segunda-feira, 28 de julho de 2025

Santo de casa não faz milagre — mas talvez vira.

 Santo de casa não faz milagre. O ditado que mais parece ter saído da boca de uma sogra ressentida do que de um apóstolo. Mas, como quase todo veneno popular, tem raízes profundas na nossa cultura — e talvez, nos nossos traumas.


Essa frase nasceu no seio da religiosidade católica popular, onde se dizia que os santos venerados em suas próprias cidades não recebiam o mesmo fervor, nem a mesma fé, do que os santos estrangeiros, os exóticos, os importados. Era como se a proximidade humana diminuísse a sacralidade. Como se ver o santo descalço, com olheiras, e pagando fiado no mercadinho da esquina o tornasse menos milagreiro.


Na Bíblia, Jesus mesmo disse que “nenhum profeta é bem recebido em sua terra” (Lucas 4:24), frase que, em bom português brasileiro, virou esse tapa de luva de pelica que usamos pra justificar quando somos geniais… mas ignorados pelos vizinhos. O ditado atravessou séculos e virou desculpa pra quase tudo: da tia que nunca vendeu um bolo na própria rua, mas bomba no Instagram, ao menino da vila que só foi aplaudido depois que ganhou um prêmio na França.


Essas semanas foram difíceis. Semanas de invasão de privacidade, de testes de limites, de abelhas entrando no meu apartamento como se pressentissem a perturbação que estava por vir. E não erraram. Fãs, stalkers, obsessivos — parece que atraio essas criaturas como quem atrai mosquitos com luz azul. Fico me perguntando: será carma, síndrome de protagonista ou uma escolha do universo em me nomear Carrie — não a Bradshaw. A estranha mesmo.


E como tudo na minha vida acontece de uma vez, quando quase termino de organizar minha casa, preciso correr para São Paulo. Salvar uma audiência administrativa daquelas que só um super-herói de terno resolve. E pessoalmente. Em Vila Velha, mesmo sendo mais eu do que nunca, ao invés de ser insubstituível, sou maldito. Literalmente. Mesmo vestindo minha persona de bom moço.


Assim cheguei a São Paulo. De novo. Já nem sei se digo “cheguei” ou “voltei”. No aeroporto, ninguém me levou nem esperou com plaquinha, flor ou cartaz do tipo “meu advogado favorito”. Só um Uber superfaturado — fruto da economia burra na passagem pro aeroporto mais barato. O motorista, destemido, ainda reclamou do trajeto. Mal sabia ele que eu também queria reclamar do trajeto da minha vida. Mas com meu terno azul, imprimo equilíbrio até no banco de trás.


Cheguei ao apartamento onde sempre fico em São Paulo. Não economizei. Fiz com cara de quem é dono do próprio destino — e da própria fatura do cartão. O céu estava do jeito que gosto: cinza, dramático, digno de trilha sonora com jazz melancólico. Mas sabe o que é mais maluco? Saí de Vila Velha com o mesmo céu. Lá também estava nublado. A diferença é que lá, eu transpirei. E aqui, não. Vai ver a umidade em São Paulo respeita a dignidade de quem já sofreu demais. Sim, eu sei. Eu sempre reclamo de São Paulo. Mas aqui o clima (e as camas) parecem que abraçam — e respeitam — mais a solidão.


Nos últimos dias em “casa”, aquela cidade onde um “bom dia” vale mais que uma pós-graduação ou quantos livros você é capaz de publicar, reparei numa coisa: nunca fiz nenhuma merda de verdade lá. Nada que me rendesse um escândalo, uma expulsão ou uma história picante pra contar. Desde que voltei, fui o vizinho exemplar. Educado. Discreto. Zero barraco. Fiz tudo certo. E o prêmio? Estão dizendo coisas horrorosas sobre mim. Não falam do meu uso de cafeína, florais, óleos essenciais — me atribuem pecados que nunca cometi.


Deus me livre ser fofoqueiro, mas são as mesmas que falam baixinho mais pornografias em tom de piada do que qualquer site adulto permitiria — e que apalpam partes baixas alheias com a naturalidade que escolhem tomates e batatas na feira do colégio de Itapuã.


E é aí que entra o absurdo cômico da vida: nas cidades grandes, onde de fato fiz algumas pequenas (ou grandes e elegantes) merdas — tipo beijar bocas desconhecidas, dormir em camas conjuntas ou gritar no meio da rua “sou artista da vida adulta!” depois de duas taças de vinho (ou mais) — sou respeitado. E não é pouco. Em São Paulo eu sou alguém. Sou advogado, escritor, colunista de mim mesmo. Aqui, erro com charme. Já em “casa”, bastou eu preferir conversar sobre inventário na varanda do que na mesa do boteco, que virei uma espécie de Pablo Escobar com roteiro de Emanuelle.


Jung, se estivesse vivo e inscrito no X (ex-Twitter, atual hospício), diria que estou em conflito entre minha persona e minha sombra. Em casa, esperam o filho pródigo. O menino que nunca deu trabalho. O moralmente inatacável. E eu até tento. Mas sinceramente? Esse papel está fora do meu range. Em São Paulo, a sombra brilha. Posso ser múltiplo, duvidoso, intenso. Posso errar. Posso tentar de novo. E o melhor: ninguém desrespeita minha mãe — mesmo sem saber que eu tenho uma.


Começo a achar que não sou mais natural de lugar nenhum. E, pela primeira vez, isso não me desespera. Ser de lugar nenhum é, talvez, a única forma de pertencer ao que importa. Já não me interessa o que dizem em padarias pequenas. Quero conversar com atendentes de cafeteria que me tratam como se eu fosse famoso, mesmo sem saber meu nome. Em São Paulo, todo mundo está ocupado demais com a própria ruína pra se preocupar com a minha. E isso é um alívio.


Na verdade, acho que descobri meu milagre. E ele não mora mais no CEP da minha infância. Meu milagre é saber que posso ir — e posso voltar. Que não preciso ser só de onde nasci, porque agora tenho onde pousar. Tenho um endereço, mesmo que provisório, onde me olho no espelho e gosto de quem vê. E do reflexo que vejo. Não quero plateia. Não preciso de testemunhas.


Essa semana em São Paulo vai ser boa. Não porque algo extraordinário vá acontecer. Mas porque estou sozinho — e não estou triste. Pela primeira vez, viajar desacompanhado não é ausência. É decisão. Ninguém com placa no desembarque. E tudo bem. Levei minha própria mala. Paguei minha própria corrida. Fui meu próprio abraço.


Eu finalmente comecei a aceitar que ninguém vai me levar ao aeroporto, eu sou sozinho, e prefiro ser — mas começo a torcer pra que um dia, alguém me espere em algum lugar, sem me julgar, sem precisar de mim, só por celebrar minha presença. E, quem sabe um dia, ter uma mala pra levar junto comigo onde eu for.


Enquanto isso, sigo. Porque, apesar de santo de casa não fazer milagre, eu me tornei um — não um santo, um milagre ambulante, que anda por aí com uma mala de mão, uma ironia na língua e uma fé desorganizada de que vai dar certo — mesmo que ninguém esteja esperando por mim no portão de desembarque.


Talvez, no fundo, a sabedoria popular já soubesse: a gente tem um defeito crônico de desvalorizar o que é próximo demais. O santo de casa tem cheiro de mofo conhecido, de roupa estendida no varal. Já o santo de fora tem aura, brilho e marketing.


E é assim que começo essa semana: com um milagre que não aconteceu no meu quintal. Mas que — ironicamente — floresce toda vez que eu volto pra São Paulo. Mesmo que ninguém perceba. Mesmo que ninguém acredite. Mesmo que eu não tenha auréola ainda… (continua - ou “nunca acaba”)


segunda-feira, 9 de junho de 2025

A Noite com 40 Personalidades num apartamento de 70 Metros ou O Beijo do Dublê de Elvis


(Este texto está fora de ordem temporal)


“É preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.”

— Friedrich Nietzsche


Saí com uma Amy Fake naquela noite meio sem querer, meio pra distrair. Tinha passado o dia inteiro reorganizando a vida — como quem varre a alma pelos cantos da casa. Ou como quem tenta fazer Marie Kondo no emocional, sem sucesso.


Mas a verdade é que meu carro não estava dos melhores. O para-brisa não funcionava e, claro, como toda boa história dramática exige, começou a chover assim que botamos o pé na rua.

(A Netflix teria orgulho do timing.)


— Vamos mesmo assim? — eu perguntei.

— Vamos tentar? — ela respondeu com aquele sorriso que é sempre um “sim” vestido de desafio.


Enquanto íamos, começamos a rir, eu e Amy, porque quando eu tinha motinha a gente combinava de conhecer a Colômbia (por reparação histórica ao que o colombiano me causou) de Pop 100. Falamos: “Vamos de carro e sem para-brisa mesmo.”

E fomos. Rindo debaixo d’água. A caminho da vida real.

(A Vida Real™, esse spin-off de tragédia cômica que ninguém pediu pra participar.)


Paramos numa loja de autopeças. Comprei o fluido do limpador de para-brisa, achando que aquilo salvaria nossa aventura. Só que, distraído, passei também por dentro do carro. O cheiro ficou insuportável.

Uma mistura de oficina mecânica com lança-perfume de carnaval vencido.

(Se existisse um “Eau de Caos”, teria sido lançado naquele momento.)


Tontos, rindo, sem saber se era da chuva ou do vapor ácido que dominava o carro, fomos direto pra gráfica buscar os quadros revelados. Meus desenhos. Minha história. Colocamos tudo nas molduras, penduramos atrás da cama, e claro, a Amy fake quis meter a mão até na bolha da cueca do meu autorretrato semi-nu.


— Tira a mão daí! Me respeita, aí ninguém toca mais — eu disse.

Mas ia quebrar minhas próprias regras mais tarde (e minha cara).

(Plot twist nível Shonda Rhimes.)


Durante a conversa, dissemos que a vida parecia uma série. E de fato parecia. Todo o núcleo agora estava perto de onde eu me mudei. Alguns atores saíram, outros ficaram.

Nas séries, os personagens somem quando têm um spin-off, ou quando o ator se envolve num escândalo.

(Aqui, no máximo, some quando te bloqueia no Instagram.)


Ficamos imaginando o que teria acontecido, na vida real, com os atores dos personagens desaparecidos.


E então… ele apareceu. O dublê de Elvis.

Mais louco que nós dois (ou tão louco quanto eu).

Com cara de figurante que virou protagonista por erro de roteiro.


Começamos a supor se estávamos todos dentro de um hospício, rindo e criando uma realidade que não existe. Ou se éramos apenas mendigos, pedindo cigarro na rua, achando que estávamos sendo incomodados por mendigos enquanto, na verdade, estávamos embaixo de uma marquise.

Nietzsche diria que enlouquecer é dançar com o real até ele desistir de ser verdade.

E, a partir daí, dançamos.

(Com passos coreografados por Lars von Trier.)


Combinamos de comprar uma Ranger velha e ir pra Colômbia. Elvis, sem show agora, topou dirigir pra gente.

(Dava pra chamar a série de “Os três doidos e uma caminhonete.”)


Amy fake se foi.

Eu e Elvis também.

Ele é sempre tão querido, tão fofo, tão educado. Se ofereceu pra me levar em casa.


Eu ofereci um whisky. Que virou uma playlist. Que virou outro whisky.

(Sequência básica de possessão emocional nos anos 2020.)


Ele me colocou pra ouvir eyes On Fire, do Blue Foundation. Eu nunca tinha ouvido essa música. Ou talvez ela tenha se perdido em algum lapso temporal de memória dissociada.

A música tocava e entrava na minha cabeça como uma ameaça ou uma cantada.

Tive uma das conversas e noites mais divertidas em muito tempo. Desci pra buscar bebida rindo e pulando como se eu tivesse 20 anos (mas tenho 40).

E eu, que não tenho deixado ninguém nem tocar na cueca da minha imagem desenhada, acabei beijando um menino 16 anos mais novo.

Não sei se foi porque ele leu meus textos — ou leu meus olhos.


Deitamos embaixo do meu semi-nu em uma noite que parecia ter 40 pessoas em uma casa de 70 metros.

Que podem ser  todas nossas personalidades, se (re)encontrando na dança nietzscheana. Em um after existencial com trilha sonora inconsciente. 


Dormimos.

Bem, não — antes ele bateu a cabeça sem querer na minha boca. O lábio inchou, deu um sangue prensado.

Meu Deus? Como vou esconder isso em audiências e vida normal?

Como explicar que eu não estava transando com ele?


Aí lembrei: eu não devo explicações pra ninguém.

Eu não tenho mais vinte anos.

(Só o algoritmo que insiste.)


Cuidei dele que tava meio bêbado (não que eu não estivesse). Dormimos.


Acordo no outro dia e ele quer tomar ovo com vinagre!

(Que tipo de pessoa toma ovo com vinagre?)

Talvez o mesmo tipo que lê Nietzsche por prazer e topa dirigir pra Colômbia.


Fiz um pão de queijo pra ele e dei os ovos.

Não queria cozinhar.

Estava com tanta vergonha dele que mal conseguia sair do quarto.

A memória da noite se confundia entre devaneio e delírio, e a única coisa real eram meus lábios latejando.

Fui um péssimo anfitrião. Pedi desculpas.


Ele é daquele tipo de cara que não lê só seu texto.

Ele te interpreta como se fosse teatro expressionista com uma pretensão de estar na Europa de 1980.

E foi assim — na minha varanda de móveis da mesma época.

Um personagem complexo que enriquece a trama.


Freud dizia que todo ato falho é um desejo expresso.

E talvez tenha sido isso: meu tesão intelectual escorregando na saliva de um beijo.

(Psicanálise + indie rock + ressaca emocional = fórmula do caos moderno.)


Não deveria ter beijado o Elvis.

Não se beija o Elvis.

Se ouve.


Mas ele disse que leu Nietzsche —

E eu, que me apaixono por frases e fissuras, beijei.


Espero que ele continue: “steadily emerging with grace.”

Não, essa história não vai ser uma história de amor, por motivos óbvios.

E esse texto não vai ser publicado.


Mas ele… ele eu espero que tenha seu contrato renovado para todas as outras temporadas.

(Shuffling the cards of your game…)


Se você estiver lendo esse texto, coloque, assim que puder, Eyes on Fire pra tocar baixinho.


Feche as cortinas. E dance com a loucura, como quem ama o próprio abismo — e sabe que ele retribui, de vez em quando, com um gole.


terça-feira, 3 de junho de 2025

O paciente zero do meu cuidado


(ou como a cura às vezes não tem gosto de remédio, mas de conversa quente e riso abafado)


Elvis chegou aqui tossindo, meio sem saber se era bem-vindo ou só esperado.

E era os dois.

Ficou.

E às vezes é só isso: ficar.

Talvez eu tenha pegado essa tosse na última “escuta”.


Ele disse que funcionaríamos mais como amigos que como um casal, eu não concordei, mas não expliquei por que, afinal, existe um abismo de gerações entre nós dois e nosso encontro acontece como Sandra Bullock escrevia cartas para Keanu Reeves em A Casa do Lago — de vinte anos depois.


Pela noite, dopei ele com um relaxante muscular que fazia ele mal abrir os olhos até a noite seguinte

(eu sempre cometo algum erro com Elvis — ou no tom que canto, ou no ato). 


Acontece que agora dividimos o mesmo chiado e o sofá.

(Talvez nós sempre tivéssemos dividido alguma coisa.)


Entre a janta e o sono, conversamos por três horas —

daquelas conversas que não pedem roteiro.

Ele me contou da vida dele, das mudanças, dos silêncios.

Eu falei da minha também, com menos medo de parecer demais.


A gente se escutou com a naturalidade de quem está em casa,

mesmo que o tempo todo a pergunta

“o que é isso que estamos vivendo?”

pairasse muda na sala.


Eu, como sempre, hajo como se soubesse.

Eu tenho saber! Sempre.

(uma versão afetiva de “fake it till you make it”, só que mais bonita.)


Fiz o jantar.

Nada elaborado: um macarrão que ficou mais gostoso do que eu previa —

talvez porque ele elogiou, talvez porque cozinhei de coração leve.


Depois veio o chá —

minha mistura de gengibre, cúrcuma, limão, açúcar e vitamina C —

Carinho disfarçado de remedio, servido como quem serve cuidado sem alarde.


Passei melaleuca no peito dele.

Arnica nas costas.

Ele tossia de um lado do sofá, eu do outro.


Dividimos, a partir daí, a gripe, o silêncio e um episódio de Lazarus,

anime sobre um mundo devastado onde a humanidade sobrevive às custas de uma droga milagrosa —


ironicamente, dormi quase o episódio inteiro.

Quando acordei, entendi que a ironia é sempre protagonista:

estávamos ali, meio quebrados, sobrevivendo a outra droga milagrosa —

afeto.


Não foi um encontro romântico.

Estamos em uma espécie de intervalo entre tempestades.

Um serendipity calmo.


Mas deixei ele saber que amor se faz na mesa, não na cama —

como quem entrega sabedoria adquirida nos 20 anos que separam nossa existência.


E deu vontade de cuidar.

E cuidei.

Com o que eu tinha:

chá, palavra, escuta,

café da manhã com o melhor ovo mexido que já fiz na vida

(e olha que eu sou exigente com ovos).


Ele tem aquele charme displicente de Elvis —

um misto de provocação e poesia nos olhos.


Mas, quando despido dos gestos ensaiados,

ele revela algo ainda mais bonito:

o olhar de um menino que precisa ser cuidado.

E foi nessa fresta que eu enxerguei o que havia de mais verdadeiro.


Ele é uma espécie de arquétipo híbrido:

um rebelde com causa mal resolvida,

misturado com um órfão emocionalmente sofisticado.


Sabe aquele gato bravo de rua que rosna quando você tenta fazer carinho —

mas que, no fundo,

só quer dormir em um lugar macio que deixe seu peito quente?


É isso.


Dei espaço.

E, enquanto ele falava, eu fui contando tudo —

sobre mim, sobre o que fui, o que amei, o que perdi.


Ele escutou com aquele jeito quieto de quem nunca teve muito quem ou o que escutar.

Fui oferecendo afeto como quem tenta conquistar a confiança

de um filhote de leão mal domesticado:


aos poucos, sem encostar demais,

mas sem sair dali.


Debaixo daquela ameaça quase fofa,

mora mais que um galã:

mora um felino de telhado com medo de não ser amado.


E talvez tenha sido isso que me fez suspirar.


Não, Elvis não me arrancou um suspiro como da última vez —

dessa vez, me fez lembrar.


Lembrei minha história para barganhar pela sua.

Lembrou o que é ter alguém sob o mesmo teto, tossindo baixo no outro cômodo.

Lembrou o que era ter alguém que, mesmo em silêncio, dizia

“tô aqui.”

E a minha capacidade de fazer isso.


E foi aí que lembrei de Andrés.

Não da dor, nem do que faltou.

Mas do que teve.

Do café, da varanda, da rosa da Bela e a Fera

que morreu num copo de requeijão.

Do que se pode lembrar sem rancor.


Lembrei de um amor que achei que era o último,

e de um luto que chegou logo depois:

o de Rodrigo.


A morte de Rodrigo me desorganizou.

A ausência de Andrés completou o buraco.


Eu me perdi por anos entre álcool, raiva e textos impulsivos —

textos que nem Bukowski assinaria.


Ele virou o vilão da história que eu não sabia reescrever.

Mas Elvis — com sua tosse, seu riso, seu corpo cansado estendido no meu sofá —

me ensinou uma coisa sem dizer:

que a gente só cuida dos outros quando já começou a cuidar de si.


E foi aí que perdoei.

Não numa epifania,

nem num gesto dramático.


Perdoei a mim e ao Andrés

montando uma cama, trocando uma toalha, colocando canela no café.

Perdoei como quem varre um cômodo antigo

e decide não fechar mais aquela porta com rancor.

Porque hoje, finalmente, eu estou bem.


E com uma mensagem que não espera retorno, escrevi pra ele.

O libertando da mágoa que senti,

e me libertando também.


Eu disse ao meu Thomas O’Malley

(o Felino Carismático dos Aristogatas, esse mesmo:

galante, errante, com charme de Elvis

e cara de quem dorme em qualquer lugar,

mas acorda sempre com estilo)

que não haveria texto, drama, nem romance inventado —


só a simplicidade de quem oferece cuidado

e escuta.


Mas surgiu esse texto.

Porque, mesmo sem pedir,

ele me lembrou do que eu ainda sei fazer de melhor:

cuidar.