Santo de casa não faz milagre. O ditado que mais parece ter saído da boca de uma sogra ressentida do que de um apóstolo. Mas, como quase todo veneno popular, tem raízes profundas na nossa cultura — e talvez, nos nossos traumas.
Essa frase nasceu no seio da religiosidade católica popular, onde se dizia que os santos venerados em suas próprias cidades não recebiam o mesmo fervor, nem a mesma fé, do que os santos estrangeiros, os exóticos, os importados. Era como se a proximidade humana diminuísse a sacralidade. Como se ver o santo descalço, com olheiras, e pagando fiado no mercadinho da esquina o tornasse menos milagreiro.
Na Bíblia, Jesus mesmo disse que “nenhum profeta é bem recebido em sua terra” (Lucas 4:24), frase que, em bom português brasileiro, virou esse tapa de luva de pelica que usamos pra justificar quando somos geniais… mas ignorados pelos vizinhos. O ditado atravessou séculos e virou desculpa pra quase tudo: da tia que nunca vendeu um bolo na própria rua, mas bomba no Instagram, ao menino da vila que só foi aplaudido depois que ganhou um prêmio na França.
Essas semanas foram difíceis. Semanas de invasão de privacidade, de testes de limites, de abelhas entrando no meu apartamento como se pressentissem a perturbação que estava por vir. E não erraram. Fãs, stalkers, obsessivos — parece que atraio essas criaturas como quem atrai mosquitos com luz azul. Fico me perguntando: será carma, síndrome de protagonista ou uma escolha do universo em me nomear Carrie — não a Bradshaw. A estranha mesmo.
E como tudo na minha vida acontece de uma vez, quando quase termino de organizar minha casa, preciso correr para São Paulo. Salvar uma audiência administrativa daquelas que só um super-herói de terno resolve. E pessoalmente. Em Vila Velha, mesmo sendo mais eu do que nunca, ao invés de ser insubstituível, sou maldito. Literalmente. Mesmo vestindo minha persona de bom moço.
Assim cheguei a São Paulo. De novo. Já nem sei se digo “cheguei” ou “voltei”. No aeroporto, ninguém me levou nem esperou com plaquinha, flor ou cartaz do tipo “meu advogado favorito”. Só um Uber superfaturado — fruto da economia burra na passagem pro aeroporto mais barato. O motorista, destemido, ainda reclamou do trajeto. Mal sabia ele que eu também queria reclamar do trajeto da minha vida. Mas com meu terno azul, imprimo equilíbrio até no banco de trás.
Cheguei ao apartamento onde sempre fico em São Paulo. Não economizei. Fiz com cara de quem é dono do próprio destino — e da própria fatura do cartão. O céu estava do jeito que gosto: cinza, dramático, digno de trilha sonora com jazz melancólico. Mas sabe o que é mais maluco? Saí de Vila Velha com o mesmo céu. Lá também estava nublado. A diferença é que lá, eu transpirei. E aqui, não. Vai ver a umidade em São Paulo respeita a dignidade de quem já sofreu demais. Sim, eu sei. Eu sempre reclamo de São Paulo. Mas aqui o clima (e as camas) parecem que abraçam — e respeitam — mais a solidão.
Nos últimos dias em “casa”, aquela cidade onde um “bom dia” vale mais que uma pós-graduação ou quantos livros você é capaz de publicar, reparei numa coisa: nunca fiz nenhuma merda de verdade lá. Nada que me rendesse um escândalo, uma expulsão ou uma história picante pra contar. Desde que voltei, fui o vizinho exemplar. Educado. Discreto. Zero barraco. Fiz tudo certo. E o prêmio? Estão dizendo coisas horrorosas sobre mim. Não falam do meu uso de cafeína, florais, óleos essenciais — me atribuem pecados que nunca cometi.
Deus me livre ser fofoqueiro, mas são as mesmas que falam baixinho mais pornografias em tom de piada do que qualquer site adulto permitiria — e que apalpam partes baixas alheias com a naturalidade que escolhem tomates e batatas na feira do colégio de Itapuã.
E é aí que entra o absurdo cômico da vida: nas cidades grandes, onde de fato fiz algumas pequenas (ou grandes e elegantes) merdas — tipo beijar bocas desconhecidas, dormir em camas conjuntas ou gritar no meio da rua “sou artista da vida adulta!” depois de duas taças de vinho (ou mais) — sou respeitado. E não é pouco. Em São Paulo eu sou alguém. Sou advogado, escritor, colunista de mim mesmo. Aqui, erro com charme. Já em “casa”, bastou eu preferir conversar sobre inventário na varanda do que na mesa do boteco, que virei uma espécie de Pablo Escobar com roteiro de Emanuelle.
Jung, se estivesse vivo e inscrito no X (ex-Twitter, atual hospício), diria que estou em conflito entre minha persona e minha sombra. Em casa, esperam o filho pródigo. O menino que nunca deu trabalho. O moralmente inatacável. E eu até tento. Mas sinceramente? Esse papel está fora do meu range. Em São Paulo, a sombra brilha. Posso ser múltiplo, duvidoso, intenso. Posso errar. Posso tentar de novo. E o melhor: ninguém desrespeita minha mãe — mesmo sem saber que eu tenho uma.
Começo a achar que não sou mais natural de lugar nenhum. E, pela primeira vez, isso não me desespera. Ser de lugar nenhum é, talvez, a única forma de pertencer ao que importa. Já não me interessa o que dizem em padarias pequenas. Quero conversar com atendentes de cafeteria que me tratam como se eu fosse famoso, mesmo sem saber meu nome. Em São Paulo, todo mundo está ocupado demais com a própria ruína pra se preocupar com a minha. E isso é um alívio.
Na verdade, acho que descobri meu milagre. E ele não mora mais no CEP da minha infância. Meu milagre é saber que posso ir — e posso voltar. Que não preciso ser só de onde nasci, porque agora tenho onde pousar. Tenho um endereço, mesmo que provisório, onde me olho no espelho e gosto de quem vê. E do reflexo que vejo. Não quero plateia. Não preciso de testemunhas.
Essa semana em São Paulo vai ser boa. Não porque algo extraordinário vá acontecer. Mas porque estou sozinho — e não estou triste. Pela primeira vez, viajar desacompanhado não é ausência. É decisão. Ninguém com placa no desembarque. E tudo bem. Levei minha própria mala. Paguei minha própria corrida. Fui meu próprio abraço.
Eu finalmente comecei a aceitar que ninguém vai me levar ao aeroporto, eu sou sozinho, e prefiro ser — mas começo a torcer pra que um dia, alguém me espere em algum lugar, sem me julgar, sem precisar de mim, só por celebrar minha presença. E, quem sabe um dia, ter uma mala pra levar junto comigo onde eu for.
Enquanto isso, sigo. Porque, apesar de santo de casa não fazer milagre, eu me tornei um — não um santo, um milagre ambulante, que anda por aí com uma mala de mão, uma ironia na língua e uma fé desorganizada de que vai dar certo — mesmo que ninguém esteja esperando por mim no portão de desembarque.
Talvez, no fundo, a sabedoria popular já soubesse: a gente tem um defeito crônico de desvalorizar o que é próximo demais. O santo de casa tem cheiro de mofo conhecido, de roupa estendida no varal. Já o santo de fora tem aura, brilho e marketing.
E é assim que começo essa semana: com um milagre que não aconteceu no meu quintal. Mas que — ironicamente — floresce toda vez que eu volto pra São Paulo. Mesmo que ninguém perceba. Mesmo que ninguém acredite. Mesmo que eu não tenha auréola ainda… (continua - ou “nunca acaba”)
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