Nas últimas semanas, tudo aconteceu e nada aconteceu. Um belo dia, enquanto carregava o celular na distribuidora onde conheço meus novos vizinhos, o dono do lugar me chamou pra lanchar com ele e uns amigos, disse que não queria ir sozinho. Fui. Chegando lá, ele foi embora. Me deixou sozinho num boteco insalubre com três ilustres desconhecidos ativando meu pânico social como se fosse Alexa.
Ao me ver sozinho, respirei fundo e anunciei: “Queridos, foi um prazer, preciso ir.” Uma menina ao meu lado começou a chorar. Disse que não tinha onde dormir, precisava de um sofá. Eu, relutante mas ainda empático, ofereci pagar um Uber até a casa dela. Ela recusou: alegou que o toque de recolher a impedia de entrar no bairro. Resultado? Me acompanhou até a minha casa e, num plot digno de Hitchcock, subiu comigo.
Peguei uma cerveja pra mim e outra pra ela. Disse que podia esperar o amanhecer ali, que depois ela ia trabalhar. Ela (pasmem) me mandou ir dormir porque precisava descansar. E eu fui. Não sei se por perplexidade diante da cara de pau, por empatia mesmo… ou pelas três cervejas que já tinham tirado minha coragem de ser ríspido.
No dia seguinte, quando acordei, tinha sacolas de roupa em cima da mesa que custei a organizar. E, na varanda, uma calcinha pendurada como bandeira de ocupação. No celular, uma mensagem: “Vou aí buscar minhas coisas.”
Aquela garota estava tentando voltar pra dormir na minha casa de novo. Eu disse que tinha jogado tudo fora, que não admito desrespeito, que ela estava forçando algo que me deixa desconfortável . Perguntei se tinha alguma cueca minha na varanda. Não? Então por que tinha uma calcinha dela? Ela pediu desculpas. Eu disse que não precisava: “Você não é minha amiga. Nem nunca vai ser. E na minha casa, não entra mais.” Acabei de conseguir um lugar com vista. Jamais permitiria que alguém estragasse minha vista com uma calçola de vó descuidada.
Passado o ódio, conheci um piloto de avião — desses de uniforme alinhado e voz grave com sotaque de torre de controle. Trocamos mensagens, marcamos um jantar. Ele transformou o convite em um passeio de balão. Gostei. Achei decidido, arriscado, poético. Mas virou só isso: um encontro que nunca veio. Porque eu desisti. Ou o universo desistiu por mim. Não era dia de voar. Era dia de pouso.
Foi quando o universo, esse roteirista sádico e genial, me mandou Robson.
Sim, o Robson. Personagem recorrente da minha série, aquele dos episódios antigos — sempre entrando no quarto com uma mala e uma solução. Ele veio da Áustria, mas parecia que vinha do passado. Chegou como se nunca tivesse ido, como se as temporadas entre a gente fossem só intervalo comercial. Decidiu passar três dias comigo, Três. O mesmo número de dias que Jesus levou pra ressuscitar e que eu levei pra esquecer meu último quase date.
Dormiu no meu sofá, riu na minha varanda, comprou café e queijos comigo no supermercado como quem protagoniza uma cena de sitcom afetiva. Foi comigo à praia, viu o sol que banha Itapuã, mergulhou no pedaço da praia que eu mergulho desde que era uma criança, sentou nas cadeiras que vieram de São Paulo — as mesmas que um dia sustentaram amores, crises, esperanças… e que agora sustentavam ele(de novo), o Robson expatriado, agora importado.
Levei Robson ao meu restaurante preferido. Mostrei a vista do pé do Morro do Moreno como quem apresenta um segredo. A verdade é que estava mostrando um pedaço de mim. Ele achou tudo lindo. E eu achei surreal: meus mundos se fundindo como crossover de temporada especial — tipo Friends com ER, Gilmore Girls com Parenthood, ou só Pablo com Robson mesmo, numa série que, por alguns episódios, voltou a ter o mesmo título.
Mas Robson tem isso: vem com afeto e bagunça. O que tem de querido, tem de relaxado. Quando foi embora, deixou a pia cheia, a cama desarrumada, e o coração levemente melhor. Disse, antes de sair, que a mesa da varanda — a mesa dos dramas — era onde o tempo passava mais devagar. Concordei. A luz âmbar, as flores secas, e o silêncio dali desafiam qualquer cronômetro. Ali, as lágrimas parecem poesia. E o vinho, rito de passagem.
Na tarde seguinte, fui buscar roupas na casa da minha mãe. Robson ainda estava comigo. Paramos numa blitz. Claro. O carro — que estava parado há 5 anos — não tinha nenhum documento em dia. Robson ria. Disse que tudo isso era muito típico de mim, que estava feliz por estar de volta ao seriado. Eu chorei — pela multa, pelo aluguel indo embora, por gastar o pouco que eu tinha pra continuar fingindo que estou tudo bem. Numa dessas ironias cósmicas que a vida escreve em letra cursiva.
À noite, a Naju veio chorar na mesma cadeira em que Robson gargalhou. A cadeira sentiu o peso das emoções e chiou. Literalmente. Aquilo ali já é quase um oráculo. Ela, a cadeira. E eu, o bobo da corte emocional.
A casa tá de volta. Tenho luz (literalmente, depois de uma semana de banho frio e escuridão existencial). Mas ainda sem muita energia emocional. Fui lavar a roupa suja — simbólica e real — mas a máquina não ligou. Talvez o universo esteja dizendo: não é hora de resolver nada. A sujeira que existe faz parte da decoração. Ou talvez só queira me ensinar a lavar roupa na mão. E resolver meus conflitos com menos drama e mais sabão.
Liguei pra minha mãe. Falei dos documentos do carro. Ela, como sempre, ríspida. Mas ao final, eu disse: “Te amo.” E ela respondeu com um “te amo” do mesmo jeito que se diz “se cuida” depois de mandar um “vá à merda.” Desliguei. Segurei o telefone. E disse: “Também.”
E ali, entre caixas vazias, cadeiras tortas, móveis bambos, blitz, multas, boletos a vencer e roupa suja acumulada, eu entendi: eu preciso aceitar o peso do recomeço. Dizem que quando estamos no caminho certo, as coisas começam a dar errado. Seja pelo diabo. Ou pelo subconsciente desligado.
Ainda não tenho roteiro claro. Mas tenho elenco afetivo e uma varanda iluminada como plateia que espera o próximo ato.
Hoje, quem me ajudou a tirar o carro do pátio foi justamente o Dione, o dono da distribuidora — o mesmo que me lançou num boteco insalubre com desconhecidos e que, sem querer, hospedou uma ocupante do Movimento Sem Terra de varanda (com direito a bandeira de calcinha). Prova viva de que quem te joga na lama também pode te buscar com reboque autorizado pelo Detran. A vida, definitivamente, é um ciclo… com plot twists.
Para terminar, transformo meu cansaço em oração:
Que as paredes me abracem
com a memória das mãos que já me ajudaram a levantar.
Que a varanda sopre pra longe
os nomes feios que me disseram — e os que eu mesmo acreditei.
Que nenhuma calcinha pendurada me ameace,
e que toda louça por lavar seja só prova de vida,
não de fracasso.
Que o chão que hoje parece peso,
amanhã seja solo fértil.
Que cada boleto vencido seja queimado no tempo certo,
como oferenda moderna de quem sobrevive com estilo.
Que minha cama seja templo,
meu travesseiro, oráculo,
e que até minha máquina de lavar, um dia, cante.
Que a dor de agora vire texto,
e que o texto me devolva a leveza.
Que os amigos cheguem —
de avião, de Uber, ou da Áustria.
E que o Universo,
esse roteirista confuso e genial,
me escreva uma boa noite
com todas as estrelas certas.
Amém. Axé. Que seja.
E se não for, que vire crônica.