Era sexta-feira. A cidade, molhada. Eu, gripado. E ainda assim, fui.
Fui porque insistiram, porque chamaram, porque — no fundo — ainda há uma parte minha que acredita que ser chamado é o mesmo que ser querido.
Erro antigo, esse. Mas sou homem de ideias ruins — já deixei claro na última crônica. Ideias ruins me conduzem melhor do que qualquer Waze emocional.
Cheguei no bar. Rouco, febril e de casaco. Entreguei meu corpo pra uma cadeira desconfortável e esperei o afeto que me convocou. Mas quem apareceu primeiro foi o constrangimento. Sentou do meu lado, pediu uma cerveja e cochichou no meu ouvido:
“Você não devia estar aqui.”
Tarde demais. Eu já estava.
No meio da fumaça e das garrafas, um detalhe teatral: o namorado do aniversariante — amigo dele — veio me dizer algo que eu não pedi, mas que explicou tudo:
“Ele têm uma coisa comigo… sabe? Não sei explicar. É tipo um negócio mal resolvido. Ele gosta, mas não quer parecer. E aí faz ciúmes.”
Claro. Agora tudo fazia sentido.
O ciúme não era sobre mim.
Eu era o elemento cênico.
A isca.
A provocação.
Ao meu redor, beijos circulavam sem existir como bandeja de shot de cachaça— e no centro, ele.
O moço que me chamou. O mesmo que disse querer me ver.
O mesmo que, naquela noite, me usou como peça no jogo de um ciúme que nem era meu.
Passaram a mão em mim na frente de todos. Não por desejo, mas por estratégia.
E em algum momento da noite, no meio de um riso sem graça, ele ainda soltou:
“Você canta alto demais.”
Não era sobre volume. Era sobre incômodo. Sobre me calar antes que eu desafinasse a narrativa que ele queria manter.
Não é sempre assim? Quando a nossa alegria atravessa o roteiro alheio, vira exagero.
Mas ninguém me perguntou se eu estava cantando por alegria ou pra não chorar.
Me quis objeto de disputa.
Narrativa de vingança.
Plot twist afetivo.
E eu — que só queria cantar uma música — fui colocado no meio de um triângulo torto, onde todos se olhavam menos a mim.
Fui bode expiatório de uma trama que nunca escrevi.
Um figurante com fala demais pra um papel que nunca pedi.
Fiquei ali tentando entender o que me custou mais: a febre alta, a exposição baixa ou o silêncio dele, que não teve coragem de dizer o óbvio.
Que me chamou pra compensar uma ausência.
Que me envolveu sem intenção de cuidar.
Que não esperava que eu fosse.
Mas eu fui. E voltei.
Voltei mais doente — de corpo, de ego, de paciência.
Em casa, escrevi:
“Quer ficar com os um casal? Fica. Mas não me envolve.”
Mandei sem vírgulas. Só raiva.
Depois completei, com a calma de quem já cansou de implorar por clareza:
“Me respeita. Pelos anos que a gente se conhece.
Só isso. Me respeita.”
Não sei se ele vai entender.
Não espero resposta.
Mas dessa vez, quem voltou gripado — e curado — fui eu.
Porque há dores que não precisam mais de remédio.
Só de um bom texto, um pouco de café…
e paz.
Sempre a paz. Amanhã vou comprar um cuador, minha cafeteira, acho que não volta mais.
Epílogo: deletei todas as mensagens na manhã seguinte e segui a vida.