(ou como a cura às vezes não tem gosto de remédio, mas de conversa quente e riso abafado)
Elvis chegou aqui tossindo, meio sem saber se era bem-vindo ou só esperado.
E era os dois.
Ficou.
E às vezes é só isso: ficar.
Talvez eu tenha pegado essa tosse na última “escuta”.
Ele disse que funcionaríamos mais como amigos que como um casal, eu não concordei, mas não expliquei por que, afinal, existe um abismo de gerações entre nós dois e nosso encontro acontece como Sandra Bullock escrevia cartas para Keanu Reeves em A Casa do Lago — de vinte anos depois.
Pela noite, dopei ele com um relaxante muscular que fazia ele mal abrir os olhos até a noite seguinte
(eu sempre cometo algum erro com Elvis — ou no tom que canto, ou no ato).
Acontece que agora dividimos o mesmo chiado e o sofá.
(Talvez nós sempre tivéssemos dividido alguma coisa.)
Entre a janta e o sono, conversamos por três horas —
daquelas conversas que não pedem roteiro.
Ele me contou da vida dele, das mudanças, dos silêncios.
Eu falei da minha também, com menos medo de parecer demais.
A gente se escutou com a naturalidade de quem está em casa,
mesmo que o tempo todo a pergunta
“o que é isso que estamos vivendo?”
pairasse muda na sala.
Eu, como sempre, hajo como se soubesse.
Eu tenho saber! Sempre.
(uma versão afetiva de “fake it till you make it”, só que mais bonita.)
Fiz o jantar.
Nada elaborado: um macarrão que ficou mais gostoso do que eu previa —
talvez porque ele elogiou, talvez porque cozinhei de coração leve.
Depois veio o chá —
minha mistura de gengibre, cúrcuma, limão, açúcar e vitamina C —
Carinho disfarçado de remedio, servido como quem serve cuidado sem alarde.
Passei melaleuca no peito dele.
Arnica nas costas.
Ele tossia de um lado do sofá, eu do outro.
Dividimos, a partir daí, a gripe, o silêncio e um episódio de Lazarus,
anime sobre um mundo devastado onde a humanidade sobrevive às custas de uma droga milagrosa —
ironicamente, dormi quase o episódio inteiro.
Quando acordei, entendi que a ironia é sempre protagonista:
estávamos ali, meio quebrados, sobrevivendo a outra droga milagrosa —
afeto.
Não foi um encontro romântico.
Estamos em uma espécie de intervalo entre tempestades.
Um serendipity calmo.
Mas deixei ele saber que amor se faz na mesa, não na cama —
como quem entrega sabedoria adquirida nos 20 anos que separam nossa existência.
E deu vontade de cuidar.
E cuidei.
Com o que eu tinha:
chá, palavra, escuta,
café da manhã com o melhor ovo mexido que já fiz na vida
(e olha que eu sou exigente com ovos).
Ele tem aquele charme displicente de Elvis —
um misto de provocação e poesia nos olhos.
Mas, quando despido dos gestos ensaiados,
ele revela algo ainda mais bonito:
o olhar de um menino que precisa ser cuidado.
E foi nessa fresta que eu enxerguei o que havia de mais verdadeiro.
Ele é uma espécie de arquétipo híbrido:
um rebelde com causa mal resolvida,
misturado com um órfão emocionalmente sofisticado.
Sabe aquele gato bravo de rua que rosna quando você tenta fazer carinho —
mas que, no fundo,
só quer dormir em um lugar macio que deixe seu peito quente?
É isso.
Dei espaço.
E, enquanto ele falava, eu fui contando tudo —
sobre mim, sobre o que fui, o que amei, o que perdi.
Ele escutou com aquele jeito quieto de quem nunca teve muito quem ou o que escutar.
Fui oferecendo afeto como quem tenta conquistar a confiança
de um filhote de leão mal domesticado:
aos poucos, sem encostar demais,
mas sem sair dali.
Debaixo daquela ameaça quase fofa,
mora mais que um galã:
mora um felino de telhado com medo de não ser amado.
E talvez tenha sido isso que me fez suspirar.
Não, Elvis não me arrancou um suspiro como da última vez —
dessa vez, me fez lembrar.
Lembrei minha história para barganhar pela sua.
Lembrou o que é ter alguém sob o mesmo teto, tossindo baixo no outro cômodo.
Lembrou o que era ter alguém que, mesmo em silêncio, dizia
“tô aqui.”
E a minha capacidade de fazer isso.
E foi aí que lembrei de Andrés.
Não da dor, nem do que faltou.
Mas do que teve.
Do café, da varanda, da rosa da Bela e a Fera
que morreu num copo de requeijão.
Do que se pode lembrar sem rancor.
Lembrei de um amor que achei que era o último,
e de um luto que chegou logo depois:
o de Rodrigo.
A morte de Rodrigo me desorganizou.
A ausência de Andrés completou o buraco.
Eu me perdi por anos entre álcool, raiva e textos impulsivos —
textos que nem Bukowski assinaria.
Ele virou o vilão da história que eu não sabia reescrever.
Mas Elvis — com sua tosse, seu riso, seu corpo cansado estendido no meu sofá —
me ensinou uma coisa sem dizer:
que a gente só cuida dos outros quando já começou a cuidar de si.
E foi aí que perdoei.
Não numa epifania,
nem num gesto dramático.
Perdoei a mim e ao Andrés
montando uma cama, trocando uma toalha, colocando canela no café.
Perdoei como quem varre um cômodo antigo
e decide não fechar mais aquela porta com rancor.
Porque hoje, finalmente, eu estou bem.
E com uma mensagem que não espera retorno, escrevi pra ele.
O libertando da mágoa que senti,
e me libertando também.
Eu disse ao meu Thomas O’Malley
(o Felino Carismático dos Aristogatas, esse mesmo:
galante, errante, com charme de Elvis
e cara de quem dorme em qualquer lugar,
mas acorda sempre com estilo)
que não haveria texto, drama, nem romance inventado —
só a simplicidade de quem oferece cuidado
e escuta.
Mas surgiu esse texto.
Porque, mesmo sem pedir,
ele me lembrou do que eu ainda sei fazer de melhor:
cuidar.
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