domingo, 20 de abril de 2025

Manual de primeiros socorros emocionais

Por Pablo Cofe


Naquela manhã de segunda (ou noite de domingo?) às 1h15, o asfalto me respondeu uma pergunta que eu já tinha feito algumas vezes: pra quem você liga quando tudo desaba? 

Literalmente — no meu caso, desabei emocional e fisicamente com uma motinha, em uma cidade onde você não encontra nenhuma cafeteria aberta depois das 10 e poucas opções de entrega no Ifood mas tem toda sua família e rede de apoio- Estava Eu Machucado, sangrando, a dignidade espalhada no chão — entre o cotovelo e o ego — e nenhuma alma viva ao redor. Só um silêncio gritante e um celular na mão.

A dor foi tanta que até o toque da tela parecia uma porrada.

A gente se engana achando que, se tudo der errado, é só ligar. Que tem alguém. Um “Rodrigo” qualquer, que venha te buscar no meio da madrugada, sem perguntas, só com um “respira, eu tô indo”. Mas a vida tem dessas crueldades cinematográficas: às vezes, o elenco de apoio não aparece (ou já partiu). E você se vê como protagonista de um drama sem figurantes.

Liguei.

Ninguém atendeu.

Com exceção de dois nomes — que, por razões de coração, eu nunca vou esquecer. Eles vieram. Me acolheram. E me disseram que eu não tava sozinho. Mas naquele instante antes deles (minutos que duraram horas), eu, sentado na calçada chorando, me senti mais abandonado que planta de escritório em véspera de feriado.

A real é: às vezes, o que mais dói não é a pele raspada no asfalto. É o silêncio do telefone. Eu nunca vi tanto sangue saindo de mim — e provavelmente eu realmente estava em choque. Ver a roda de um carro tão próxima da minha cabeça me fez perder ela por alguns minutos.

Naquele momento, percebi que amor não é sobre estar disponível, não é só cumprir um cuidado. Amor é sobre querer estar. Fazer questão. É sobre troca. Presença. E cuidar sem cobrar.

E naquela hora, entre lágrimas e vergonha, a médica me receita Rifocina (a pedido do meu irmão, que apareceu no momento certo — quem me deu amor, compaixão e acolhimento, junto com a família dele), mas eu pensei: se for pra doer, vai doer de uma vez — e que seja remédio, e não gente.

Depois do tombo — literal e emocional — eu tive alta médica e fui pra casa, sangrando pelo braço, mas com o ego ainda mais esfolado que o coração.

As mensagens não vinham.

Os exs não apareciam. E não que eu esperasse algum, mas são sempre tantas “d.r.s”, tantos dramas, tantos “amores”… e, no fim, eu tava sozinho. Pensei: por que gastamos tanta energia com gente emocionalmente inútil ou tóxica?

Enfim, nem o entregador da farmácia olhou pra mim quando pediu o código do iFood do jeito que eu precisava: com compaixão.

A verdade é que eu estava… sofrendo de abstinência emocional. Não de afeto. De alguém pra colocar uma gaze.

A ferida aberta doeu, claro. Mas o que me desestabilizou foi perceber que eu ia ter que me cuidar sozinho. E que a maioria das dores e dramas que estou vivendo é só pra anestesiar uma dor maior que sinto: a solidão que sinto na minha cidade natal, que é até maior do que em outras cidades onde vivi. Tive que arrancar esse curativo que fingia pra mim, quando estava longe, que, quando voltasse pra cá, não estaria sozinho. Tive que entender que nunca estive sozinho. Eu sou sozinho. E isso vai ser em qualquer lugar do mundo.

E foi aí que eu tive um reset emocional, revi tudo que sentia e como me relacionava, e iniciei o relacionamento mais íntimo e honesto que eu já tive — com remédios.

Sim. Remédios. (Será que nos relacionamos sempre buscando curar algo?)

Meu primeiro impulso, claro, foi correr pros braços tóxicos da Rifocina.

Aquela desgraçada ardia igual mensagem visualizada e ignorada.

Mas eu fui.

Fui porque me ensinaram que a dor faz parte da cura.

Fui porque eu achava que, se não doesse, não funcionava.

Fui porque, no fundo, ainda romantizava o sofrimento.

Ela ardeu.

Ardeu como arde se relacionar com gente tóxica e idiota: com intensidade, com promessas, com aquele prazer sádico de te lembrar da dor que você queria esquecer.

A cada aplicação, eu pensava: “É assim que tem que ser, né? Cura dói.” (Eu aprendi que o amor doía.)

Mas ela estava ali quando tudo sangrava.

Prometia proteção.

Prometia matar as bactérias.

Prometia que, apesar de doer agora, era pro meu bem.

Eu acreditei.

Como sempre.

Repeti padrões por tantas vezes, o que custava essa última?

A gente sempre acredita quando a dor vem vestida de cuidado.

E, como toda relação abusiva, ela não começou gritando.

Ela começou sussurrando: “É só uma ardência leve, eu tô limpando você.” (Doía muito mais o meu braço do que ardeu a primeira aplicação.)

E eu deixei.

Porque me ensinaram que cura tem que doer.

Porque eu tinha medo de infeccionar sozinho.

Porque era melhor sentir algo — qualquer coisa — do que lidar com o vazio de não sentir nada.

E lá estava eu, todos os dias, encostando nela, segurando o grito, chamando de cuidado o que era tortura.

Ela ardia.

Ela queimava.

Ela me fazia fechar os olhos e prender a respiração como quem espera o fim de uma briga.

E eu, bobo, penso sempre: “É isso que faz alguém ficar saudável. Doer até passar.”

E não passava.

O que ela fazia era me lembrar o tempo inteiro de que eu estava machucado.

Ela me protegeu, sim, mas até quando aquela dor ia ser necessária?

Até quando eu iria me manter refém da sensação de que, sem ela, eu pioraria?

E isso é o pior.

Porque, no fundo, a gente nunca acredita que vai se curar sem a dor.

Até que um dia… ela acabou.

Sim, eu usei um vidro de Rifocina em 5 dias, aplicando de 20 em 20 minutos — nem sei se pra doer mais ou pra sarar logo.

Mas quando acabou, eu percebi que eu não preciso manter pra sempre a dor ou aquilo que me agride — ainda que cuide de mim.

Quando a pele foi se formando, secando (quase com a velocidade do Wolverine), eu vi que, se comprasse mais Rifocina, aquele ressecamento já iria atrapalhar a pele nova que tava se formando no meu braço. E decidi não comprar mais.

Acho que foi um marco emocional pra mim.

Ali, eu parei.

Parei de agredir minha pele em nome de promessas químicas.

Parei de repetir a rotina da dor disfarçada de amor.

Parei de achar que eu merecia sofrer pra melhorar.

E foi nesse dia que eu descobri:

A Rifocina já não me salvava.

Ela começou a me impedir de cicatrizar.

Caramba! Será que era isso que todas as relações fizeram comigo? Me impediram de cicatrizar?

A ardência foi uma prisão.

A dependência era emocional.

E a relação que eu tinha com ela era exatamente igual àquela que tive com certos amores passados:

Ela só cabia existir em mim enquanto eu estivesse machucado.

Rifocina parece sua mãe depois dos 30: vai jogar na sua cara tudo, te fazer sentir dor como preço do cuidado.

Depois da Rifocina, eu achei que não fosse mais capaz de confiar em nada que tocasse minha pele.

Deus, como doía!

Não queria por perto nem produto, nem pessoa.

O trauma era tanto que qualquer toque parecia mais uma ameaça do que um cuidado.

Minha epiderme emocional — e literal — andava pedindo uma trégua.


Mas é aquela coisa: a gente só percebe o quanto está tenso quando alguém — ou alguma coisa — não machuca.


Foi assim que, no fundo da sacola da farmácia, apareceu ele: o Cicaplast.

O nome já parecia um trocadilho de novela das 7: meio cicatriz, meio plastificada.

Mas bastou uma aplicação pra eu entender…


Ele era o amigo da crise.

Ele aliviou na hora a ardência da pele.


Sabe aquele amigo que chega depois da merda toda?

Que não pergunta o que aconteceu, nem tenta passar sermão?

Só chega, senta do lado, e diz:

“Tá feio, tá ardendo, mas tô aqui. Vamos cuidar.”


O Cicaplast é isso.


Ele não arde. Ele age.

Ele não promete transformar sua pele de um dia pro outro — ele só pede constância.

É discreto, meio sem cheiro, meio sem graça… mas você termina o dia e pensa:

“Graças a Deus ele tava aqui.”


E foi aí que eu entendi que amizade — e amor — às vezes têm cara de dermocosmético francês.

É low profile, mas eficiente.

É silencioso, mas te cura.

É o tipo de cuidado que não te traumatiza.


Mas ele começou a secar minha pele demais.

Ele precisava ir embora — então exigia que eu lavasse a ferida várias vezes, o que acabava lesionando e impedindo a cicatrização.


Opa, não? De novo?

Vou me submeter a uma relação que vai me machucar mais que curar?

Eu preciso disso ainda?


Não, não.

Eu preciso de alguém que possa ficar, proteger, sem doer. Aliviar.


E aí, eu entendi o amor que vem depois da cura. (Que não veio ainda emocionalmente, mas, na pele, me permitiu entender que não preciso aceitar relações, proximidades ou medicamentos que corroem, ressecam ou agridem — ainda que em forma de cuidado.)


Quando sua pele já está fechada — ainda que sensível — o mais importante é tratar com amor, carinho, proteger aquele novo caminho, a nova pele que se forma. Conheci meu atual amor:


O nome dele? Dersani.


Sim, amor. DERSANI.

Com esse nome de vovó do interior, de óleo de girassol, de quem já viu o sol nascer e arder — e, ainda assim, resolveu acolher em vez de ressecar.

Dersani é aquele tipo de amor que você nunca achou que existia — porque passou a vida se relacionando com rifocinas sentimentais.


Quando eu abri o potinho e vi aquele óleo escorrer devagar, pensei:

“Não vai fazer nada.” “Isso é fraco demais pra mim.” “Isso não é remédio, é azeite.”


Mas então eu passei na pele…

E pela primeira vez em dias, não ardeu, não repuxou, não ressecou — e é natural! Ele pode ficar! Eu não preciso lavar!


Foi estranho.

Meu cérebro, já viciado na associação entre dor e cuidado, estranhou.

Quase gritei com o tubinho:

“Escuta aqui, teu merda: tu tá fazendo efeito ou tá só me iludindo, hein?” (Sem tempo, irmão.)


Mas aí, minutos depois, minha pele começou a acalmar.

A respirar.

Acho que tô cicatrizando de verdade.


E eu chorei algumas vezes no processo.


Chorei porque entendi que o problema nunca foi a dor —

Foi achar que só doendo é que funciona.

Foi normalizar relações que agrediam, rotular tapas como zelo e chamar abandono de “falta de tempo”.

Chorei porque percebi que amor calmo existe.

E ele não grita, não arde, não invade — ele acolhe.


O Dersani não promete milagres.

Ele não brilha.

Mas ele permanece.

E, dia após dia, sem alarde, ele constrói um novo pedaço de pele sobre o trauma.

E você acorda um dia e pensa:

“Caralho, isso aqui não dói mais.”


Então, hoje, se me perguntarem sobre amor, eu vou abrir minha gaveta, mostrar o Cicaplast e o Dersani e dizer:


“Esses aqui são os meus amores.”

Um chega quando tudo tá uma merda e ajuda a reconstruir.

O outro cuida todos os dias, com paciência e carinho, sem pressa e sem ferida — e nunca mais vai embora.


E é com eles que eu quero passar o resto da vida.

Pele com pele.

Sem ardência.

Chega de citar poetas ou paixões ardentes.

Chega de drama com gente indisponível.

Chega de dar palco pra quem não merece nem um holofote na minha vida.

Cada um que tenha e cumpra seu papel para estar nela — porque eu faço meu melhor todos os dias.


O que eu posso fazer hoje?

Tomar minha codeína, passar meu Dersani, postar esse texto e programar a mudança da casa da minha mãe. Desde que voltei de São Paulo, fiquei aqui provisoriamente. Tá na hora de deixar algumas feridas cicatrizarem.

Uma dica para vocês, meus amores virtuais: joguem foras vidros vazios(ou com resto de algo) que já te machucou - ainda que tenha sido pra te curar, entenda que a vida adulta é feita de quedas e curativos feitos com a mão esquerda, mas não precisa ser assim, é só a gente se cercar de relações naturais, que não vão embora, que não forçam, que não ardem, que não visualizam e não respondem, que te atendem sem fazer doer, o resto, que siga seu caminho, no final, acho que somos todos medicações, antes de se curar somos ardidos, curando somos secos, curados, somos dersani.

Em resumo foi ali sangrando e sozinho que percebi que minha cidade natal dói mais que qualquer queda de motinha.

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