Hoje, reorganizando a casa — e por “reorganizando” entenda-se tentando encaixar o caos da vida em cabides tortos da Tok&Stok — percebi que meu armário estava lotado. Mas lotado mesmo. Não daquele jeito simbólico que o Freud escreveria em A Interpretação dos Sonhos, mas literalmente: sem espaço pra mais uma peça de roupa, nem que fosse um blazer da Zara comprado em surto identitário.
Hoje, sozinho em casa, fazendo o que chamo de “curadoria emocional de armário” (também conhecida como dobrar camiseta velha tentando me convencer que ela ainda serve), percebi uma coisa que me acertou como aquelas epifanias baratas que vêm em filme de sessão da tarde…
Bem, a minha casa tem 70 metros, mas o que tem de cômodo, tem de ego ocupado.
Eu que estava acostumado com 25 metros no Jardins em São Paulo, ocupei tudo em Vila Velha, mais do que cabe em mim. Ocupo cada canto, cada silêncio, cada tomada emocional com os meus próprios cabos frouxos.
Não cabe ninguém aqui.
Não é uma metáfora sentimental. É geográfica. Literal. Física. Eu estou ocupando cada espaço em branco da minha vida. (Com excessão da parede de frente da minha cadeira no escritório, trabalhando percebi que falta algo ali, um quadro, diplomas ou fotos corporativas)
E foi ali, entre dobrar uma camiseta que sobreviveu a três términos e empilhar livros de moda ao lado de Freud e Lacan para estetas cansados, que me lembrei dele: o Ex Colombiano.
Andrés, quando namoramos, queria — por que queria — uma gaveta.
Sim, uma gaveta. Um espaço só dele. Um território mínimo que, na época, me pareceu uma invasão colonial afetiva.
E eu… travei. Travou meu coração, travou a fechadura e, simbolicamente, o relacionamento.
Não era pela gaveta. Era pelo que ela representava:
compromisso,
espaço cedido,
a possibilidade de um corpo estranho dormir entre minhas meias e minhas inseguranças.
E hoje, anos depois, eu vejo:
A gaveta nunca foi o problema.
O problema era eu.
Eu, que nunca aprendi a me pertencer inteiro.
Eu, que passei tanto tempo tentando caber no mundo de alguém, que quando finalmente tive o meu, quis ocupar cada milímetro como um sobrevivente ocupa um bote salva-vidas.
Mas agora estou aqui. Na casa nova.
Com vista. Com varanda. Com flores secas em arranjo boho e um tapete que mais parece uma metáfora da minha vida: torto, gasto, mas ainda assim, bonito.
E pela primeira vez na história dos meus afetos, estou sozinho sem estar em ruína.
Não tô dizendo que virei um monge ou que superei meus ex — alguns deles ainda assombram meus looks e um ou outro sonho onde exigem explicações como quem exige senhas de streaming compartilhado.
Mas agora, ao olhar pro armário lotado, percebo que não é sobre abrir espaço.
É sobre ser espaço.
Freud — que ando lendo nas entrelinhas tortas de “A Interpretação dos Sonhos” — diria que esse armário é símbolo.
A casa, metáfora do eu.
A gaveta trancada, aquilo que ainda escondo de mim.
Mas eu, que sou latino, gay e acostumado a sobreviver com um pouco de álcool, um cigarro de menta e muito sarcasmo, diria mais: o armário cheio não é repressão. É sinal de que eu finalmente parei de me espremer pra caber nos desejos alheios.
E aí veio a dúvida: meu mundo virou um clube de um só?
Talvez sim. Mas é um clube com vista, luz âmbar e flores secas na varanda.
Não tem espaço pra drama com perfume barato nem pra crises existenciais de gente que se acha profundíssima, mas não sabe nem onde fica a alma no próprio corpo.
E quando — ou se — alguém chegar, ele não vai pedir uma gaveta.
Vai saber que o lugar dele é na varanda, tomando café comigo, ouvindo Zé Ramalho e aceitando que espumante barato pode ser muito mais íntimo que jantar com nome em francês.
Não quero mais amores que exigem logística.
Quero os que sentam no meu sofá com a mesma naturalidade com que eu calço meu tênis surrado de 2019.
Quero os que sabem que minha casa tem drama, tem sarcasmo, tem Freud e Carrie Bradshal convivendo na mesma prateleira.
E se um dia alguém perguntar:
— “Você tem espaço pra mim aqui?”
Quero ter a calma de dizer:
— “Não sei… mas posso te fazer um café.”
E não é que eu não queira amar.
É só que agora entendi que o amor que vale a pena não chega pedindo espaço na gaveta.
Ele senta comigo na varanda.
Traz vinho. Aceita espumante. Tequila!
Deita no tapete torto e escuta Frejat sem ironia. Ouve minhas músicas estranhas de country americano.
Não força porta de armário — entra quando a casa convida.
Talvez eu esteja, finalmente, aprendendo a ser sozinho.
E isso, Freud querido, talvez seja meu maior ato de amadurecimento afetivo.
Ou só uma desculpa elegante pra continuar me esquivando de dates ruins.
Mas entre o inconsciente e a liberdade, escolhi a chave da minha casa.
Se for amor, ele que traga dobradiça própria. Ou me convide para construir nossa casa, onde caiba todas nossas tralhas e traumas.
E, no máximo, peça um cabide emprestado.