Eu juro.
Eu juro que nunca quis ser o vilão.
E talvez seja justamente por isso que, durante muito tempo, tenha me esforçado tanto para interpretar o mocinho.
O compreensivo.
O que perdoa.
O que entende o trauma alheio.
O que considera as circunstâncias.
O que dá mais uma chance porque, afinal, todo mundo está enfrentando alguma batalha invisível.
Eu entendia tanto os motivos dos outros que, em algum momento, quase desapareci da minha própria história.
É um talento perigosíssimo.
A psicanálise devia emitir um alerta:
“Compreender excessivamente as pessoas pode causar perda temporária de amor-próprio.”
Mas eu fui aprendendo.
Não em livro, embora tenha lido muitos.
Aprendi naquela universidade bastante conceituada chamada “as coisas que fizeram comigo e que eu jamais imaginei que alguém teria coragem de fazer”.
O curso é longo.
Não entrega diploma.
E a mensalidade é um absurdo.
Houve traições pessoais, traições profissionais, relações que terminaram levando pedaços da mobília emocional, pessoas que morreram antes que eu terminasse de dizer tudo o que queria dizer, amizades que revelaram cláusulas contratuais que eu aparentemente não havia lido e situações em que precisei descobrir, da pior maneira possível, que nem todo mundo que senta à sua mesa deseja que você continue tendo uma mesa.
Às vezes deseja a mesa.
As cadeiras.
Os clientes.
E, dependendo da pessoa, até a cafeteira.
A vida adulta tem dessas delicadezas.
Durante muito tempo achei que a resposta para tudo isso fosse preservar minha luz.
Ser bom apesar de tudo.
Continuar acreditando.
Continuar oferecendo.
Continuar amando.
É uma ideia bonita.
É também uma excelente maneira de acabar emocionalmente falido se não houver um departamento de compliance funcionando dentro da alma.
Porque existe uma diferença brutal entre não perder a luz e não conhecer a própria escuridão.
Foi Jung quem colocou uma lanterna nesse porão.
A sombra, para ele, não era simplesmente aquilo que havia de mau em nós. Era tudo aquilo que expulsamos da nossa identidade porque não combinava com a pessoa que acreditávamos que deveríamos ser.
Raiva.
Desejo.
Ambição.
Erotismo.
Instinto.
Egoísmo.
Capacidade de dizer não.
Capacidade de partir.
Capacidade de olhar para alguém que nos feriu e, em vez de perguntar “por quê?”, simplesmente pensar:
“Nunca mais.”
Existe uma violência que fazemos contra nós mesmos quando chamamos toda raiva de ressentimento.
Algumas raivas são fronteiras.
Algumas raivas são o corpo finalmente contratando um advogado.
E, considerando minha profissão, demorou até demais.
Talvez meu erro tenha sido acreditar que luz significava ausência de sombra.
Hoje penso exatamente o contrário.
Uma pessoa inteira produz sombra porque está diante da luz.
Só cadáveres e fantasmas têm essa estranha pretensão de transparência absoluta.
Eu estou vivo.
Portanto, tenho sombra.
E hoje consigo olhar para ela.
Não quero destruí-la.
Quero conhecê-la melhor, usá-la melhor.
Quero saber o nome das criaturas que moram naquele bosque.
Quero reconhecer o leão quando ele rosna.
Porque passei anos tentando domesticá-lo para que ninguém se sentisse ameaçado pela minha existência.
O resultado foi previsível: algumas pessoas entraram na jaula.
Nietzsche escreveu sobre a importância de não se transformar no monstro que combatemos ao olhar demoradamente para o abismo.
A frase ficou famosa.
O problema é que quase ninguém comenta o detalhe mais interessante:
o abismo também olha de volta.
E, depois de certo tempo, você começa a enxergar.
Primeiro o outro.
Depois você.
E essa segunda visão é muito mais assustadora.
Porque chega o momento em que você precisa admitir:
“Eu também seria capaz.”
Capaz de manipular.
Capaz de ferir.
Capaz de humilhar.
Capaz de usar aquilo que sei sobre alguém exatamente no ponto em que mais doeria.
Eu conheço palavras.
Conheço leis.
Conheço pessoas.
Conheço silêncios.
Sei exatamente onde muitas fragilidades estão escondidas. Eu posso mostrar meu próprio abismo.
E talvez o verdadeiro caráter não esteja em ser incapaz de destruir. Seja em devolver o mal que te entregam.
Pode estar em saber que poderia — e escolher não fazer, ou fazer!
Isso mudou tudo para mim.
Porque a bondade de quem não conhece a própria força pode ser ingenuidade.
Mas a bondade de quem conhece sua força e estabelece limites é escolha.
E eu prefiro escolhas.
Hoje não quero vingança.
Vingança ainda concede protagonismo demais ao outro.
É uma prisão sofisticada: você sai da relação, mas continua organizando sua vida ao redor de quem lhe feriu.
Seria horroroso.
Depois de tudo, ainda pagar aluguel emocional para essas pessoas?
Nem pensar.
Já tenho boletos suficientes.
O que sinto talvez seja outra coisa.
Por algum tempo chamei de revanche.
Mas revanche também não é exatamente a palavra.
Porque não quero só mostrar minha sombra para competir com a escuridão de ninguém.
Não preciso provar que consigo ser pior.
Por que sou.
E não me submeto a competição medíocre.
O que quero mostrar — sobretudo a mim mesmo — é que minha luz não era fraqueza.
Era escolha.
E continua sendo.
Só que agora ela vem armada de consciência.
Não de armas.
Consciência.
Limites.
Memória.
Discernimento.
E uma quantidade francamente impressionante de documentos em PDF e prints.
Porque a jornada do herói contemporâneo pode até envolver arquétipos, morte simbólica e travessia do submundo, mas em algum momento Têmis pede que você anexe o comprovante.
Foi assim que comecei a entender meu verdadeiro renascimento.
Não aconteceu quando a dor acabou.
Algumas dores não acabam.
Elas mudam de endereço dentro da gente.
O renascimento aconteceu quando a dor deixou de ser diretora do filme.
Ela ainda aparece.
Às vezes tem uma participação especial.
Uma ponta.
Um flashback dramático.
Uma fotografia antiga.
Uma música inconveniente tocando no mercado exatamente no dia errado.
Um olhar de uma ex amiga num bar à beira de um abismo.
Mas já não escreve o roteiro inteiro.
Esse roteiro voltou para mim.
Talvez por isso minha casa tenha se tornado tão importante.
A varanda.
O mar.
Os objetos.
As plantas.
As coisas aparentemente banais que fui escolhendo para montar novamente uma existência.
Já escrevi sobre casas como ninhos, templos, palcos e bunkers.
Continuo acreditando nisso.
Há uma espécie de magia profundamente material em decidir onde uma cadeira ficará depois que a vida inteira saiu do lugar.
Arrumar uma casa pode ser uma forma silenciosa de dizer ao universo:
“Pretendo permanecer.”
Talvez por isso eu goste tanto das plantas.
Nenhuma delas pergunta se o terreno merece flores.
Elas encontram luz.
Encontram água.
Criam raiz.
Algumas precisam ser podadas de maneira brutal antes de crescer novamente.
Bougainvilles são particularmente dramáticas.
Respeito.
Tenho identificação imediata.
Hoje entendo que sobreviver não significa voltar a ser quem eu era.
Ainda bem.
Aquele homem tinha qualidades lindas.
Mas também tinha portas demais abertas.
O homem que está surgindo agora continua sensível, continua acreditando em amor, continua chorando com música, continua encontrando símbolos em coisas que pessoas mais sensatas provavelmente classificariam como coincidência.
Só que agora ele fecha portas. Mostra sombras, solta leões. E reage com revanche! Em qualquer espécie!
Algumascom delicadeza.
Outras com chave.
Algumas com tranca.
E em situações muito específicas, talvez com um pequeno “não perturbe” pendurado do lado de fora.
Não é amargura.
É arquitetura.
Toda casa precisa de parede.
Todo rio precisa de margem.
Toda luz precisa saber onde termina para não virar incêndio.
Talvez essa seja minha revanche;
eu sobrevivi sem pedir autorização.
Mais do que isso.
Estou começando a gostar novamente da vida.
Estou reconstruindo.
Estou escrevendo.
Estou trabalhando.
Estou rindo.
Estou escolhendo móveis.
Estou fazendo planos.
Estou descobrindo novas versões de mim mesmo.
E existe algo quase ofensivo nisso para quem imaginou que nossa ruína seria permanente.
Não porque eu queira que alguém assista.
Talvez ninguém esteja assistindo.
Essa é outra libertação.
A maior parte das pessoas está ocupada demais protagonizando suas próprias séries de qualidade péssima.
Eu vejo só relances fracassados.
Eu estava lá.
Eu sei de onde voltei.
E talvez seja essa a diferença.
Durante muito tempo pensei que minha história fosse sobre tudo aquilo que perdi.
Hoje começo a suspeitar que ela seja sobre aquilo que, apesar de tudo, não conseguiram levar.
Minha capacidade de amar.
Minha inteligência.
Minha curiosidade.
Minha ironia.
Minha vontade de criar beleza em lugares improváveis.
Minha estranha fé de que, mesmo depois do incêndio, alguma coisa pode nascer no terreno queimado.
Até minha sombra permaneceu.
Esperando.
Para finalmente ser integrada.
Jung chamaria isso de individuação.
Eu, menos elegante, chamaria de:
parar de ser agressivo diplomado.
Mas estamos falando aproximadamente da mesma coisa.
Eu não quero ser o vilão.
Nunca quis.
Só não preciso mais ser o personagem secundário bondoso que aparece em três episódios para ensinar ao protagonista uma lição sobre perdão antes de morrer dramaticamente.
Recuso o papel.
Troquem o elenco.
Minha história continua.
E, se existe uma revanche nela, não será feita de destruição, ou será, mas sempre será feita de presença.
De limites.
De beleza.
De memória.
De prosperidade.
De textos escritos de madrugada.
De manhãs diante do mar.
De plantas crescendo onde antes havia ruína.
E daquela espécie particular de paz que só conhece quem um dia precisou voltar do próprio abismo.
Não quero apagar minha sombra.
Quero caminhar ao lado dela.
Porque finalmente entendi:
ela não veio para destruir minha luz.
Veio para protegê-la.
E talvez amadurecer seja exatamente isso — perceber que não precisamos escolher entre o santo e o monstro, entre o sol e a noite, entre a delicadeza e a força.
Podemos ser inteiros.
Eu continuo sendo luz.
Só aprendi a acender também as lâmpadas do porão.
E, sinceramente?
Estava na hora. E aos que temem meu escuro, segurem suas velas.
