terça-feira, 25 de junho de 2024

Un Segnale


 


Todo mundo sabe que eu amo o filme Sob o Sol da Toscana, não só pela história mas por tudo. O filme e livro contam a história da escritora Frances Mayes, que após ter a vida arruinada por um casamento fracassado, que arruinou não só a vida dela, como a carreira, viaja para a Toscana na Itália e sente, como que uma intuição, que deve comprar uma vila, a Bramasole. Acho que esse é um dos meus filmes favoritos, e uma das cenas favoritas é quando a pomba cinza defeca na cabeça dela e a velhinha dona da vila proclama: "Un segnale, un segnale de Dio", e vende a casa por um preço muito mais barato. Esse sinal seria o prelúdio do amor que ela viveria ali.

Hoje, acordei pensando na ausência de sinais na minha própria vida. Há dois anos, parece que tenho olhado mais para as telas dos dispositivos do que para os indícios que a vida oferece. Será que perdi a fé no amor? Será que o amor parou de se comunicar comigo? Ou será um sinal de Deus?

Enquanto caminhava para o trabalho, refletindo e desviando dos motoristas irritados, imaginei se deveria acender um cigarro enquanto esperava para atravessar a rua. Me senti rejeitado, deslocado, interrogando se o amor e todas essas distrações não são apenas formas de nos desviar desse grande vazio que chamamos de vida.

Foi então que um ônibus imenso passou na minha frente (acredito que o maior que já vi na vida), enquanto eu olhava o outro lado da rua. Tinha que olhar aquelas grandes portas espelhadas que pareciam não acabar. No reflexo, a minha pior versão, parece que me tornei um homem meio triste mas ainda charmoso. Eu me olhava com olhos de Hugh Grant, antes de ter um caso com a babá. Talvez fosse Deus falando comigo. O sinal talvez sempre esteve ali, dentro de mim, e o ônibus foi embora, junto com todas minhas esperanças de viver em um lugar chamado Notting Hill. Talvez o sinal estivesse sempre ali e eu só estava distraído.

Atravessei a rua, a mesma que dias atrás um mendigo me atacou com um copo de algo desconhecido (não me pergunte o quê ou por quê). São Paulo não é lugar para desatentos. Anote isso: nunca passe muito perto de alguém perturbado, nunca confie demais em desejo e paixão, e nunca, jamais, confie em alguém que não faz terapia.

Chegando ao escritório, o segurança que sempre me cumprimenta com um sorriso, saiu do Café Creme para desejar-me bom dia. De dentro do café, uma pomba cinza voou quase atingindo meu rosto, fazendo-me recuar e quase derrubar minhas coisas. "Se fosse uma pomba branca, seria um bom sinal, né doutor?" brincou o segurança. "Sempre é", respondi. Sorrindo repeti: "Sempre é."



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