Na teoria, era só mais uma segunda-feira.
Na prática, era mais um daqueles episódios da minha série pessoal que começa com dobrar roupas e termina com um beijo encharcado na esquina — literalmente.
Passei o dia fazendo o que adultos fazem quando fingem que estão no controle: arrumando o apartamento, decidindo quais roupas realmente merecem uma gaveta e quais já podem cumprir o destino nobre de serem jogadas artisticamente no chão (também conhecido como o tapete da indecisão emocional). Entre uma blusa e outra, percebi que minha lombar estava me lembrando — com aquele sussurro de dor — que levantar e abaixar é uma coreografia que já teve mais graça na juventude.
No meio da faxina sentimental, recebi a visita de Gustavo — que é de Ribeirão Preto, mas veio direto de Campinas, como quem cruza dois afetos geográficos para tomar um café comigo na varanda. O almoço foi no restaurante da esquina, o que foi providencial: minha geladeira está quebrada, o fogão só tem uma boca funcional, e o salmão que eu comprei estava mais para projeto do que refeição. Ainda assim, o dia seguiu com uma dignidade quase gourmet.
Fui ao supermercado, porque é isso que a gente faz quando tenta se agarrar ao senso prático da vida. E foi lá, entre legumes caros e tentações açucaradas, que esbarrei com um match do Tinder. O timing foi tão cinematográfico que só faltou a música de fundo — talvez algo da sétima temporada de Black Mirror, que descobri mais tarde estar disponível no meu PlayStation 3. Sim, ele ainda existe.
Na saída do supermercado estava chovendo. Dei carona pro moço. Achei justo. Só esqueci que meu carro, coitado, estava mais para cápsula arqueológica do que meio de transporte. Sem para-brisa, com cheiro de abandono afetivo e dignidade limitada. Em dias simbólicos, a chuva vem como direção de arte. Deixei o moço na esquina — não por charme, mas porque eu realmente não via um palmo à frente (o que me fez não ver que parei em uma poça de água). Ele enfiou o pé, obviamente, molhou o tênis e, ainda assim, me deu um beijo.
Disse que eu devia guardar o carro como relíquia.
Eu ri.
Mal sabe ele quantas relíquias já moram comigo: quadros tortos com histórias retas, cortinas penduradas com ganchos de fé, tapetes persas esquecidos em lavanderias convivendo harmonicamente com cristais Baccarat, frigideiras quase incendiadas em rituais de “cura”, e uma boca de fogão valente que segura sozinha o papel de chef da casa.
Chegando em casa, liguei o meu PlayStation 3 como quem acende uma vela num altar doméstico — ele, essa relíquia tecnológica com cheiro de adolescência comprimida em memória flash, demorou, fez charme, mas ligou. Acessou a rede, abriu a Netflix, e, como num milagre analógico em pleno streaming, me jogou direto na nova temporada da série. Porque se a minha vida anda toda em 4K — cheia de obrigações, boletos e beijinhos molhados em esquinas —, minhas lembranças ainda rodam em VHS: com chiado, nostalgia e aquele atraso gostoso de quando tudo parecia menos responsivo, mas mais sincero.
Agora estou aqui,
deitado com meu avental novo
e a antiga dor na lombar de tanto levantar e descer.
As roupas que faltavam,
joguei no chão com diplomacia.
O aluguel, eu paguei.
O serviço de hoje…
empurrei pro amanhã,
com aquele jeitinho que só quem sobrevive à própria rotina sabe fazer.
Porque viver, às vezes, é isso:
organizar o caos até onde dá,
abraçar o que não deu,
e deitar no fim do dia com o corpo cansado
e o coração inteiro —
mesmo que ainda funcione em VHS.
Cena extra: Silêncio com cheiro de casa nova
Existe uma coisa meio mágica em ter uma casa só sua. Não falo de escrituras, IPTUs ou registro em cartório (até por que esse apartamento não é meu - ainda) falo do primeiro dia em que você acorda e percebe que o silêncio ao redor é finalmente seu.
A vontade de arrumar tudo antes de dormir vem como um instinto novo. Você começa a dobrar a toalha da mesa com um cuidado que ninguém vai notar, mas você nota. Quer as coisas limpas. Quer o chão varrido, as luzes apagadas no tempo certo, os objetos no lugar como se sua própria alma morasse ali em forma de abajur.
E então, entre uma organização e outra, uma constatação sussurra:
“Acho que eu não preciso mais beber tanto.”
Não porque o álcool deixou de existir, mas porque aquela vontade desesperada de fugir desapareceu.
A sobriedade chega como um hóspede que sempre quis entrar, mas estava sem espaço.
Até ontem, eu achava que comecei a gostar de cerveja. Hoje, penso: talvez fosse só saudade de mim. Era como se eu me mantivesse em uma festa onde o anfitrião nunca chegava, faltava era chegar em um canto que fosse meu, de um quarto sem julgamento, de uma rotina em que eu pudesse ser leve — mesmo que cansado, mesmo que com a lombar gritando.
Aqui, nessa casa recém-assumida, as paredes já sabem meu nome.
O silêncio não me cobra conversa.
E o copo de vinho esquecido na pia é só cenário, não necessidade.
E talvez eu nem tenha parado de beber.
Ou talvez eu só não precise mais fugir.