sábado, 24 de maio de 2025

“A Panela, a caneca e o corpo” (ou: nem tudo precisa estar quente pra marcar a gente)


Essa semana, vindo pra casa com as marmitas e a arrumação de casa na cabeça, fui parado na rua por um conhecido. Não era qualquer conhecido — era meu maior dueto de Elvis no karaokê do Jacksons, alguém que já viu minha voz tentando ser charme e falha técnica ao mesmo tempo e ao invés de rir, cantou também.


Ele me disse:

— Cara, eu li seus textos. São incríveis.

E me olhou como quem acabou de abrir a minha cabeça com uma colher de sobremesa ( o que tinha acabado de fazer.)


Eu travei. Pensei:

Meu Deus, agora ele sabe. Sabe como eu penso, como eu quebro, como eu tenho apelidos imaginários para pessoas que não gravo ou não quero dizer os nomes, como eu frito cebola quando tô carente e como eu sou um pouco poesia, drama, sarcasmo e melancolia tudo com farofa e pimenta em cima.

Eu agradeci, dei um abraço, e fui embora com a sensação de que alguém tinha me visto nu — mas não nu sensual, nu de alma, de dentro da pia bagunçada da minha psique.


Em casa e comecei a cozinhar e após uma mensagem do Dublê de Elvis, fiquei olhando como vejo sentido em tudo e como meus diálogos mentais são esquisitos e ricos.


Eu estava ali, misturando com temperos minhas reflexões sobre relações, sexo e cozinha. 


Digerindo o mundo, o passado, o presente e tudo que eu sinto enquanto misturo muita carne dentro de uma grande panela de pressão,  com minha reflexão diária dos últimos tempos: estou cozinhando só pra mim.

Cortei o que quis, exagerei na pimenta sem me preocupar com quem tem gastrite, usei cebola até dar vontade de chorar (e não foi pela cebola).

Fiz meus próprios caldos — literal e metaforicamente.

E fui feliz.


Não tirei nada do prato. Nem da essência.


Pela primeira vez, a comida era pra mim, por mim, do meu jeito.

E olha que, por anos, eu cozinhei pra batalhões.

Já fiz almoço pra namorado, ex, namorado de ex, ex de namorado, mãe do namorado, amigo da mãe do namorado…

Mas sempre, sempre tive quem lavasse a louça depois.


Essa semana, a pia era minha.

E foi ali, com o dedo dentro da esponja e a alma fora do eixo, que eu percebi:

o preço da autonomia emocional e física é encarar a louça.

Literalmente.


E olha, tinha muita louça. Tinha o prato fundo que eu nunca uso, o talher da fase minimalista e — claro — a caneca mágica que o João- Jarro me deu de aniversário antes de me jogar na cara que eu era só uma noite de sexo, e, sem saber, me devolver pra minha cidade.


Aquela mesma caneca, que ele me deu na melhor vista de São Paulo na minha última semana lá. 


É daquelas  que mudam de cor quando recebe café quente e ela revela uma música, que naquele momento só se lia a frase: “Você viu só que amor, nunca vi coisa assim…”

Pois bem.

Mesmo fria, sem café e sem graça, a frase ainda tava lá. Aparecendo. Persistente.

Como um recado atrasado do universo, ou uma notificação afetiva do passado.


Joguei ela na bacia de água fria.

Apagou na hora.

E eu pensei:

nem tudo eu preciso lembrar, né?


Às vezes, o amor frio também precisa ser lavado.

Mesmo que a louça tenha sido presente.

Mesmo que já tenha servido um café de bom dia.


Hoje, sábado de chuva, a cidade tá em preto e branco e meu apartamento em luz âmbar.


A marmita tá pronta.

A casa tá em silêncio.

E eu tô deitado na cama, pensando em como cozinhar sozinho tem sido um tipo de masturbação emocional:

você faz do seu jeito, sente prazer, não precisa explicar o ponto do molho pra ninguém, e no fim…

sim, tem sujeira.

Mas é só sua.


E sinceramente?

Que delícia! Voltando pro quarto na casa escura dancei no corredor.


Nem tudo precisa de plateia.

Nem todo prato precisa ser dividido.

Nem todo gozo precisa de dois corpos.

Às vezes, o prazer tá em fazer do seu jeito — e limpar depois. Ou não.


Minha louça tá limpa, quase toda, sabe a panela de pressão? 

Tá cheia de água com detergente desde ontem.

Não lavei.

Mas também não deixei na pia.

Joguei ela na lavanderia.

Só porque lá tem tanque e… sinceramente, ela não cabe na minha pia.

Nem eu.


E hoje, pela primeira vez, tive um sábado inteiro só meu.

Silencioso.

Molhado.

Quente só onde precisava ser.

E tive amor suficiente.


Prologo: o Palavras Cruzadas (ou seria reencontro do Tinder? Ou só amigo do passado que nunca foi nada? Chamarei ele do Cara que não era dono do chinelo!), ele ainda me escreve, e eu não sei ainda em que caixa coloco ele, talvez algumas pessoas nos mantem na vida não por gostar da gente, mas por nossa utilidade, só que isso, isso já é material do próximo texto.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

E se for só isso? Um coração VHS sem atualização.




Ultimamente, estou tentando organizar a minha rotina.

Nada muito grande — só o suficiente pra fazer a vida parecer menos um episódio eterno de improviso e mais uma coisa que eu consigo assistir sem querer pular pra próxima cena. Curiosamente, é agora que tudo tem dado mais certo… que levantar da cama tem sido mais difícil.


Sim, justo eu — que acordava às cinco da manhã mesmo tendo dormido às três, com o espírito de um coach vencido pelo capitalismo. Agora, acordo meio-dia.

E não é porque estou fugindo do mundo, triste ou deprimido. É porque, depois de tanto tempo, estou em paz.

E paz tem sono pesado, tem travesseiro amigo, tem o efeito colateral de te fazer querer ficar na cama mais do que a insônia jamais permitiu.


Talvez seja porque, pela primeira vez em muito tempo, acordo numa casa onde o silêncio é meu, a luz da janela me conhece, e a bagunça tem o meu nome.

Ou talvez porque meu corpo, depois de tanto colapso disfarçado de produtividade, decidiu me dar um aviso suave: “fica aí mais um pouco, não tem ninguém te expulsando mais.”


Minha casa, que até ontem era só endereço, virou corpo.

E meu corpo, que até ontem era só fuga, virou morada.


E nisso tudo começa a se organizar: as refeições, as contas, o armário…

Quer dizer, quase tudo — exceto a motinha.


Ah, a motinha…

Continua no conserto. Ou melhor, em estado de meditação prolongada.

O tempo que ela leva pra voltar parece menos uma espera mecânica e mais uma novela espiritual: as peças, dizem, estão vindo do mesmo buraco onde eu caí com ela — e eu honestamente não duvido.

Talvez tenham que ser forjadas por um ferreiro cósmico em algum templo perdido de Saturno.

Enquanto isso, ela repousa em algum canto da oficina como uma relíquia pós-acidente, me lembrando que até os meios de transporte às vezes precisam de terapia intensiva.


E eu sigo a pé, de Uber ou de impulso, torcendo pra que a motinha volte renovada — ou pelo menos com menos traumas do que eu trouxe daquele tombo.




E no meio desse novo mundo de paz doméstica e caos logístico, veio a semana.


A réplica foi protocolada.

O frango foi cozido, desfiado, porcionado, celebrado e quase canonizado.

A pia foi lavada com a solenidade de um confessionário.

E eu, de alma em manga de camisa, descobri que dobrar roupas pode ser um ato de resistência silenciosa — e dobrei da mesma forma como trato meus sentimentos.


Mas algo estranho aconteceu entre a sacola de legumes e a panela de pressão.


Fiz o mercado. Voltei pra casa. Separei os ingredientes.

E percebi: vou cozinhar só pra mim.


Ninguém mais vai chegar, abrir a tampa da panela, perguntar “o que é isso que tá cheirando tão bem?”.

A conta do mercado foi estranhamente barata.

A emocional? Ainda não paguei(ou já).

Enfiei a mão na pimenta e joguei sobre tudo. Quase um gesto ritual.

Como quem dita o tempero (ou a ardência) da própria vida.


Mais tarde, durante uma conversa com Bianca — minha amiga que me deu de presente uma panela de pressão nova - gente que pensa na gente merece tudo— ela propôs que a gente fizesse marmitas juntos.


Toquei no assunto com certa alegria.

Disse como já cozinhei pra seis pessoas: Rodrigo, Andrés, a família inteira… pratos pensados com afeto e com a ânsia de ser aceito no gosto do outro.


Uma vizinha ouviu e, ao ver meu entusiasmo, pediu que eu cozinhasse pra ela também.

Respondi automático, com a sinceridade enlatada da conveniência.

Mas ela sorriu e disse: “Ah, quem cozinha gosta, né?”


Foi nesse instante que parei.


Gostar de cozinhar pra alguém não significa que eu queira fazer isso agora.

Eu não quero partilhar esse tempero.

Não mais.

Não por enquanto.


Percebi que o que gosto é da minha comida — do meu corte imperfeito de cebola, do meu alho esmagado com raiva e manteiga, do meu modo de jogar a tempero como quem decide um destino.


A cozinha, hoje, é meu inconsciente organizado em potinhos.


A psicanálise já dizia que o desejo nasce da falta — mas acho que estou desejando exatamente o que não falta mais: minha própria presença.

Cozinhar pra mim não é egoísmo, é reconhecimento de território afetivo.

É o avesso da codependência disfarçada de prato cheio.


Afinal, por que partilhar algo tão precioso com quem nem sabe usar o paladar?


Então, apareceu o menino do supermercado.

Aquele da poça, do beijo, do Tinder transformado em cena quase simbólica.

Marcou algumas vezes, mas não podia por que tinha que dormir, me escreveu algumas vezes, geralmente para me perguntar por que não o convidei para estar onde eu estava, enfim, ele foi, ele sumiu, ele voltou, ele marcou, e ele bloqueou.


Bloqueou porque eu atrasei 40 minutos, sem notar, porque estava vivendo e não sendo só uma notificação. E veja bem, repito: pessoas que te dão utensílios que fazem comida mais rápido deveriam ser priorizadas na hierarquia da afetividade.


Eu ri. Por que? Porque ele nunca confirmou de verdade, fazia drama em cima da própria ausência e ainda cobrava convite como se fosse V.I.P. do Met Gala.


E eu, entre louça lavada e a visita de Bianca, esqueci do celular por 40 minutos e já foi o suficiente para desaparecer uma foto no WhatsApp.


 Nunca admita alguém com  aquele tom passivo-agressivo de quem nunca aparece mas exige presença.


Fui bloqueado(ou vítima de uma tentativa de abalo emocional) por uma resposta sincera, ou talvez sarcástica demais:

“Ei, eu fui até você debaixo de chuva. Agora você precisa de mais convite que o Lula pra aparecer?”


Porque naquele momento, eu já tinha entendido tudo:

eu dou prioridade a quem me da uma panela de pressão.(ou outras coisas que preciso)


Não por ingratidão ao flerte, mas por maturidade afetiva.

Presente é afeto com ação.

Presença é afeto com tempo.

E o resto? É só carência com Wi-Fi.



A noite caiu.

A dor na nuca voltou.

Passei arnica.

Fiz chá com groselha preta e leite — que talhou, mas eu não talhei, não talharei jamais! 

Substituí por leite gelado com chocolate, como quem não insiste em decepções previsíveis.

Me joguei no sofá e fui ver Carminha de Avenida Brasil — aquela que, mesmo na vilania, entregava mais verdade do que muita conversa fiada de app.


E aí, no meio desse reencontro comigo, uma notificação.


Era da minha mãe.

Depois de semanas em silêncio e olhares atravessados até por mensagem de texto, me escreveu.

Não um tratado de reconciliação — mas uma pergunta curta, prática e cheia de significado disfarçado:

“Como você está?”

E, logo depois: “Quer que eu lave suas roupas?”

Respondi com um carinho, perguntei como ela tava e dei um não estratégico.

Porque o preço afetivo dessa lavanderia materna, eu sei bem, sai mais caro que qualquer lavagem a seco no Jardim Paulista.

E, sinceramente, tem coisa que eu ainda prefiro lavar  as roupas e as mágoas com minhas próprias mãos.



Agora são quase duas da manhã.

A casa está em paz.

O corpo, cansado.

O silêncio não me cobra.

O armário está, como sempre, parcialmente vencido.


E penso:

e se for só isso?


Essa casa.

Esse cheiro de frango.

Esse barulho de panela de pressão funcionando.

Esse corpo que, finalmente, sabe que o amanhã não precisa ser salvo — só vivido.


Talvez seja.

E talvez, pela primeira vez, tudo bem ser só isso.


Porque viver, às vezes, é isso:

organizar o caos até onde dá,

empurrar o que não deu,

e deitar no fim do dia com o corpo cansado

e o coração funcionando —

mesmo que ainda seja em VHS

num mundo que exige que a gente esteja em streaming.


(Sobre as roupas: não, não fui tão adulto. Não dobrei todas. Apenas enfiei elas dentro do armário. Afinal, tudo que eu acumulo agora vai cair só em cima de mim mesmo - e talvez eu as trate exatamente como faço com meus sentimentos.)


Ps.: Hoje um antigo tema desse blog me ligou,  uma palavra cruzada precisando de auxílio jurídico, ou testando meu coração.