segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Remakes e Revivals ou Como viajar no tempo em São Paulo.

 



Na era dos remakes e revivals, somos constantemente convidados a revisitar o passado, seja na arte, seja em nossas próprias histórias. Essa reflexão não é apenas sobre séries, filmes ou novelas que retornam às telas, mas também sobre as relações e os capítulos da vida que insistem em reaparecer. Este texto é sobre isso: amor, memórias e a busca por recomeços – com novos olhares e uma Lua mais brilhante.

I. Dos Remakes e Revivals

Remakes estão na moda na atualidade. Harry Potter já está sendo refeito. Eles têm o poder de resgatar histórias, modernizá-las e conectá-las a novas gerações. Vimos uma série de Entrevista com o Vampiro em pleno 2023. Eu confesso que tenho um grande preconceito em reviver histórias. Me causa estranhamento ver de novo personagens que eu já amei sendo interpretados por outras pessoas. Me dá angústia, agonia, porque sou apegado à imagem antiga. Mas, incrivelmente, eu amei Entrevista com o Vampiro! Muito mais liberal e fiel ao livro. Na verdade, muitas vezes supera o sucesso dos originais – ainda que poucos saibam que são remakes.

No Brasil, novelas como O Cravo e a Rosa, inspirada em A Megera Domada, conquistaram públicos que desconhecem sua base literária. Enquanto isso, filmes internacionais como Os Infiltrados, vencedor do Oscar, superaram o alcance de sua versão original, o thriller asiático Conflitos Internos. Essa dinâmica de reinvenção cultural revela como a arte pode ser recriada para novos contextos, despertando amor por narrativas clássicas em roupagens modernas.

Há pouco tempo, um dos meus filmes preferidos, Segundas Intenções (Cruel Intentions), virou série. Por ter amado a nova versão de Entrevista com o Vampiro, pensei: Vou assistir!. Não consegui! Talvez porque eu ame demais Ryan Phillippe e Reese Witherspoon e não consegui superar suas substituições – assim como não superei o divórcio deles na vida real.

II. Da magia dos revivals

Bem, diferente de remakes, existe o revival, que, ao invés de substituir os atores, traz eles na idade atual, amadurecendo os personagens e fazendo-os se reencontrar. Eu amo revival! Sex and the City virou And Just Like That em 2022, com aquelas personagens que já amo enfrentando novos conflitos. Assim como Halloween, que voltou em uma trilogia maravilhosa, com Jamie Lee Curtis, aos 60 anos, enfrentando Michael Myers e dando vida a Laurie pela última vez. Ainda espero ver Robert Englund e Heather Langenkamp como Nancy e Freddy – nem que seja só por mais um momento.

Enquanto não vejo Robert interpretando Freddy Krueger novamente, um personagem de 2016 retornou à minha vida com o mesmo "ator": o Jarro. Vocês lembram? Aquele bonito, até bonito, com flores em alto relevo. Primeiro, recebo um áudio de um amigo às 3 da manhã dizendo que encontrou ele em uma festa, e que ele pediu para me desbloquear porque me amava. Pensei: Eram dois anos sem nenhum contato, oito anos de história... Por que não?. Mesmo com a minha aversão total a remakes, desbloqueei.

III. Do revival na minha vida

Após algumas discussões e atritos – como vocês sabem, estou de volta a São Paulo, terra cinza de Jarros, Lobos, Ursos e Pastores Belgas –, desci do escritório um dia e lá estava ele. Lindo, em alto relevo e com uma coleira segurando o Blue (um cachorro forte e com cara de bravo!). Ele me disse que foi me ver e apresentar o Blue. Não coloquei a mão (vide "Bizarre Love": eu não tenho sorte com cachorros bravos ou traumatizados). Conversamos e nos despedimos. Na hora de dar tchau, ele me abraçou e me deu um beijo na boca. Eu não entendi.

Por duas ou três vezes, ao descer do escritório, ele estava lá. Sempre me beijava e ia embora, sem respostas, sem falar nada. Eu me perguntava: Será que estou diante de um remake? Ou de um revival? Eu não conseguia definir.

Eu ensaiei um breve namoro (dos que não merecem texto nem registro) e, quando postei com ele no karaokê, recebi uma mensagem do Jarro: Não acredito que está namorando! Por que não me esperou?. Respondi: Você nunca me convidou para sair nem para nada. O namorico (ico porque nada foi) terminou bem rápido, e logo o Jarro me disse: Semana que vem, quinta, saímos juntos!. E eu disse sim.

IV. Das festas e confusões em 2024

Fomos ao karaokê. Quando cheguei, estavam todos os amigos dele – tipo uma confraternização da firma (eu esperando um date). Ele deixou claro que eu não era nada, só um amigo. Um dos amigos dele começou a dar em cima de mim, e ele me abraçou e me beijou (um beijo seco, sem vida, sem take, nem valia uma cena do episódio). Segurou minha cintura pelo resto da noite. Depois de muita bebida e várias festas, ele não me soltava. Um amigo dele me puxou e disse: Fica comigo, ele não te trata bem. Vai ser bom para diminuir o ego dele. Ele merece. Eu ri. Lembrei de tudo que ele já tinha me feito sofrer em 2016 e respondi: Olha o tamanho dele, ele vai te matar.

Festa estranha, com gente esquisita. Eu não tava legal e não aguentava mais birita. O Jarro, pela minha proximidade com o amigo, não falou mais comigo. Fui embora. Ele achou que não fui sozinho e, a partir daí, tivemos uma série de brigas. Perguntei: O que você quer comigo?. Ele disse: Nada. E fim.

IV. Das voltas a 2016 - Das viagens no Tempo que fazemos

Mas não era o fim (acho que nunca é). Definidos como amigos, ele me chamou para sair. O aniversário dele estava próximo, mas eu tive que dizer não. Não tinha dinheiro para um episódio de externas noturnas na minha série, nem energia. Na semana seguinte, após uma grande vitória profissional, decidi comemorar. Não tenho amigos na cidade, então escrevi para ele: Vamos comemorar comigo? Como amigos?. Ele disse sim.

Nos encontramos. Robson me escreveu: Voltamos à temporada de 2016?. Respondi: Não! Agora só amigos. O Jarro disse: Calma... A bebida começa a subir e já não é tão amigo assim.

Entramos na festa. Ele pediu para tirar uma foto comigo e postar (ele postar comigo? Estranhei). Tiramos as fotos, bebemos, dançamos, e, de repente, nos beijamos. Aquela balada virou uma cápsula do tempo direto para 2016. Era o mesmo Jarro, o mesmo toque, o mesmo beijo. Eu nem me sentia no chão. Por um momento, decidimos que ficaríamos ali para o resto da vida. Casa comigo?. Caso!.

Saímos de mãos dadas. Ele me abraçava por trás durante toda a fila. Tudo parecia estar onde deveria estar.

Dali, fomos direto para a casa dele. Blue estava lá. Eu estava com medo, mas ele era doce e carinhoso (os dois eram). Fui me aproximando do Blue, que estava meio agitado. J. disse que ele ficava assim com estranhos em casa. Respondi: Me desculpa. Ele disse: Ele tem que se acostumar. Você não é um estranho. Você é o Pablo!. Meu olho brilhou. Fui olhar a minha vista preferida de São Paulo: a janela do apartamento dele.

Mas, assim que o álcool passou, o Jarro disse: Tudo que falei foi porque estava bêbado, tá?. Respondi: Tudo bem. Então vou embora. Ele me puxou e disse: Não vai. Espera. Eu preciso me acostumar também. Te amo.

Deitamos e nos amamos. Dizem que, quando estamos perto de alguém que amamos, o cérebro libera ocitocina, levando o casal a um estado de sonolência. O Jarro virou e falou: Meu Deus, eu nunca me senti assim. Parece que estou dopado. Respondi: Eu também. Expliquei a ele como funciona a ocitocina no cérebro enquanto beijava o rosto dele. Ele disse: Por favor, para de me dar amor, porque não consigo continuar o que estava fazendo com você. Rimos. Ele conseguiu. Passamos a noite fazendo... mas sem chegar ao fim.

Dormimos durante o dia, e à noite ele pediu que eu não fosse embora, que ficasse ali (eu queria ficar pra sempre). Mas, na mesma intensidade que a gente se ama, o passado volta e a gente se odeia. Em minha cabeça, fica uma confusão: Vale a pena esse revival?.

O mesmo amigo que me fez desbloquear o Jarro comentou na foto que ele postou nossa: "O casal que eu shipo". Respondi: "Se depois de 9 anos ainda existe alguma coisa, isso provavelmente é amor. Deve valer a pena".

Tudo foi tão mágico e fantástico que eu só queria ficar ali, deitado no peito dele, abraçando o Blue, que nessa altura já era meu melhor amigo e encostava a cabeça na minha para pedir carinho. Ali era o único lugar em que me senti seguro e, de alguma forma, protegido há tempos. Saímos para passear com o Blue, arrumamos a casa, desci com o lixo dele, mas eu precisava ir em casa: trocar de roupa, pegar meus remédios diários e outras coisas. Ele me fez prometer voltar, e, como de costume, obedeci.

Indo para casa, fui desligando meu emocional. Afinal, era o Jarro, e ele podia, a qualquer momento, dizer que éramos só amigos. Senti que ele estava precisando de cuidado, talvez se sentindo sozinho. Vi nele uma vulnerabilidade que nunca havia sentido antes e quis cuidar dele também. Arrumei tudo e voltei.

Quando cheguei, ele estava bravo, tomando banho. Perguntei: "O que você está fazendo? Você bebeu mais?". Ele respondeu: "Você sumiu por duas horas...", muito nervoso. Às vezes, eu penso que ele me ama e não consegue admitir. Foi isso que pensei nessa hora. Dei banho nele e fomos para a cama.

Dormimos e, no meio da noite, ele me acordou. Ali, fiz tudo que não fiz em 2016, até o fim. Só não foi mais perfeito porque eu não consigo me entregar se não tenho certeza de que estou sendo amado. Mas foi mágico e parecia o início de um caminho.

V. Dos ciclos sem fins.

O dia amanheceu, e acordei sozinho. Escrevi para ele perguntando onde estava. Ele mal respondeu; tinha saído com o Blue. Quando chegou, levantei para dar um beijo e um abraço, mas ele meio que se esquivou. Fez café da manhã com o seu mau humor habitual. Nunca sei se ele está manifestando carinho ou me mandando embora, enquanto eu esperava ouvia suas musicas do Spotfy, musicas que eu amava, e nem me lembrava, pensei em como ele consegue me lembrar o pior e o melhor de mim.

Fiquei brincando com o Blue enquanto juntava minhas coisas. Ele me chamou para deitar na cama e mandou o Blue sair. Nesse momento, onde eu estava, o Blue estava em cima de mim – e eu já completamente apaixonado. E Quando o Blue saiu, ele veio. Eu disse: "Não". Ele nem tinha me beijado ou demonstrado qualquer carinho.

Então o Jarro começou a desenterrar todo o passado (como ele sempre fez), que eu nunca havia me entregado completamente a ele (como poderia me entregar a algo que nunca me quis por completo? que sempre disse que amava a outro e não a mim.) e um passado pós-2016 que nunca foi escrito aqui (nem será), do qual não me orgulho e que ainda me machuca. Afinal, quando caímos em um poço, às vezes a escuridão é tanta que não percebemos o que fazemos. Tentamos sair, nos machucamos, e foi isso que aconteceu comigo. Enquanto ele falava, eu queria chorar, queria responder, mas pensei: "Esse não é um texto que quero repetir. Quero deixar essas falas para trás. Não quero interpretar esse personagem de novo".

VI. Sem remakes, apenas novos capítulos

Arrumei minhas coisas, como já tinha feito tantas vezes antes, e pedi que ele me levasse até a porta. Ele perguntou: "Você vai fazer isso de novo? Vai terminar como sempre?". Perguntei: "Como você quer que termine?". Ele respondeu: "Nem todo mundo que te beija te ama. Eu amo o Blue, mas às vezes trato ele mal, e nem por isso quero que ele vá embora".

Eu ri. Ri porque ele me comparou ao cachorro, mas preferi acreditar que era a forma dele de dizer que me amava e queria que eu ficasse. Deitei na cama de novo. Não só por ele, mas porque não queria repetir uma cena que já vivi antes nesse epílogo.

Vimos um filme. Ele, com aquele jeito estranho de manifestar algum sentimento. Eu, ainda preso à ideia de que, mesmo ele sem saber, ainda me queria ali. Depois, ele foi fazer o almoço.  Almoçamos. Lavei as louças. Meu Deus, parecia que ele nunca tinha limpado uma panela na vida! Quando terminei, ele disse: "Vou ao parque com o Blue. Você vai dormir de novo? Pode tirar o lixo?".

Pensei: "Será que ele acha que vou ficar assim? Ele me tratando desse jeito?". Respondi: "Não. Preciso ir embora, lavar roupa, arrumar minha casa". Levantei, peguei minhas coisas, peguei o lixo e chamei meu Uber.

Saímos juntos do apartamento. Quando ele chamou o elevador, me deu um beijo e disse: não conseguimos jogar video game, nem ir na piscina. Olhei para ele e disse: "Eu nunca vou conseguir te entender". Ele sorriu.

Quando saí, o carro já estava me esperando. O Jarro pegou o lixo da minha mão e disse: "Deixa que eu jogo fora". Entrei no carro e fui para casa pensando, será que existe amor aqui? Será que devo voltar com o video game? Que jogo jogamos durante esses dois dias? Será que sou só uma memória quando ele beber e quiser colocar o lixo para fora?. Cheguei em casa e chorei. Não por ele. Chorei tudo que quis chorar quando ele desenterrou minha “Idade das Trevas”.

Me arrependi novamente de tudo que fiz e pensei: "Será que alguém vai perdoar esse passado um dia? Será que eu vou perdoar? Quantas vezes vou ter que reviver essa história ainda?".

A dúvida na minha cabeça era: Como explicarei alguma vez esse passado?. Preciso explicar algo que me machuca? Podia dizer como estava destruído por dentro de tantas formas. Podia responder, quando ele reclamou do meu cheiro de fumaça, que foi o que sobrou do tanto que ele e outros fizeram do meu coração – cinzas.

Ainda não sei como terminará essa temporada, ou esse revival, mas sei o que eu não quero mais. Não quero viver ou reviver o passado. Não vou fazer um remake. Não tenho mais o corpo de 2016. Não tenho mais o cheiro de 2016. Não tenho a beleza de 2016. Mas também não tenho a sombra de 2019. Não tenho mais o comportamento da minha "Idade Média". Ainda que eu não tenha as respostas para o futuro ou completamente o comportamento que espero ter, sei que estou caminhando para ele.

VII. Das novas luas cheias

Termino de escrever este texto. Olho para o céu de São Paulo. Está limpo, azul, e não cinza. A Lua está cheia. Exatamente a Lua dos amantes. A única certeza que tenho é que nunca a vi assim. A Lua de 2024 é muito mais linda que a de 2016. Talvez porque posso vê-la hoje. Ou porque coloquei meus óculos. Talvez esteja mais no olhar do que no momento. Eu só espero que alguem me veja assim também.


E Você já se sentiu como um remake ou revival da sua própria vida? Me conta nos comentários.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Re-Amar, literalmente.

A fumaça enche a sacada de um protagonista que odeia cigarro, depois de muito tempo sem escrever, estou aqui de volta, talvez porque faz muito tempo que não amo.


De volta à cidade depois de 3 anos de reclusão, o céu ainda é cinza, o ar ainda cheira a dinheiro e o vento ainda é frio. Depois de meses de adaptações turbulentas e relações tão falsas quanto os lagos do parque Ibirapuera, parece que alguma coisa real chegou à cidade. Vamos chamá-lo de Dr. Who.


Dr. Who é um cara lindo e doce, que conheço incrivelmente há 3 anos, desde que saí da cidade. Quando começamos a conversar, parecia que alguma coisa apaixonante e linda nascendo. Aprendi a cantar a música "Your Man" só para impressioná-lo, principalmente por causa da letra: uma, porque ele é o homem dos sonhos, outra, porque a musica diz o quanto me moveria só para ser dele. Como sempre, fui a um karaokê, gravei a música e mandei, sem dizer nada! (Na minha cabeça musicas, sinais, letras e entrelinhas falam por si só). Como resposta, ele me mandou minha música preferida do Elvis, cantando no chuveiro, e quase sem querer me disse que ele "Can't help falling in love with me”.


Não que eu precisasse de algo além do sorriso dele para me apaixonar, mas conversávamos sobre tudo, o tempo todo, sobre sonhos, a vida e o passado. Eu tinha acabado de perder Alguém muito especial para o câncer, e ele era uma companhia digital maravilhosa, onde conversávamos o dia todo, quase que uma relação por EAD.


Ver ali um cara tão perfeito, e saber que eu estava ainda tão quebrado e precisando de um tempo, sem um emprego e sem rumo, sem condições de ser o homem que eu acreditava que ele precisava, e que eu precisava ser para mim, me fez manter aquilo só pela conversa no Instagram (afinal eu nunca fui bom nem em cursos a distância, quem dirá em relações). 


Eu disse a ele que acreditava em amor e no destino, e que, se ele fosse meu amor, o destino nos colocaria na mesma cidade. Naquele momento, Dr. Who terminava medicina Fora do País e atendia em um hospital na Bahia. Eu me recuperava embaixo das cobertas em posição fetal na casa da minha mãe, no Espírito Santo. E como algo sobrenatural, o Espírito Santo me salvou.


Voltei a São Paulo com uma proposta inusitada de trabalho. Dr. Who, nesse momento, mudava para o Canadá, onde iria tentar um novo amor. Eu o apoiei, e desenvolvemos uma amizade (por que não?).


Em troca de conversas e apoios, Dr. Who terminou o relacionamento. Em uma escala em São Paulo, sem conseguir voo para a Bahia, aonde precisava retornar, lembrou-se de mim e me ligou pedindo ajuda para um hotel. Eu o convidei para que ocupasse meu sofá até que pudesse ir (por que sim?).


Destino ou não, acordei em uma sexta-feira fria, quase como uma Carrie Bradshaw tupiniquim, sem uma coleção de Manolos e com um medo: será que esse contato não me traria algum tipo de retorno de sentimentos? Como me comportaria se esse amor voltasse e eu tivesse que consolar ele, e assistir ele usando outros corpos para superar o ex?


Fiz café da manhã para minha visita que logo chegaria. Ele chegou e eu saí, afinal, esse era o combinado: ele estudaria e eu trabalharia até tarde. À noite, chego em casa e ele está aqui, cheio de chocolates e com uma cara bem melhor. Fomos para onde? Um karaokê. Lá coloquei a música que ensaiei dias para cantar para ele há três anos, mas sem dizer que era para ele.


Este lugar especial para mim é um Karaoke na liberdade, onde o público tem mais de 60 e muito mais calor que o resto de São Paulo, começa a tocar um bolero e todos dançam em casais, pego a mão do Dr. Who e o coloco no meio da pista, todos aplaudem minha coragem, e então dançamos, bebemos, rimos, cantamos. 


Dr. Who canta com uma mistura de Calum Scott, com o fogo do Elvis e um rosto de anjo. Uma senhorinha dava em cima de mim e encostava nas minhas pernas (eu tenho pânico de contato fisico com estranhos). Brincando, pedi para ela sair porque estava atrapalhando o romance, pisando para ele em um sinal de cumplicidade para me salvar da situação, ele me puxou para perto e ela entendeu. Rimos muito, porque não havia romance ali. Um garoto que conheci mandava mensagens como se tivesse trocado ele pelo meu novo(velho) amigo. Dr. Who pegou meu telefone e respondeu por audio que era meu amigo e que ele deveria me respeitar. Eu apaguei a mensagem e disse que não tinha compromisso nem devia explicações a ninguém.


Nessa hora, Dr. Who me segurou pelo rosto e me beijou, e como um clipe da Katy Perry, meu peito explodiu em fireworks que estavam guardados há três anos em uma gaveta bem escondida dentro de mim.


Não soltamos mais nossas mãos nem nossos lábios. Os olhos brilhavam como se tivéssemos de fato acontecido. Perguntei a ele quando a chave virou. Ele disse que quando me viu de terno, ele lembrou de quando se apaixonou. Eu disse que senti quando ele entrou pela porta.


Estranhamente, Dr. Who está de mudança para São Paulo e vai morar a duas ruas de mim. Será que o destino estava nos juntando? Será que depois de tudo que passamos, tínhamos encontrado um porto um no outro?


Fomos a outro karaokê. Dr. Who não queria entrar, queria vir para casa. Para onde fomos. Falei que dormiria no sofá, mas ele me segurou pelo braço e me jogou na cama. Essas marcas duraram uma semana, o tempo que ele levou para partir. A noite foi um sonho, e por aquelas oito horas, estivemos nas nuvens. Perguntei se ele tinha certeza e se não era muito rápido. Ele disse que tinha, mas poderia esperar, mas que poderíamos dormir ali, juntos, nus, prontos, no céu.


Mas a manhã seguinte trouxe Dr. Who para o chão. Ele mudou? Algo de errado aconteceu? Eu já não conseguia saber. Perguntei e ele disse estar meio apático, talvez pelo término, que precisava de tempo, mas que a noite foi ótima, me abraçando e me dando um tímido beijo na boca.


Fomos ao supermercado e ao parque. Ali, senti que ele estava estranho, distante, não tocava mais em mim. Falou horas no telefone em inglês com alguém do Canadá sobre o ex-namorado (o que seria de uma história de amor sem drama?). Saí de perto para dar privacidade. Ensinei a ele andar de skate, porque quando estou em cima do skate me sinto voando e queria tirar ele de novo do chão.


Durante essa semana, apesar de mais frio, continuamos dormindo juntos na cama. Ele sempre carinhoso, toques, cheiros. Cozinhei para ele e a comida ficou uma merda. Perdi a mão em todos os temperos.


Sou uma pessoa que sente muitas coisas, sinto tudo demais e acabo que nunca sei realmente o que estou sentindo. Será que eu estava mesmo apaixonado? Será que ele era só um amigo muito querido? Não sei. Minha psicóloga explicou uma vez que toda vez que uma boa cozinheira erra no tempero, se faltar tempero, está desiludida. Se sobrar, está apaixonada.


O fato é que o via triste e a única coisa que eu queria era que ele ficasse bem, como sempre quis desde que o conheci. A voz dele, como de todo médico, é calma, doce e ao mesmo tempo protetora. Na hora que eu ia trabalhar, meu querer mudava. Ali eu só queria voltar logo para casa.


Depois de um dia pesado de trabalho, voltei para casa morto. Mas ao chegar, fomos jantar no meu rodízio de japonês favorito. Eu esqueci a chave na porta, porque não sou muito ligado nessa terra, ou porque ainda estava nas nuvens. Ele me disse sorrindo: acho que o resto da vida eu vou ter que cuidar da chave. Eu sorri, e esse jantar salvou meu dia. Perguntei se ele ainda estava mal. Ele disse que não era comigo, estava com muita dor na coluna (eu também estava, porque a sexta deixou marcas, mas quem diria que o amor seria tão doloroso? Literalmente!). E à noite, como sempre, na mesma cama entre trocas tímidas de carinhos.


Chegou o dia dos namorados e comprei flores para ele. Foi difícil! Não queria comprar algo demais para ele não me achar um emocionado, nem nada para que ele não achasse que não me importo. Comprei lírios amarelos e flor mosquito, em um laço amarelo. Dentro, iria comprar algo romântico, mas preferi comprar algo atencioso. Comprei o chocolate que ele mais gosta e uma caixa de remédio para a coluna, que acabou melhorando. (Risos)


Por coincidência, três melhores amigos de Dr. Who estavam na cidade, aos quais me apresentou. Um deles nos conhecíamos há três anos, através de uma das minhas ligações por vídeo de Dr. Who da Bahia. Prometemos um porre juntos, como aconteceu. Noites mágicas, amigos mágicos, tudo perfeito, só que agora sem romance. Não conseguia questionar muito, tinha medo de pressionar ele. Trazer isso agora não seria bom, então me calei e respeitei seu espaço. Queria dormir no sofá, ou pelo menos em lados opostos da cama. Ele nunca deixou. Entre cuecas, nus e camisados, nossas roupas se misturaram pelo apartamento, como nossa nudez e meus sentimentos.


Conversávamos dias por horas, exatamente como se inicia um namoro. Para mim, amor não é uma tempestade emocional, é sim um acordo de cavalheiros. Se faz no sofá, não na cama, com pipoca, sinceridade e compromisso emocional. E assim fizemos amor a semana inteira, talvez a vez mais racional que fiz isso ao longo dos meus 38 anos.


Nessa altura eu não sabia mais o que ser, sou um amigo? Não sou?  Contei para ele sobre construções de relações, e como a minha última (com o Pastor belga do texto anterior) foi feita de combinações, a que eu mais me lembro era a perna que combinamos que ele colocaria sempre entre minhas pernas para dormir, de forma a ter contato a noite, algo importante pra ele, e não me causar fobia, algo importante pra mim. 


Fomos assistir filmes a noite, depois de hora de um trânsito entre amizade e cortejo, brincadeiras, as vezes parecia que existia um cadáver no ar por que eu já não sabia como me comportar, pensei, bem de fato ele não está bem e acredito que está se poupando, deitados na cama, ele coloca a perna no meio das minhas (será uma resposta?). 


Chegou o dia de ir embora, e a única coisa que fazia sentido nesse turbilhão de emoções era que nunca fomos somente amigos. Talvez o garoto que eu tinha ficado antes do Doc estava certo nos ciúmes o tempo todo, ou talvez não.


Antes dele ir para o aeroporto, olhei para ele e disse: não vai deixar as flores que você mal agradeceu para trás, isso vai me machucar. Ele disse que levaria. Ri ali com a certeza de que algo tinha acontecido, mas sem saber o que. Perguntei o que me entalava a garganta toda a semana: o que está acontecendo entre nós?


Ele disse: sou muito grato por essa semana, você melhorou minha vida e foi um colo, mas eu ainda tenho sentimentos pelo meu ex. Ali decidi cortar relação com ele. Não faz sentido manter na minha vida relações indefinidas ou amores inacabados. Falei: seu Uber está chegando? Ele disse que sim. Eu disse: ótimo, desço com você. Troquei a roupa, desci, coloquei ele no carro e já entrei no carro atrás para ir para uma festa (que só me ajudou a não chorar em casa e me fez chorar na frente de estranhos), acho que não estava preparado para me envolver ainda, para amar ainda, pelo menos não ele.


Cheguei em casa e as flores que eu dei, estavam em cima da mesa, joguei no lixo! Elas não me enfeitavam em nada, decidi bloqueá-lo, cortar todas as relações. Passei a noite pensando em como conquistá-lo, reconquistá-lo, como costumava ser há três anos. Mas depois de muito pensar, que sentido faz conquistar alguém quando merecemos amor só por ser quem somos? Nenhum, não preciso mudar, disfarçar sentimentos ou intenções, quero alguém que me ame assim sem querer, como quem descobre que ama sorvete de pistache na primeira vez que experimenta, quero essa sensação. 


E assim Eu acabei não curando meu coração com este médico, mas voltei a amar, a amar a mim mesmo, talvez pela primeira vez eu tenha sido minha melhor escolha, e quando eu for amar alguém, ele vai ter que me amar o tanto que eu me amo. E eu me amo, então decidi apagar esse cigarro, não só para tirar essa fumaça da sacada, que tá embaçando minha visão, mas para parar de fumar, e voltar a publicar no blog com este texto, que pode ser uma total ficção que só existiu na minha cabeça. Ou não. Literalmente.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Eu ate quería voltar a ser.

Não é que eu não te ame, É que você me partiu em tantos pedaços, Que já nao sou aquilo que eu era, E não posso correr o risco, De entre espaços e abraços, Me perder daquilo que sobrou de mim, Olha-me como se me visse, Como se teu olhar fosse capaz de colar todos meus cacos, Cola-me, como se pudesse ver novamente aquele que existia entre seus braços. Esqueça-me, como se por descuido ou falta de atenção se apaga da memória. Como quem esqueceu um compromisso Como me perdeu em mim. Como eu me quebrei quando partiu(-me).

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Meu Primeiro Casamento

Acho que só hoje entendi a magia de uma cerimônia de casamento. Pela primeira vez, vi dois homens se casarem, e de fato, nunca entendi a emoção das pessoas durante um casamento, exceto no caso dos meus irmãos, pois significava que sairiam de casa. Pela primeira vez, participei de uma relação em que não me senti constrangido por não entender aquela relação ou por nunca ter feito parte daquilo, por não me encaixar no padrão heteronormativo, por não me ver naquele lugar, ou por fingir ser algo que eu não era. Isso me permitiu apenas sentir a celebração, sem escudos, sem capas, sem máscaras.

A forma como a sociedade nos obriga a esconder e a suprimir nossos sentimentos nos impede de vivenciar tantas coisas que a vida proporciona. Não nos ensinam a sentir nada. E eu? Eu nunca tinha sentido a magia de um casamento! E a sociedade não tem o direito de nos tirar isso. Hoje, eu entendi essa magia, essa sensação. Ninguém precisa dizer nada; existe uma egrégora nas tradições. O amor do casal transborda e circula entre as cadeiras, existe uma dança, um movimento. Era palpável, dava para ver em brilhos, cores e arrepios. É simplesmente emocionante, sagrado, como uma pílula do eterno, um ensinamento sobre o amor.

Hoje, minha concepção do amor mudou. Que pena que não assisti a um casamento livre antes. Aquele garoto que fui teria crescido com outras certezas, outros sonhos, e talvez teria conseguido viver em primeira pessoa, sentindo mais, vivendo mais e chorando menos. Acabo de entender que talvez eu nunca tenha amado, talvez nunca estivesse pronto para amar. O amor é tão simples, tão palpável, tão sentido, que consigo senti-lo, mesmo sem fazer parte disso, tendo conhecido o casal apenas ontem. De repente, toda a magia transborda em todos. Nos votos, eles se enlaçam, e todo sentimento vira água e escorre pelos olhos. Entendo por que toda a ciência trata emoção e sentimento como água, porque o que produzimos no meio do amor... O casamento é um pacto, um pacto de almas.

Os padrinhos tiram algo dos bolsos, acendem, e uma fumaça colorida envolve os noivos. Todo movimento, que aparentemente só eu podia ver, agora é visível por todos, seja pela fumaça, seja pela aliança. Eu choro enquanto toca "If I Ain't Got You". Obrigado, meninos.

   Obrigado meninos. o instagram dos noivos: @joaopmartins @leandromedice

Nota: Leandro Medice faleceu em maio de 2024, esse texto é em sua memória, Lê, de onde estiver, obrigado por dividir seu amor com todos nós, você não passou em branco na vida.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Como superar sendo superado.





- (brigas)
- (desculpas)
- (brigas)
- (desculpas)
- (brigas)
- (desculpas)
- ME SUPERE!
- Superei.

Como superar o término de um relacionamento?  Sendo superado. O primeiro passo é entender que o outro não quer, não complique, não romantize, não crie historias, é o fim pelo fim, só isso.
Costumo dizer que temos que parar de transformar as coisas, dar a elas novas histórias, olhe para uma parede, ela é uma parede, pronto, não abra uma porta, não quebre uma janela, não tem nada de errado em uma parede ser parede e um obstáculo,  contorne-a e siga sua vida. Por ali você não vai passar, quebrar uma parede pode destruir colunas importantíssimas, não as quebre, nunca conhecemos a estrutura das coisas e pessoas até tudo estar rachado pelo chão e você machucado de alguma forma, respeite a porra da parede.

O que mais ouvi nessa nova fase foi:
1 - Nossa você superou muito rápido!
2 - Nossa você parece não sofrer!
3 - Não está muito cedo para você conhecer alguém?

1)      Vamos lá, o que seria superar?  Superar é seguir em frente? Se sim, superei no mesmo dia. Por que a vida da gente tem que parar quando alguém não quer ficar nela? A vida segue, e tudo bem, não existem culpados, nada deve ser complicado, se não funcionou com alguém, parte para o próximo.
Eu tento algo enquanto sinto que possa funcionar, quando fica claro que ali é uma terra seca, que nada vai brotar, não adianta desperdiçar minhas sementes, recolho e mudo para outra terra,  Pra que temos que esperar um tempo pra isso? Quem tem  tempo é relógio, a vida está passando e o amor da sua vida pode estar agora descendo no metrô, sentado no bar da esquina da sua casa, entrando na sua academia ou comprando um livro na livraria que você frequenta. E você está ai pensando em quem não te quer... Eu nunca.

2)      Eu sou daqueles românticos que ou estão apaixonados ou sofrendo por amor, e eu amo isto, não sentir me mata, sofrer para mim é estar vazio, frio e sem sentimentos e isso acontece em relações que já estão falidas e só a gente não percebe, quando eu percebo, mudo de pronto.

Obvio que existe a dor do termino, mas quando eu digo adeus é por que já não tenho nenhum sinal de amor e meu luto não é por ninguém, é pela tristeza do fim, puro e simplesmente, é triste a morte de um amor.

3)      Durante o final eu já me sentia tão triste e incapaz de sentir tudo aquilo que eu sentia, parecia que algo em mim estava quebrado, eu já não funcionava mais, e foi um beijo só, pro meu coração bater na garganta, minha perna arrepiar e mudar toda uma história a enchendo de expectativas, as pessoas demonizam as expectativas, mas o que é a vida sem expectativa? Depressão, a gente vive movido por expectativas e quando elas não existem não temos motivos para continuar. Deu certo? Não, mas me senti de volta, vivo.

É como se eu tivesse um caco de vidro enfiado no pé  e eu não conseguia pisar no chão, quando eu arranquei, doeu muito, sangrou bastante, coloquei um curativo e quando eu pisei no chão, pude andar, foi exatamente isso, só que o caco estava no coração.


Como eu me sinto



Você mentiu,
Eu chorei,
Eu gritei,
Eu so não te odiei,
Eu não sei nem o quanto mentiu,
Eu não sei o quanto vai durar essa dor,
E só me resta escrever.
Voce  mentiu por não saber,
Não saber o que tem valor,
Nem saber o que de fato é amor,
O amor que você deu para ele sem ter,
O ruim não foi você,
O prejudicado foi você,
Mais triste do que ser envenenado ,
É beber voluntariamente veneno,
que pensou ser mel,
Você me disse que deveria me vingar, você me vingou por você,
Você me enganou e
Sua cegueira enganou você.
Seu não saber o que é o amor,
Não deixou você ver que o amor,
Sempre esteve aqui,
E essa visão turva que você enxerga através da tela do celular,
Fez você não ver o quanto se envenenou,
Eu lutei para te curar,
Eu lutei por te mostrar,
Eu dei tudo que eu pude,
Aprende amor,
Aprende,
Aprende que não é ser ruim trair quem nos ama,
É ser suicida, por que quando se apunhala o coração que a gente mora,
Você se mata.
Pronto,
Você foi conto,
Agora é poesia.


Nota: Nunca tente salvar um lobo medroso, ele sempre vai te morder, e sem alguem pra te proteger, doi mais.

Bizarre Love


Quando eu descobri a minha tendência por me apaixonar por animais medrosos.

Todo animal quando sofre algum tipo de agressão guarda dentro de si essa agressividade  recebida e a retorna de alguma forma para as pessoas em sua volta, isto serve para cães, gatos, periquitos e homens, no fundo, somos todos regidos por instintos. 

A violência usada contra cachorros, por exemplo, pode formar um cão sem confiança nas pessoas, sem confiança e auto estima, medroso e por consequência, violento, e assim identifiquei mais um padrão, será que somos portadores da síndrome da "domesticação"?

Quando era criança, um vizinho criava um Pastor-Belga preto,o Urso, era um dos cachorros mais lindos que eu já vi, preocupado com a segurança, o meu vizinho espancava o Urso sempre que ia dar comida para ele, para ele não confiar em ninguém e ser agressivo, ele morava em uma casa escura, sem janela nem porta, e ficava trancado ali, e durante o dia só dava para ver a sombra do cachorro, entre os espaços da madeira da casa escura, e a noite, se conseguia ver ele completo, grande, agressivo e lindo.

Começo a pensar se isso também não acontece com as pessoas, quando alguém é maltratado, enganado, traído, será que essa pessoa cria uma casca de medo que o faz inseguro em relação às relações, e ai se entregam as mais diferentes defesas? Será que ter sido jogado fora do padrão faz o outro abrir mão de todos os princípios básicos de convivência? Eu me identificava com o Urso, desde pequeno, eu fui uma criança que apanhou bastante, e que se encheu de alguma forma com essa agressividade também, seria o urso uma criança como eu? Seria uma pessoa com medo de relacionar só um produto de má experiências? Para mim o Urso só era um cachorro sem amor e com meu amor, ele se tornaria amável.

Quando eu olhava para o Urso, eu via um filhote mal tratado, não um cachorro bravo e agressivo que poderia fazer mal a alguém, como eu sempre olho para algumas pessoas,  foi assim com o Jarro, foi assim com outros relacionamentos, percebi que sempre tentei consertar as pessoas, dar colo, eu sempre vejo algo muito bom dentro de cascas duras.

Assim eu me apaixonei pelo Urso, e um dia, o dono dele decidiu sacrifica-lo, porque era impossível até para os donos sairem no quintal quando ele estava solto, por pena, pedi meu Pai para adotar o urso, e meu Pai(talvez mais louco que eu), adotou o cachorro como se fosse um filhote.

Eu passei a passear com ele todos os dias,  consegui me aproximar dele, consegui tocar nele, fazer carinho, abraçar, ele era tão lindo e eu amava ele bastante, passeava com ele todos os dias, monitorado de longe pelo meu Pai.

Um dia, passando na frente da casa do meu vizinho o Urso tentou voltar para a antiga casa, ele mudou e andou firme em direção a casa, eu não queria perder ele, e tive esse medo então briguei com ele e puxei forte para ele voltar, ele voltou com toda agressividade que ele tinha, mordeu meu braço e só soltou depois que meu pai conseguiu bater nele com um pedaço de madeira, ali com meu braço ensanguentado, no chão eu olhava para ele, pensava se ele realmente queria fazer aquilo comigo ou se era só uma repetição de comportamento, eu nunca mais consegui chegar perto dele, nem de outro pastor belga.

Sexta feira, na cama, eu estava deitado ao lado de um outro animal, esse racional, lindo, forte, aparentemente agressivo, mas doce, eu realmente acreditava que ele não era aquilo que aparentava, depois de horas de conversa e namoro (quanto tempo não estava com ninguém que era tão interessante e ao mesmo tempo envolvente), ele pergunta, já viu meu cachorro? Abrindo o celular e mostrando a foto do seu Pastor Belga, aquilo gelou minha alma, será que eu estou repetindo o padrão do Urso? Será esse meu padrão? Ter amores bizarros acreditando que uma pessoa só precise de amor, cuidado e carinho?

Eu não sei as respostas, eu me sinto bem ao lado do novo Belga, me sinto estranhamente  protegido e ao mesmo tempo protegendo, o medo que ele tem fala tão alto que escuto ele se convencer que vai ficar sozinho, que é normal que as pessoas não queiram ficar com ele, que ele assusta e que nem todo mundo está disposto a isto, eu não digo nada, eu não sei de nada, por enquanto ofereço meu abraço, e torço para que ele não morda meu braço quando eu passar na frente da sua antiga casa, afinal, meu pai não esta mais aqui para me defender.

Sobre meninos e Lobos




Em todas as relações, existem dois polos, ying e yang,  passivo e ativo, feminino e masculino,  Gretchen e Rita Cadillac, Britney e Cristina, Jason e Freddy, a chapeuzinho e o lobo mau, e acaba que quase tudo corre para polaridade sexual, querendo ou não, sempre haverá que se definir em algum momento (ainda que por alguns instantes).

É este encaixe que forma as relações, no ultimo texto ficou cravado um J, o Jarro "até bonito, de louça, com flores em alto relevo, e inteligente, muito inteligente", na vez em que fui Dorotéia (RODRIGUES, Nelson. Dorotéia: Uma Farsa Irresponsável. Montagem: 2016.), na vez em que eu me encaixei, talvez a primeira vez que fui apresentado ao meu outro polo, digo Jarro por motivos óbvios para quem conhece o texto de Nelson Rodrigues, e nem tão óbvios para os que não, e foi isso que o texto gritou, a outra face do sexo.

Chapeuzinho Vermelho sob este ponto de vista é quase que um conto sexual, e um ensinamento sobre conquista, atração, e sexo (por que não?) e merece muita atenção.

Entre a recolhida dos cacos que o Jarro me deixou, conheci um Lobo, que me apresentou Dorotéia, e o mal dos Lobos é que nunca se consideram presas, é a prepotência do predador, mas nem sempre os papeis são tão exatos, comigo aconteceu assim:


"Eu  com meu casaco vermelho,
Um capuz que cobre por completo meu rosto tímido,
Minha cesta de doces,
Minhas boas intenções,
Ele alto,
Peludo,
Com grandes bigodes,
Esguio,
Com uma beleza estranha,
Selvagem,
O primeiro encontro se deu na selva,
Caça e Caçador,
O Lobo e Chapeuzinho,
Os olhos se conectavam,
As Mãos, tocavam,
As cabeças pensavam…
Jogo! Conquista…
Por que seu sexo fala tão alto?
Enquanto o meu, pisa de leve,
Para não chamar atenção entre as folhas (ou no asfalto),
Por que seu ouvido ouve tão alto?
Enquanto minha voz, tenta passar como sussurro,
Quem seria presa?
Qual de nós tem mais medo?
Nessas duas semanas em que passeio por este bosque,
Sinto-me observado, cheirado, escutado…
Mas seus instintos, tão primitivos, tão animais, falam alto demais,
Ensurdecem seus sentidos,
Repelem minha atração, meu desejo sutil,
Mas aguçam a curiosidade,
a atenção,
Será que é possível abaixar o tom de um Lobo?
Será que é possível convencê-lo de não ser?
Sem regras, sem obrigações.
Chegamos em casa, abro a porta,
Vejo que ele por vezes se disfarça de inocente,
Para me fazer de presa…
Prepotência,
Nunca percebeu que embaixo do capuz vermelho não era uma menina frágil,
Quem é você? pergunta o lobo.
Pobre lobo, chapeuzinho, sempre foi o caçador."

Foi assim que aconteceu, certo que ainda existem cacos de Jarro para recolher, desde que minha alma partiu-se, faz tempo que não sou o mesmo, ainda não sei quem vou ser, mas eu não sou mais aquele inocente.

Notas sobre como não se apaixonar




Notas sobre como não se apaixonar...

- Quando te conheci, e veio me ver de madrugada por que eu não conseguia dormir, e me levou no jardim secreto do parque para me fazer sorrir:

"Não subestimem o amor, ele as vezes aparece do nada, sem aviso, sem vontade, de madrugada ou de manhã, em um abraço, ou em um jardim... Mas não se enganem com o amor, ele é como a magia e sempre vem com um preço..."

Quando te li:

"Eu uma pergunta pra ele uma questão;
Eu um conto, ele uma conta,
Ele exato, eu humano,
Ele linha, eu curvo,
Entre diretas, nenhuma certeza...
Ele traço, eu aquarela,
Ele novo, eu novela....
Eu argumentos, ele decisão.
Eu relativo ele confusão. "

Quando fugi:

"Eu venho ficar comigo, e penso em você, me desligo, mas você me ligou, escrevo, mas até o caderno tem um J, o papel que era para ser só meu, também é seu. Obrigado por me devolver eu, alguém me levou de mim em alguma hora... e você me ajudou a achar o caminho de volta também."

Quando mentiu:

"Sabe daquelas histórias que você se recusa a acreditar que dará certo?
Por trauma ou intuição,
Você só vê nãos... Mas entre mãos, braços, pernas e abraços... 

Surge a possibilidade do engano,
Surge uma flor no meio do concreto,
Será eu uma exceção?
Será que onde não aparentava haver compromisso existe o amor?
Será que por dentro de uma casca grossa existe o conforto de um amor protegido...
Engano.
Quem desdenha, desdenha.
Quem não te respeita, não se protege, te agride.
Quem você sente que pode te machucar,
Provavelmente vai.
Tente, viva, se permita, mas feche o mais rápido possível os ciclos que nunca irão girar, eles não vão."

Quando te escrevi:

"Eu tenho uma forma minha de guardar o que eu sinto,
Eu escrevo,
Escrevi tantas coisas sobre você que você não vai ler nunca, talvez, nem vá ler isso... Eu tentei esquecer, deus como tento(ei)!
mas eu sempre pensei nas nossas contradições,
Em como seria o seu jeito bruto de ser cuidadoso,
E no meu jeito histérico de cuidar...
Como seriam as manhãs, as rotinas, seu mal humor crônico, mesmo nas melhores piadas,
Seu jeito de me fazer rir te chamando de idiota...
Meu jeito de te ensinar a amar sendo tonto...
O quanto te irritava eu ser certinho, e o quanto me atraía você ser o cara mau... mesmo bom.
Nos temos ou tínhamos um jogo,
Você de fato era o caçador.. e eu a presa.
E a gente adorava isso...
Eu adorava todas nossas contradições...
Como percebia que vc não gostava dos meus amigos...
Como percebi que isso não importava por que eu gostava de você.
Como tudo acabava quando eu me encaixava em você, todas contradições, todas diferenças... e só sobrava nos dois.
Um ar o outro fogo,
Um escrita o outro lógica,
Um sentimento o outro razão...
E eu só não sei o que fazer com isso...
então te transformo em texto."

Quando desisti:

Na próxima, usar:
- filtro solar no parque;
- repelente no jardim;
- almofadas na bunda;
- óculos no coração;
- não nos nãos;
- pontos finais em textos.

PS.: nunca desista das aspas.