Hoje, acordei pensando na ausência de sinais na minha própria vida. Há dois anos, parece que tenho olhado mais para as telas dos dispositivos do que para os indícios que a vida oferece. Será que perdi a fé no amor? Será que o amor parou de se comunicar comigo? Ou será um sinal de Deus?
Enquanto caminhava para o trabalho, refletindo e desviando dos motoristas irritados, imaginei se deveria acender um cigarro enquanto esperava para atravessar a rua. Me senti rejeitado, deslocado, interrogando se o amor e todas essas distrações não são apenas formas de nos desviar desse grande vazio que chamamos de vida.
Foi então que um ônibus imenso passou na minha frente (acredito que o maior que já vi na vida), enquanto eu olhava o outro lado da rua. Tinha que olhar aquelas grandes portas espelhadas que pareciam não acabar. No reflexo, a minha pior versão, parece que me tornei um homem meio triste mas ainda charmoso. Eu me olhava com olhos de Hugh Grant, antes de ter um caso com a babá. Talvez fosse Deus falando comigo. O sinal talvez sempre esteve ali, dentro de mim, e o ônibus foi embora, junto com todas minhas esperanças de viver em um lugar chamado Notting Hill. Talvez o sinal estivesse sempre ali e eu só estava distraído.
Atravessei a rua, a mesma que dias atrás um mendigo me atacou com um copo de algo desconhecido (não me pergunte o quê ou por quê). São Paulo não é lugar para desatentos. Anote isso: nunca passe muito perto de alguém perturbado, nunca confie demais em desejo e paixão, e nunca, jamais, confie em alguém que não faz terapia.
Chegando ao escritório, o segurança que sempre me cumprimenta com um sorriso, saiu do Café Creme para desejar-me bom dia. De dentro do café, uma pomba cinza voou quase atingindo meu rosto, fazendo-me recuar e quase derrubar minhas coisas. "Se fosse uma pomba branca, seria um bom sinal, né doutor?" brincou o segurança. "Sempre é", respondi. Sorrindo repeti: "Sempre é."
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