achar apartamento.
Ali, sorri pela primeira vez no dia.
Em meio a tanto silêncio, uma vizinha que falava alto, que gostava de viver alto!
Eu, ainda sem energia (vital e real), fui levado pra carregar lá o celular, e ela disse: “Deixarei aberta a porta, entra quando quiser!”
Uma estranha deixando a porta aberta me fez lembrar quantas vezes tive que pular a janela porque minha mãe trancava a porta antes de eu chegar em casa.
Ali descobri também que, às vezes, a vida manda cumadres antes de mandar móveis.
Ela trabalha de casa, como eu.
Mora sozinha, como eu.
E, como eu, também lavou a varanda sem saber que aqui até a água precisa pedir licença pra descer.
Tem cheiro do meu tipo de gente: real, visceral, com cheiro de café sem horário marcado e visita sem formalidade!
Conversamos como quem tropeça em encontros que nem sabia que queria.
Mostrei minha casa desarrumada, ela mostrou a dela vazia.
E ali, no meio de caixas, sacolas e promessas não ditas, combinamos:
seremos cumadres.
Depois que o pessoal da mudança foi embora e sobrou só eu, minhas dores nas costas e uma pilha de coisas pra organizar (que decidi ignorar com a maturidade emocional de um adolescente), uma amiga veio me ajudar: a pensar, a escolher onde colocar o quadro, a abrir caixas com memórias que eu não saberia lidar sozinho. Rafa não organizou só as caixas, organizou memórias e enxugou uma cachoeira de lágrimas com um colo que eu nunca vou esquecer.
Ela foi embora e eu desci pra respirar.
Ou pra fugir. Nunca sei direito.
Fui até a distribuidora embaixo do prédio — o bar da esquina do destino — e, de repente, não era mais estranho.
Todo mundo se conhecia.
Me ofereceram cerveja, cadeira, apelido.
Em cinco minutos, eu era o Pablo do 801, o menino que carregou a casa nas costas e agora parecia um carteiro bêbado de liberdade.
E como se a vida tivesse roteirista, no meio daquela bagunça boa, começou a tocar “Chão de Giz.”
“Eu desço dessa solidão…”
— Eu também, Zé Ramalho. Tô descendo faz tempo, meu amigo.
“Espalho coisas sobre um chão de giz…”
— No meu caso, espalhei caixas, roupa suada, sonhos reamassados e a esperança de que amanhã eu descubra onde está a cafeteira.
“Há meros devaneios tolos a me torturar…”
— E também boletos. Muitos boletos.
“Eu vou te dedilhar…”
— Eu sorri e imaginei que, se casas pudessem ouvir, a minha agora me olharia meio emocionada, pensando: “Caralho, esse menino tortinho vai me dar trabalho…”
E ali, no meio do barulho das garrafas sendo abertas, gargalhadas de estranhos, o cheiro de churrasquinho e a brisa da praia subindo da orla de Itapuã, eu cantei baixinho pra minha casa nova, como quem promete sem prometer:
“Eu estou indo embora, mas estou indo embora…”
Só que, pela primeira vez, não era fuga.
Era chegada.
Eu não tava indo embora de nada.
Eu tava chegando — em mim.
E se amanhã lavar a varanda, e o vizinho de baixo reclamar,
e a cumadre me chamar pra um café às três da tarde,
e eu ainda não tiver encontrado o abridor de vinho — tudo bem.
O chão é meu.
O giz é meu.
A história sempre foi minha!
O roteirista, lá de cima, fazendo tudo lindo com sentido e significado, do nada coloca a trilha sonora com Frejat, Um Amor pra Recomeçar, e eu senti a benção de Deus dizendo:
“Eu te desejo não parar tão cedo
Pois toda idade tem prazer e medo
E com os que erram feio e bastante
Que você consiga ser tolerante
Quando você ficar triste, que seja por um dia
E não o ano inteiro
E que você descubra que rir é bom
Mas que rir de tudo é desespero
Desejo que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda exista amor pra recomeçar
Pra recomeçar
Eu te desejo muitos amigos
Mas que em um você possa confiar
E que tenha até inimigos
Pra você não deixar de duvidar
Quando você ficar triste, que seja por um dia
E não o ano inteiro
E que você descubra que rir é bom
Mas que rir de tudo é desespero
Desejo que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda exista amor pra recomeçar
Pra recomeçar
Eu desejo que você ganhe dinheiro
Pois é preciso viver também
E que você diga a ele, pelo menos uma vez
Quem é mesmo o dono de quem
Desejo que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda exista amor pra recomeçar
Eu desejo que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda exista amor pra recomeçar
Pra recomeçar
Pra recomeçar”
Recomecei. Ainda não totalmente, ainda sem energia, sem saber como pagar o aluguel, sem todas respostas, mas com a certeza que novas memórias serão construídas, aqui vou construir laços que não sei ainda que preciso, reconstruir outros que tenho certeza.
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