Vila Velha tem um ar diferente. Não é só o calor da terra ou o barulho do mar; é a forma como ela carrega memórias. Cada esquina, cada rua, tem algo para contar. É engraçado como, às vezes, precisamos voltar para o lugar de onde viemos para entender as voltas que a vida dá. E foi assim que cheguei novamente à minha cidade natal, sob uma Lua Cheia em Câncer – a Lua das emoções, dos reencontros, e, claro, dos amores do passado.
Sempre tive uma relação especial com as fases da lua. Não sei se é pela poesia ou pela força gravitacional que ela exerce em tudo que nos cerca, mas é fato: em noites de lua cheia, o passado sempre dá um jeito de bater à porta. E naquela noite, ele bateu, mas de forma mais sutil – uma mensagem inesperada, quase tímida: “isso sim foi uma surpresa…”.
Era ele. Não o Jarro, mas outra figura do meu passado. Aquele que sempre esteve por perto, mas nunca no lugar que deveria estar. Ele nunca foi “o amor” declarado, mas também nunca foi apenas um amigo. Sempre fomos algo entre os dois. Nunca nomeado, nunca assumido, mas sempre ali, como se estivesse esperando o momento certo para ocupar o espaço que parecia reservado.
“Como você está? Ainda em São Paulo?” – ele perguntou. Não estava. Naquele momento, eu estava aqui, em Vila Velha, tentando entender por que a vida parecia tão inclinada a fazer com que eu revisitasse histórias que ainda não tinham um ponto final. A Lua Cheia estava no céu, e eu não sabia se era ela ou se era o destino que estava revirando as páginas da minha vida, mas eu sentia que algo estava se movendo.
Eu nunca amei ninguém pela metade. Talvez por isso, em algum canto de mim, ainda ame todos os amores que passaram pela minha vida. É como se cada história tivesse deixado uma marca indelével, uma linha mal terminada, que de vez em quando reaparece pedindo um ponto final. Nos últimos tempos, parece que cada uma dessas histórias está voltando, como um desfile de remakes, para me fazer sofrer por elas uma última gota, como se o universo estivesse me preparando para o meu último amor.
Não sei se é a Lua, se são as memórias, ou se apenas cheguei a um ponto em que não consigo mais ignorar os sentimentos que arquivei. Cada encontro, cada mensagem inesperada, me coloca de frente com o que deixei para trás – e o que deixei inacabado. E é estranho, porque eu não quero remakes. Como já disse antes, remakes me deixam desconfortável. Não gosto de revisitar algo que já vivi, como se tentasse colocar um filtro moderno em uma foto que já foi linda à sua maneira.
Será que todos esses retornos são inevitáveis e talvez todos nós sejamos remakes de nós mesmos, tentando corrigir erros antigos com as ferramentas que temos agora?
Das Pessoas Palavras-Cruzadas
Sempre pensei nas pessoas como Caças-Palavras e Palavras-Cruzadas. As Caças-Palavras são claras. Você precisa de paciência para encontrar o que está escondido, mas, uma vez que encontra, tudo faz sentido. Já as Palavras-Cruzadas são um enigma constante, cheio de espaços em branco que você tenta preencher com o que acha que é certo, mas nunca tem certeza, esse texto foi todo sobre uma pessoa específica, e ele de repente me aparece no Tinder, talvez o primeiro amor que tive, nos conhecemos com quantos? 18 anos?
Ele sem dúvida é Palavra-Cruzada. Sempre foi. Ele preencheu espaços na minha vida que eu nem sabia que estavam lá, mas deixou muitos outros em branco. E agora, depois de tanto tempo, ele reaparece, como uma pergunta antiga que eu ainda não sei responder. Será que ele é o final de uma história ou o começo de outra?
“Que bom que Você voltou”, ele disse, como se isso fosse óbvio, mas ao mesmo tempo carregado de significados. Não sabia se ele estava falando de mim voltando para Vila Velha ou para ele. Talvez fosse um pouco dos dois.
Conversamos como se o tempo não tivesse passado, mas ele passou. Colocamos alguns ok toa nos Is, perguntei: “você lembra que quando começamos a conversar o que nos falávamos?” Ele disse “Sim, Lógico”, eu disse “Eu era apaixonado por você”, e ele “eu fiz direito por você”, reconheceu que existia uma tensão sexual imensa entre nós quando viramos amigos, o que deixava ele nervoso, e eu, confuso, mas eu já não fico mais sem respostas, Eu não sou mais o mesmo. Ele também não. Havia algo ali, algo que parecia inacabado, como um livro que a última página nunca foi escrita.
Eu disse como foi triste ter me afastado dele, durante anos ele foi o único a saber da minha sexualidade, da minha vida, ele era meu espaço seguro, onde eu contava tudo e podia ser eu, ele sempre foi meu apoio, “era o que eu sentia que era”, disse ele, perguntei por que nunca tivemos nada, ele disse, por que era tudo confuso, Eu sorri. Não porque concordava, mas porque era engraçado como tudo parecia convergir para aquele momento. A Lua, o mar, Vila Velha, ele. “Talvez a gente sempre tenha tido”, pensei.
Nossas conversas pareciam ter sintonia, carinho, história e significado, ele disse que odiava exposição, talvez por que eu escrevia sobre ele nesse blog, eu disse que deveríamos ter casado, ele disse que sim, teria nos poupado muito!
E, como se o universo tivesse decidido que a gente precisava resolver isso, convidei ele para sair comigo no Carnaval,Porque, claro, se é pra revisitar o passado, que tenha máscaras, confetes e paetes, e que seja no meio da avenida. Mas, como toda boa história minha, o plot twist veio rápido. Antes mesmo do bloco, eu fui checar o Tinder – e lá estava o golpe: o match tinha sido desfeito.
Era como se a história inteira tivesse sido reduzida a um meme: “Devíamos ter casado, mas antes vou te dar um unmatch em você, Beijo, tchau.” E ali estava eu, segurando o dedo celular, rindo sozinho, porque, sinceramente, o que mais dava para fazer? A Palavra-Cruzada da minha vida, me deixou novamente com os espaços em branco para preencher, que eu preenchi dessa vez:
“Tudo bem? Notei que desfizemos o match no Tinder e, embora eu não saiba exatamente o que isso significa, kkkk, não gostaria que algo ficasse em aberto ou mal entendido entre a gente. Se foi algo que fiz, como continuar ativo por lá ou trocar as fotos, queria esclarecer que foi uma brincadeira no meu Instagram, mostrando matches possíveis em NY – nada real ou significativo. Sei que talvez nem faça diferença, mas achei importante dizer para que eu não me sinta mal por qualquer coisa.
O que eu queria te dizer pessoalmente era, na verdade, um pedido de desculpas. Lá atrás, quando nos afastamos, sinto que não insisti o suficiente para ouvir o seu lado da história. Também não respeitei tudo o que já tínhamos construído e o quanto nossa relação, mesmo nesse limbo entre amizade e algo mais, era importante. Hoje, vejo que poderia ter agido diferente.
Não espero nada com isso, só queria ser honesto e reconhecer como me sinto. Me desculpa, de verdade, por não ter sido melhor naquela época. Quero que tudo fique claro e resolvido entre a gente, sem pendências ou dúvidas (não deixo mais assuntos inacabados – rs).
Independentemente de qualquer coisa, sempre tive muito carinho por você e espero que fique bem.”
Enviei, porque, se tem algo que aprendi, é que nem toda história precisa de um final feliz, mas toda história merece um ponto final, ainda que depois tenha um novo capítulo. Não sei se ele vai responder, e, sinceramente, já aceitei que talvez essa seja só mais uma história sem conclusão, como um remake cancelado antes da estreia, e sobre o carnaval, se ele não quer ser meu match, até lá encontro um superlike melhor, afinal, eu nunca precisei de aplicativos.
Do Último Amor
Eu me pergunto se toda essa revisitação ao passado é para me preparar para algo maior. Para que, quando o último amor chegar, eu não tenha mais dúvidas ou pendências. É como se eu precisasse sentir cada dor, reviver cada erro, para que nada disso interfira no que está por vir. Talvez o último amor não precise ser perfeito, mas ele precisa ser meu. Precisa ser verdadeiro.
Das Palavras-Cruzadas aos Caças-Palavras, dos remakes e aos revivals, todos eles têm algo em comum: eles só fazem sentido quando você decide que o jogo acabou. Quando você coloca o lápis de lado e diz: “Isso é o suficiente.”
E talvez seja isso que o amor verdadeiro seja – não um remake, não um enigma, mas o começo de uma história onde você não precisa preencher nenhum espaço em branco. Onde o que você é, basta.
Pós-Crédito :
Bom, como toda boa história, a vida decidiu adicionar mais um capítulo inesperado depois que publiquei aquele texto. A Lua Cheia em Câncer realmente sabe como bagunçar nossas emoções e mexer nas caixinhas de lembranças, não é mesmo? Pois bem, Ele leu o texto. Respondeu. E a resposta? Me fez rir! Ele, com o jeitinho leve e bem-humorado de sempre, praticamente disse: “Para de drama, Pablo, tá tudo bem! Isso não muda nada!” E sabe de uma coisa? Talvez ele esteja certo.
Talvez a Lua Cheia não seja apenas sobre revisitar o passado, mas sobre encontrar paz com ele. E, quem sabe, abrir espaço para novos capítulos — sejam eles escritos com ele, com alguém novo ou, como sempre, só comigo mesmo. Afinal, o protagonista dessa história sempre fui eu, né?
Continuamos o papo com astrologia (descobri que ele não sabe NADA de signos, mas finge que sabe, o que é bem a cara dele), histórias de infância e, claro, meu famoso ceviche, que ele teve o disparate de dizer que nunca provou. MENTIRA. Provou sim, mas como bom narrador dessa história, deixei ele com essa.
E sem final, seguimos. Com memes no WhatsApp, links do Spotify e risadas sobre tudo e nada. E quer saber? Isso já é o suficiente.


