sexta-feira, 9 de maio de 2025

Talvez nem seja sobre uma gaveta (ou: o dia em que entendi que meu mundo é pequeno demais pra invasores)



Hoje, reorganizando a casa — e por “reorganizando” entenda-se tentando encaixar o caos da vida em cabides tortos da Tok&Stok — percebi que meu armário estava lotado. Mas lotado mesmo. Não daquele jeito simbólico que o Freud escreveria em A Interpretação dos Sonhos, mas literalmente: sem espaço pra mais uma peça de roupa, nem que fosse um blazer da Zara comprado em surto identitário.


Hoje, sozinho em casa, fazendo o que chamo de “curadoria emocional de armário” (também conhecida como dobrar camiseta velha tentando me convencer que ela ainda serve), percebi uma coisa que me acertou como aquelas epifanias baratas que vêm em filme de sessão da tarde…


Bem, a minha casa tem 70 metros, mas o que tem de cômodo, tem de ego ocupado.

Eu que estava acostumado com 25 metros no Jardins em São Paulo, ocupei tudo em Vila Velha, mais do que cabe em mim. Ocupo cada canto, cada silêncio, cada tomada emocional com os meus próprios cabos frouxos.


Não cabe ninguém aqui.


Não é uma metáfora sentimental. É geográfica. Literal. Física. Eu estou ocupando cada espaço em branco da minha vida. (Com excessão da parede de frente da minha cadeira no escritório, trabalhando percebi que falta algo ali, um quadro, diplomas ou fotos corporativas)


E foi ali, entre dobrar uma camiseta que sobreviveu a três términos e empilhar livros de moda ao lado de Freud e Lacan para estetas cansados, que me lembrei dele: o Ex Colombiano.


Andrés, quando namoramos, queria — por que queria — uma gaveta.

Sim, uma gaveta. Um espaço só dele. Um território mínimo que, na época, me pareceu uma invasão colonial afetiva.


E eu… travei. Travou meu coração, travou a fechadura e, simbolicamente, o relacionamento.

Não era pela gaveta. Era pelo que ela representava:

compromisso,

espaço cedido,

a possibilidade de um corpo estranho dormir entre minhas meias e minhas inseguranças.


E hoje, anos depois, eu vejo:

A gaveta nunca foi o problema.

O problema era eu.


Eu, que nunca aprendi a me pertencer inteiro.

Eu, que passei tanto tempo tentando caber no mundo de alguém, que quando finalmente tive o meu, quis ocupar cada milímetro como um sobrevivente ocupa um bote salva-vidas.


Mas agora estou aqui. Na casa nova.

Com vista. Com varanda. Com flores secas em arranjo boho e um tapete que mais parece uma metáfora da minha vida: torto, gasto, mas ainda assim, bonito.


E pela primeira vez na história dos meus afetos, estou sozinho sem estar em ruína.


Não tô dizendo que virei um monge ou que superei meus ex — alguns deles  ainda assombram meus looks e um ou outro sonho onde exigem explicações como quem exige senhas de streaming compartilhado.

Mas agora, ao olhar pro armário lotado, percebo que não é sobre abrir espaço.

É sobre ser espaço.


Freud — que ando lendo nas entrelinhas tortas de “A Interpretação dos Sonhos” — diria que esse armário é símbolo.

A casa, metáfora do eu.

A gaveta trancada, aquilo que ainda escondo de mim.


Mas eu, que sou latino, gay e acostumado a sobreviver com um pouco de álcool, um cigarro de menta e muito sarcasmo, diria mais: o armário cheio não é repressão. É sinal de que eu finalmente parei de me espremer pra caber nos desejos alheios.


E aí veio a dúvida: meu mundo virou um clube de um só?

Talvez sim. Mas é um clube com vista, luz âmbar e flores secas na varanda.

Não tem espaço pra drama com perfume barato nem pra crises existenciais de gente que se acha profundíssima, mas não sabe nem onde fica a alma no próprio corpo.


E quando — ou se — alguém chegar, ele não vai pedir uma gaveta.

Vai saber que o lugar dele é na varanda, tomando café comigo, ouvindo Zé Ramalho e aceitando que espumante barato pode ser muito mais íntimo que jantar com nome em francês.


Não quero mais amores que exigem logística.

Quero os que sentam no meu sofá com a mesma naturalidade com que eu calço meu tênis surrado de 2019.

Quero os que sabem que minha casa tem drama, tem sarcasmo, tem Freud e Carrie Bradshal convivendo na mesma prateleira.


E se um dia alguém perguntar:

— “Você tem espaço pra mim aqui?”

Quero ter a calma de dizer:

— “Não sei… mas posso te fazer um café.”


E não é que eu não queira amar.

É só que agora entendi que o amor que vale a pena não chega pedindo espaço na gaveta.

Ele senta comigo na varanda.

Traz vinho. Aceita espumante. Tequila!

Deita no tapete torto e escuta Frejat sem ironia. Ouve minhas músicas estranhas de country americano.

Não força porta de armário — entra quando a casa convida.


Talvez eu esteja, finalmente, aprendendo a ser sozinho.

E isso, Freud querido, talvez seja meu maior ato de amadurecimento afetivo.

Ou só uma desculpa elegante pra continuar me esquivando de dates ruins.

Mas entre o inconsciente e a liberdade, escolhi a chave da minha casa.


Se for amor, ele que traga dobradiça própria. Ou me convide para construir nossa casa, onde caiba todas nossas tralhas e traumas. 


E, no máximo, peça um cabide emprestado.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Mashup de capítulos (ou a crônica da mesa da varanda)



Nas últimas semanas, tudo aconteceu e nada aconteceu. Um belo dia, enquanto carregava o celular na distribuidora onde conheço meus novos vizinhos, o dono do lugar me chamou pra lanchar com ele e uns amigos, disse que não queria ir sozinho. Fui. Chegando lá, ele foi embora. Me deixou sozinho num boteco insalubre com três ilustres desconhecidos ativando meu pânico social como se fosse Alexa.


Ao me ver sozinho, respirei fundo e anunciei: “Queridos, foi um prazer, preciso ir.” Uma menina ao meu lado começou a chorar. Disse que não tinha onde dormir, precisava de um sofá. Eu, relutante mas ainda empático, ofereci pagar um Uber até a casa dela. Ela recusou: alegou que o toque de recolher a impedia de entrar no bairro. Resultado? Me acompanhou até a minha casa e, num plot digno de Hitchcock, subiu comigo.


Peguei uma cerveja pra mim e outra pra ela. Disse que podia esperar o amanhecer ali, que depois ela ia trabalhar. Ela (pasmem) me mandou ir dormir porque precisava descansar. E eu fui. Não sei se por perplexidade diante da cara de pau, por empatia mesmo… ou pelas três cervejas que já tinham tirado minha coragem de ser ríspido.


No dia seguinte, quando acordei, tinha sacolas de roupa em cima da mesa que custei a organizar. E, na varanda, uma calcinha pendurada como bandeira de ocupação. No celular, uma mensagem: “Vou aí buscar minhas coisas.”


Aquela garota estava tentando voltar pra dormir na minha casa de novo. Eu disse que tinha jogado tudo fora, que não admito desrespeito, que ela estava forçando algo que me deixa desconfortável . Perguntei se tinha alguma cueca minha na varanda. Não? Então por que tinha uma calcinha dela? Ela pediu desculpas. Eu disse que não precisava: “Você não é minha amiga. Nem nunca vai ser. E na minha casa, não entra mais.” Acabei de conseguir um lugar com vista. Jamais permitiria que alguém estragasse minha vista com uma calçola de vó descuidada.


Passado o ódio, conheci um piloto de avião — desses de uniforme alinhado e voz grave com sotaque de torre de controle. Trocamos mensagens, marcamos um jantar. Ele transformou o convite em um passeio de balão. Gostei. Achei decidido, arriscado, poético. Mas virou só isso: um encontro que nunca veio. Porque eu desisti. Ou o universo desistiu por mim. Não era dia de voar. Era dia de pouso.


Foi quando o universo, esse roteirista sádico e genial, me mandou Robson.


Sim, o Robson. Personagem recorrente da minha série, aquele dos episódios antigos — sempre entrando no quarto com uma mala e uma solução. Ele veio da Áustria, mas parecia que vinha do passado. Chegou como se nunca tivesse ido, como se as temporadas entre a gente fossem só intervalo comercial. Decidiu passar três dias comigo, Três. O mesmo número de dias que Jesus levou pra ressuscitar e que eu levei pra esquecer meu último quase date.


Dormiu no meu sofá, riu na minha varanda, comprou café e queijos comigo no supermercado como quem protagoniza uma cena de sitcom afetiva. Foi comigo à praia, viu o sol que banha Itapuã, mergulhou no pedaço da praia que eu mergulho desde que era  uma criança,  sentou nas cadeiras que vieram de São Paulo — as mesmas que um dia sustentaram amores, crises, esperanças… e que agora sustentavam ele(de novo), o Robson expatriado, agora importado.


Levei Robson ao meu restaurante preferido. Mostrei a vista do pé do Morro do Moreno como quem apresenta um segredo. A verdade é que estava mostrando um pedaço de mim. Ele achou tudo lindo. E eu achei surreal: meus mundos se fundindo como crossover de temporada especial — tipo Friends com ER, Gilmore Girls com Parenthood, ou só Pablo com Robson mesmo, numa série que, por alguns episódios, voltou a ter o mesmo título.


Mas Robson tem isso: vem com afeto e bagunça. O que tem de querido, tem de relaxado. Quando foi embora, deixou a pia cheia, a cama desarrumada, e o coração levemente melhor. Disse, antes de sair, que a mesa da varanda — a mesa dos dramas — era onde o tempo passava mais devagar. Concordei. A luz âmbar, as flores secas, e o silêncio dali desafiam qualquer cronômetro. Ali, as lágrimas parecem poesia. E o vinho, rito de passagem.


Na tarde seguinte, fui buscar roupas na casa da minha mãe. Robson ainda estava comigo. Paramos numa blitz. Claro. O carro — que estava parado há 5 anos — não tinha nenhum documento em dia. Robson ria. Disse que tudo isso era muito típico de mim, que estava feliz por estar de volta ao seriado. Eu chorei — pela multa, pelo aluguel indo embora, por gastar o pouco que eu tinha pra continuar fingindo que estou tudo bem. Numa dessas ironias cósmicas que a vida escreve em letra cursiva.


À noite, a Naju veio chorar na mesma cadeira em que Robson gargalhou. A cadeira sentiu o peso das emoções e chiou. Literalmente. Aquilo ali já é quase um oráculo. Ela, a cadeira. E eu, o bobo da corte emocional.


A casa tá de volta. Tenho luz (literalmente, depois de uma semana de banho frio e escuridão existencial). Mas ainda sem muita energia emocional. Fui lavar a roupa suja — simbólica e real — mas a máquina não ligou. Talvez o universo esteja dizendo: não é hora de resolver nada. A sujeira que existe faz parte da decoração. Ou talvez só queira me ensinar a lavar roupa na mão. E resolver meus conflitos com menos drama e mais sabão.


Liguei pra minha mãe. Falei dos documentos do carro. Ela, como sempre, ríspida. Mas ao final, eu disse: “Te amo.” E ela respondeu com um “te amo” do mesmo jeito que se diz “se cuida” depois de mandar um “vá à merda.” Desliguei. Segurei o telefone. E disse: “Também.”


E ali, entre caixas vazias, cadeiras tortas, móveis bambos, blitz, multas, boletos a vencer e roupa suja acumulada, eu entendi: eu preciso aceitar o peso do recomeço. Dizem que quando estamos no caminho certo, as coisas começam a dar errado. Seja pelo diabo. Ou pelo subconsciente desligado.


Ainda não tenho roteiro claro. Mas tenho elenco afetivo e uma varanda iluminada como plateia que espera o próximo ato.


Hoje, quem me ajudou a tirar o carro do pátio foi justamente o Dione, o dono da distribuidora — o mesmo que me lançou num boteco insalubre com desconhecidos e que, sem querer, hospedou uma ocupante do Movimento Sem Terra de varanda (com direito a bandeira de calcinha). Prova viva de que quem te joga na lama também pode te buscar com reboque autorizado pelo Detran. A vida, definitivamente, é um ciclo… com plot twists.


Para terminar, transformo meu cansaço em oração:


Que as paredes me abracem

com a memória das mãos que já me ajudaram a levantar.

Que a varanda sopre pra longe

os nomes feios que me disseram — e os que eu mesmo acreditei.

Que nenhuma calcinha pendurada me ameace,

e que toda louça por lavar seja só prova de vida,

não de fracasso.


Que o chão que hoje parece peso,

amanhã seja solo fértil.

Que cada boleto vencido seja queimado no tempo certo,

como oferenda moderna de quem sobrevive com estilo.


Que minha cama seja templo,

meu travesseiro, oráculo,

e que até minha máquina de lavar, um dia, cante.


Que a dor de agora vire texto,

e que o texto me devolva a leveza.

Que os amigos cheguem —

de avião, de Uber, ou da Áustria.


E que o Universo,

esse roteirista confuso e genial,

me escreva uma boa noite

com todas as estrelas certas.


Amém. Axé. Que seja.

E se não for, que vire crônica.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Decorando a casa para tirar a alma do aluguel por temporada

Eu não montei minha casa com a intenção de sair em uma revista de decoração, ou de virar referência de “apê tumblr chique minimalista”. Tudo aqui tem história — ou ao menos uma boa desculpa para estar onde está.


Existe uma estética que não se compra, apenas se constrói com tempo, camadas e uma boa dose de ironia. Nada aqui combina em tons de bege e silêncio, nem eu. Minha casa foi feita para HABITAR — com letra maiúscula, com alma, e com histórias que se empilham como livros lidos pela metade.


Aqui, cada objeto tem uma razão para existir. Mesmo que a razão seja apenas sentimental. A balança de Orifeto com mais de cem anos repousa ao lado de uma cafeteira moderna, como se o tempo não fosse um conflito entre eles, mas só uma conversa elegante entre as décadas. A máquina  de escrever não é um ornamento: é memória de trabalho, de sonho, de cartas que talvez nunca nem foram enviadas. Os quadros esperam moldura encostados na parede, como quem diz que a beleza, também pode ser provisória.


O escritório é o coração da casa — ou talvez o cérebro. Madeira escura, cadeira de couro, tapete persa e um globo terrestre que já deve ter girado mais do que o eu. Um ambiente que, pra mim, evoca Nova York dos anos 70, mas sem a pretensão de ser. É como se Patti Smith e eu pudéssemos sentar e tomar um café discutindo Direito, psicanálise ou falando sobre um amor antigo.


A varanda é onde a poesia relaxa. Poltronas vermelhas estilo jazz bar, mesa redonda com cara de conversa longa e flores secas que desafiam a pressa. Ali, o tempo vai escorrer devagar, e isso é proposital. O tapete pode não estar perfeitamente esticado, mas isso diz mais sobre liberdade do que sobre decoração.


Não quero que minha casa seja uma vitrine. Quero que ela conte a minha história — com um pouco de sarcasmo, um tanto de afeto e muita verdade. Tem tapeçaria torta? Tem. Tapete fora do lugar? Também. Mas tem alma.


É chique? Não sei. Mas nunca é do tipo que precisa provar nada a ninguém.

É old money? Se for, é o tipo que já foi à falência, aprendeu a rir disso e continua servindo café com estilo, fuma em varanda fechada e discute nietzsche com os vizinhos.


Pensei, quem precisa de Paris quando se tem um cigarro aceso, uma taça de espumante e a luz certa sobre  mesa própria?


Ali já era sexta-feira. Ou uma quarta que se achava importante por que está antes de um feriado longo. No relógio da parede — que ainda não existe — era 18:00 da noite, e eu, finalmente, finalmente tinha algo que fosse meu e não apenas o caos emocional que me aluga por temporada. A casa. Meu apartamento. Meu templo de sarcasmo e sobrevivência. Pelo menos nos próximos 12 meses de contrato de aluguel.


Na mesa redonda de madeira que viu mais dramas do que muitos palcos do Off-Broadway, repousava todos clichês de uma noite boa: espumante barato, um cigarro com pretensão de europeu e um silêncio que, pela primeira vez, não parecia hostil.


Sob o abajur âmbar, ligado graças a uma bela surpresa - ou só uma vizinha que me foi luz… Bem, essa luz faz qualquer desabafo parecer filosofia, percebi: talvez eu tenha vencido. Ou pelo menos empatado com a vida.


Não havia visitas. Nem mensagens não lidas de alguém interessante. Existe eu. E meu sofá. Meus quadros tortos. Meus arranjos de flores secas com ares de viúva rica e emocionalmente indisponível.


Minha casa não é minimalista como disse. Nem instagramável. Mas ela me obedece. Ou melhor: ela me representa. Tem drama, tem sobreposição, tem histórias e um leve toque de “não tô nem aí”. E isso, meus caros, isso é chique.


Entre uma tragada e um gole, compreendi que decorar a casa pode ser mais íntimo que transar com alguém. Porque ninguém te toca tão profundamente quanto um lugar onde você se sente inteiro. Ou deliciosamente despedaçado com estilo.


E foi assim que, naquela noite — entre um gole e outro, entre o passado que ainda visita e o futuro que não sabe se vem —, eu me dei boas-vindas. Sem alarde. Só com o som do gás da espumante, o eco discreto da vitória e uma música que, sinceramente, acho que só eu escuto. 


O espumante borbulhava. O abajur dava o tom dourado que já acompanha minha visão de mundo, e o meu caos, por todo tempo parecia… confortável.



Assim — ao som de Take Me Home, Country Roads, com uma taça na mão e a alma na outra — que, depois de tanto tempo vagando, eu finalmente entendi: ninguém me traria pra casa, eu a traria, assim que voltasse pra mim.


Agora se puder, bebe um vinho e coloca essa música para tocar, por mim.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Do recomeço.

 



Entrei.

Não precisei bater, a casa é minha agora.

As paredes não sabem meu nome ainda, mas vão aprender.

Talvez no começo elas ecoem meus silêncios, minha falta de energia — literal e emocional — mas logo, com o tempo, com minha risada ainda alta ou meus choros de soluços, elas vão me reconhecer.

Vão saber onde dói e onde eu deito.


Coloco minha mochila no chão, tiro os sapatos – não, não vou tirar – deixa o barro entrar também, não tem problema. Aqui ninguém vai limpar minha história para debaixo do tapete.


Essa casa vai ouvir a partir daqui meus gritos de raiva, meus sussurros de saudade, meus áudios de desabafo e meus silêncios de “não aguento mais hoje”.

E vai continuar me esperando no fim do dia.

Com ou sem luz.


Essa casa talvez não vá curar meu braço, mas vai começar a curar minha alma.

Vai ser meu ninho. Meu palco.

Meu bunker nos dias ruins, minha sacada nos dias de sol, com direito a vista para o mar.


Serei bem-vindo, mesmo que ainda esteja tremendo.

Mesmo que ache que não vou dar conta.

Mesmo que eu sinta saudade do que foi ou medo do que pode ser.

Desde que eu não atrase mais de três aluguéis. 

Eu cheguei aqui, ralado, sem energia, mas cheguei.

E isso, por si só, já é um milagre.


E o maior milagre foi encontrar uma mudança para o dia seguinte e vaga no prédio, cedida pelo porteiro, que, depois de me ver chorar, fez todos do prédio se oferecerem para me ajudar.


A mudança veio! Comecei a juntar as coisas na casa da minha mãe às 5 da manhã; às 11 já estava tudo no caminhão, indo para a nova casa.

Saindo de casa meu carro antigo está parado, a anos sem funcionar, tento ligar para estacionar melhor e não causar problemas, ele liga, parece que até ele quer ir embora.

No Uber, chorando e indo para o apartamento, recebo uma mensagem: 


Rodrigo Vargas: “Oi???” 


Eu, na hora, mesmo sabendo que ele não está mais aqui, fiquei feliz como um suspiro de irrealidade que trouxesse meu melhor amigo de volta.


Entrei na mensagem com aquele calor no coração ainda do devaneio, e era a nova dona do celular dele. No meio da mudança, eu tinha ligado para ela sem querer (não vi essa ligação).

Entendi que era ele dizendo: “Ei! Você não tá sozinho.”


Entrei e, entre uma caixa e outra, entrei também em mim.

Olhei a varanda vazia, ouvi o barulho da rua, senti o cheiro da tinta nova misturado com o da vida antiga.


De repente estava lá: minha casa, meus móveis, meus quadros! Minhas louças, minhas taças, minhas cadeiras!


Por que a gente se prende tanto às coisas que constrói? (Por que eu me prendo?)


Eu sei!

Tudo aqui não foi comprado, foi preenchimento de vazios, de cada casa, cada escritório.

Eu sempre respeitei os lugares que entrei.

Cada móvel, cada quadro vai se encaixando.

Hoje, minhas cadeiras não são só cadeiras, são tronos onde meus amores e amigos sentaram.

Cada taça tá cheia de amor, tem cheiro das minhas histórias. Cada garfo é prato serviu bocas que me fizeram sorrir, gargalhar! Não são móveis, são um lar, um altar a minha história.


Pensei: “Meu Deus! Todos esses anos eu só precisava da minha casa?”

Sentei no sofá.

Uma abelha tocou em mim – eu e meus sinais – previ boa sorte!

Deixei a abelha seguir, fui arrumando a varanda e olhando para o mar…


Foi então que ouvi uma voz.

Não era dentro da minha cabeça (eu pensei que era) — dessa vez era real.

Uma vizinha, da varanda ao lado, falando sozinha, brigando com o vento, perguntando pra ninguém:

“E quando chove, eles fazem o quê?”


Eu pensava que aquele apartamento estava vazio, mas não.

Falei com ela, nossa, eu estava tão feliz que não tinha vizinho no prédio.

Pensei: ninguém vai reclamar de mim!

Ela disse: “Eu pensei o mesmo, minha mudança chega amanhã.”


Falamos sobre a dificuldade de achar apartamento.

Ali, sorri pela primeira vez no dia.


Em meio a tanto silêncio, uma vizinha que falava alto, que gostava de viver alto!

Eu, ainda sem energia (vital e real), fui levado pra carregar lá o celular, e ela disse: “Deixarei aberta a porta, entra quando quiser!”

Uma estranha deixando a porta aberta me fez lembrar quantas vezes tive que pular a janela porque minha mãe trancava a porta antes de eu chegar em casa.


Ali descobri também que, às vezes, a vida manda cumadres antes de mandar móveis.


Ela trabalha de casa, como eu.

Mora sozinha, como eu.

E, como eu, também lavou a varanda sem saber que aqui até a água precisa pedir licença pra descer.

Tem cheiro do meu tipo de gente: real, visceral, com cheiro de café sem horário marcado e visita sem formalidade!


Conversamos como quem tropeça em encontros que nem sabia que queria.

Mostrei minha casa desarrumada, ela mostrou a dela vazia.

E ali, no meio de caixas, sacolas e promessas não ditas, combinamos:

seremos cumadres.


Depois que o pessoal da mudança foi embora e sobrou só eu, minhas dores nas costas e uma pilha de coisas pra organizar (que decidi ignorar com a maturidade emocional de um adolescente), uma amiga veio me ajudar: a pensar, a escolher onde colocar o quadro, a abrir caixas com memórias que eu não saberia lidar sozinho. Rafa não organizou só as caixas, organizou memórias e enxugou uma cachoeira de lágrimas com um colo que eu nunca vou esquecer.


Ela foi embora e eu desci pra respirar.

Ou pra fugir. Nunca sei direito.


Fui até a distribuidora embaixo do prédio — o bar da esquina do destino — e, de repente, não era mais estranho.

Todo mundo se conhecia.

Me ofereceram cerveja, cadeira, apelido.


Em cinco minutos, eu era o Pablo do 801, o menino que carregou a casa nas costas e agora parecia um carteiro bêbado de liberdade.


E como se a vida tivesse roteirista, no meio daquela bagunça boa, começou a tocar “Chão de Giz.”


“Eu desço dessa solidão…”

— Eu também, Zé Ramalho. Tô descendo faz tempo, meu amigo.


“Espalho coisas sobre um chão de giz…”

— No meu caso, espalhei caixas, roupa suada, sonhos reamassados e a esperança de que amanhã eu descubra onde está a cafeteira.


“Há meros devaneios tolos a me torturar…”

— E também boletos. Muitos boletos.


“Eu vou te dedilhar…”

— Eu sorri e imaginei que, se casas pudessem ouvir, a minha agora me olharia meio emocionada, pensando: “Caralho, esse menino tortinho vai me dar trabalho…”


E ali, no meio do barulho das garrafas sendo abertas, gargalhadas de estranhos, o cheiro de churrasquinho e a brisa da praia subindo da orla de Itapuã, eu cantei baixinho pra minha casa nova, como quem promete sem prometer:


“Eu estou indo embora, mas estou indo embora…”


Só que, pela primeira vez, não era fuga.

Era chegada.


Eu não tava indo embora de nada.

Eu tava chegando — em mim.


E se amanhã lavar a varanda, e o vizinho de baixo reclamar,

e a cumadre me chamar pra um café às três da tarde,

e eu ainda não tiver encontrado o abridor de vinho — tudo bem.


O chão é meu.

O giz é meu.

A história sempre foi minha!


O roteirista, lá de cima, fazendo tudo lindo com sentido e significado, do nada coloca a trilha sonora com Frejat, Um Amor pra Recomeçar, e eu senti a benção de Deus dizendo:


“Eu te desejo não parar tão cedo

Pois toda idade tem prazer e medo

E com os que erram feio e bastante

Que você consiga ser tolerante

Quando você ficar triste, que seja por um dia

E não o ano inteiro

E que você descubra que rir é bom

Mas que rir de tudo é desespero

Desejo que você tenha a quem amar

E quando estiver bem cansado

Ainda exista amor pra recomeçar

Pra recomeçar

Eu te desejo muitos amigos

Mas que em um você possa confiar

E que tenha até inimigos

Pra você não deixar de duvidar

Quando você ficar triste, que seja por um dia

E não o ano inteiro

E que você descubra que rir é bom

Mas que rir de tudo é desespero

Desejo que você tenha a quem amar

E quando estiver bem cansado

Ainda exista amor pra recomeçar

Pra recomeçar

Eu desejo que você ganhe dinheiro

Pois é preciso viver também

E que você diga a ele, pelo menos uma vez

Quem é mesmo o dono de quem

Desejo que você tenha a quem amar

E quando estiver bem cansado

Ainda exista amor pra recomeçar

Eu desejo que você tenha a quem amar

E quando estiver bem cansado

Ainda exista amor pra recomeçar

Pra recomeçar

Pra recomeçar”



Recomecei. Ainda não totalmente, ainda sem energia, sem saber como pagar o aluguel, sem todas respostas, mas com a certeza que novas memórias serão construídas, aqui vou construir laços que não sei ainda que preciso, reconstruir outros que tenho certeza.