sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

SEGURANÇA (ou: manual básico para não enlouquecer em público)



Descobri que segurança vem de securus.

Latim, claro. Tudo que importa vem do latim ou da terapia.


Se — sem.

Cura — cuidado, preocupação, excesso.


Ou seja:

ser seguro, originalmente, era viver sem precisar se preocupar o tempo todo.


Hoje a palavra anda armada, blindada, terceirizada.

Mas naquela semana,

ela veio de outro lugar.

Veio mancando.


Tudo começou numa parada.

Nome honesto: parada.

Lugar onde se espera —

ou onde te fazem parar sem aviso prévio.


Parei.

Ou fui parado.

Ainda estou decidindo.


Ali pediram minhas coisas.

Não porque eu tivesse feito algo,

mas porque parecia.

E no Brasil, parecer já é quase um boletim de ocorrência antecipado.


Meu corpo foi condenado

antes do verbo,

antes da explicação,

antes da possibilidade de existir em paz.


Levaram meu endereço.

E quando alguém pega seu endereço,

não pega papel.

Pega sua noite,

seu sono,

seu “e se”.


Nesse momento, segurança deixou de ser conceito abstrato

e virou necessidade fisiológica.

Tipo respirar.

Ou não morrer de medo tentando parecer calmo.


O corpo entrou naquele modo antigo, pré-histórico:

sobrevivência sem legenda.

Sem metáfora.

Sem glamour.


Depois vieram as marcas.

O pé quente.

O amarelo da rifocina fingindo sol do Caribe.

Feridas que em repouso pareciam filosóficas,

mas bastava ficar em pé

pro sangue lembrar que estava vivo

— e reclamar.


Segurança, ali, não era ausência de dor.

Era não sangrar de novo.

Ou pelo menos sangrar só por dentro,

que socialmente dá menos trabalho.


E curioso:

ela não veio só do corpo.


Veio de Karla.

Segurança emocional tem CPF quando aparece.

Veio no “eu ajudo” sem discurso,

sem drama,

sem transformar crise em podcast motivacional.


Veio de Geórgia também.

Da presença que não pergunta demais,

não diagnostica,

não tenta salvar.

Chega, senta e fica.


Segurança emocional não grita.

Ela oferece café

e não vai embora rápido.


Arrumar a casa virou ritual terapêutico disfarçado de faxina.

Cada coisa no lugar dizia:

— você ainda consegue escolher, calma.


Não era estética.

Era contenção simbólica.

Era o equivalente emocional de manter o pé elevado.


E aí veio a pergunta que não cabe em boletim,

nem em oração,

nem em conversa de elevador:


até onde eu consigo segurar?


Resposta honesta:

não muito.


Nunca foi muito longe.


Mas essa barra…

essa barra eu segurei.


Não sozinho —

nunca completamente sozinho,

apesar da fama.


Segurei com pausas.

Com remédios usados com respeito (e um pouco de culpa).

Com mensagens enviadas antes do colapso.

Com mãos emprestadas

— que não resolvem a vida,

mas impedem a queda livre.


Talvez segurança não seja aguentar tudo.

Talvez seja saber quando parar

antes que vire manchete.


E, pelo visto,

nessas últimas semanas,

mesmo mancando,

mesmo sumindo um dia ou outro,

mesmo sem atender o celular

e sem romantizar o caos,


eu segurei.


Não bonito.

Não heroico.

Mas suficiente.


E, honestamente,

às vezes,

é só disso que a gente precisa. Uma amiga corajosa, uma amiga que de colo e toda a coragem (coragem que vem do latim Cor, do coração).

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Sobre o que escrevo

  


Escrever é um ato solitário.

Mas não se confunde: solitário não é abandonado, ou sozinho. É apenas um gesto que não admite companhia no momento exato em que acontece. Quando eu escrevo, ninguém entra comigo nessa sala. Nem você  leitor. Nem quem amo. Nem quem vai entender depois. Há um ponto em que a palavra nasce antes de poder ser explicada.


Perguntaram pra mim  se escrevo para ser lido. Não exatamente. Escrevo para não adoecer do que penso. A leitura vem depois, como quem encontra uma casa já em silêncio e decide sentar no sofá, sei lá, tomar um café. A escrita acontece antes de qualquer visita. Ela exige esse deserto inicial.


Há quem chame isso de solidão.

Eu chamo de precisão.


Escrever não é um ato solidário, como diria Clarice , embora possa gerar solidariedade. A escrita não segura a mão de ninguém enquanto acontece. Ela empurra. Ela expõe. Ela retira as muletas do pensamento. Quem escreve precisa aceitar ficar em pé sem apoio por alguns minutos —eu ja estive  às vezes por anos.


Quando eu escrevo, não estou tentando comunicar. Estou tentando me escutar. Existe uma voz anterior à frase, um rumor interno, que só aparece quando o mundo se cala, o texto vem pronto, circulando feito carros que voam em volta da minha cabeça.  É por isso que escrever me cansa: porque exige silêncio verdadeiro — e silêncio verdadeiro é raro.


Não escrevo para explicar a vida. Escrevo porque a vida, quando não escrita, pesa demais pra mim. A palavra me organiza o caos apenas o suficiente para que eu consiga respirar. Não me resolve — mas me sustenta.


Escrever é um dos meus atos porque é aqui que existo sem papel social. Sem personagem. Sem defesa. É onde não preciso ser agradável, produtivo ou compreensível. É onde posso ser exato, mesmo que eu soe estranho.


Se alguém se reconhece no que escrevo, fico muito feliz. Mas isso é consequência, não propósito. A minha escrita não nasce para servir; nasce para sobreviver. Eu escrevo para isso.


Talvez por isso ela seja solitária.

Porque ninguém pode atravessar esse ponto por mim, ninguém sobrevive na minha pele.

E eu? Eu escrevo porque preciso sobreviver.

E porque, no fundo, escrever é aceitar ficar a sós com o que ainda não tem nome — e, mesmo assim, permanecer. Vivo, ainda que entrelinhas.


segunda-feira, 28 de julho de 2025

Santo de casa não faz milagre — mas talvez vira.

 Santo de casa não faz milagre. O ditado que mais parece ter saído da boca de uma sogra ressentida do que de um apóstolo. Mas, como quase todo veneno popular, tem raízes profundas na nossa cultura — e talvez, nos nossos traumas.


Essa frase nasceu no seio da religiosidade católica popular, onde se dizia que os santos venerados em suas próprias cidades não recebiam o mesmo fervor, nem a mesma fé, do que os santos estrangeiros, os exóticos, os importados. Era como se a proximidade humana diminuísse a sacralidade. Como se ver o santo descalço, com olheiras, e pagando fiado no mercadinho da esquina o tornasse menos milagreiro.


Na Bíblia, Jesus mesmo disse que “nenhum profeta é bem recebido em sua terra” (Lucas 4:24), frase que, em bom português brasileiro, virou esse tapa de luva de pelica que usamos pra justificar quando somos geniais… mas ignorados pelos vizinhos. O ditado atravessou séculos e virou desculpa pra quase tudo: da tia que nunca vendeu um bolo na própria rua, mas bomba no Instagram, ao menino da vila que só foi aplaudido depois que ganhou um prêmio na França.


Essas semanas foram difíceis. Semanas de invasão de privacidade, de testes de limites, de abelhas entrando no meu apartamento como se pressentissem a perturbação que estava por vir. E não erraram. Fãs, stalkers, obsessivos — parece que atraio essas criaturas como quem atrai mosquitos com luz azul. Fico me perguntando: será carma, síndrome de protagonista ou uma escolha do universo em me nomear Carrie — não a Bradshaw. A estranha mesmo.


E como tudo na minha vida acontece de uma vez, quando quase termino de organizar minha casa, preciso correr para São Paulo. Salvar uma audiência administrativa daquelas que só um super-herói de terno resolve. E pessoalmente. Em Vila Velha, mesmo sendo mais eu do que nunca, ao invés de ser insubstituível, sou maldito. Literalmente. Mesmo vestindo minha persona de bom moço.


Assim cheguei a São Paulo. De novo. Já nem sei se digo “cheguei” ou “voltei”. No aeroporto, ninguém me levou nem esperou com plaquinha, flor ou cartaz do tipo “meu advogado favorito”. Só um Uber superfaturado — fruto da economia burra na passagem pro aeroporto mais barato. O motorista, destemido, ainda reclamou do trajeto. Mal sabia ele que eu também queria reclamar do trajeto da minha vida. Mas com meu terno azul, imprimo equilíbrio até no banco de trás.


Cheguei ao apartamento onde sempre fico em São Paulo. Não economizei. Fiz com cara de quem é dono do próprio destino — e da própria fatura do cartão. O céu estava do jeito que gosto: cinza, dramático, digno de trilha sonora com jazz melancólico. Mas sabe o que é mais maluco? Saí de Vila Velha com o mesmo céu. Lá também estava nublado. A diferença é que lá, eu transpirei. E aqui, não. Vai ver a umidade em São Paulo respeita a dignidade de quem já sofreu demais. Sim, eu sei. Eu sempre reclamo de São Paulo. Mas aqui o clima (e as camas) parecem que abraçam — e respeitam — mais a solidão.


Nos últimos dias em “casa”, aquela cidade onde um “bom dia” vale mais que uma pós-graduação ou quantos livros você é capaz de publicar, reparei numa coisa: nunca fiz nenhuma merda de verdade lá. Nada que me rendesse um escândalo, uma expulsão ou uma história picante pra contar. Desde que voltei, fui o vizinho exemplar. Educado. Discreto. Zero barraco. Fiz tudo certo. E o prêmio? Estão dizendo coisas horrorosas sobre mim. Não falam do meu uso de cafeína, florais, óleos essenciais — me atribuem pecados que nunca cometi.


Deus me livre ser fofoqueiro, mas são as mesmas que falam baixinho mais pornografias em tom de piada do que qualquer site adulto permitiria — e que apalpam partes baixas alheias com a naturalidade que escolhem tomates e batatas na feira do colégio de Itapuã.


E é aí que entra o absurdo cômico da vida: nas cidades grandes, onde de fato fiz algumas pequenas (ou grandes e elegantes) merdas — tipo beijar bocas desconhecidas, dormir em camas conjuntas ou gritar no meio da rua “sou artista da vida adulta!” depois de duas taças de vinho (ou mais) — sou respeitado. E não é pouco. Em São Paulo eu sou alguém. Sou advogado, escritor, colunista de mim mesmo. Aqui, erro com charme. Já em “casa”, bastou eu preferir conversar sobre inventário na varanda do que na mesa do boteco, que virei uma espécie de Pablo Escobar com roteiro de Emanuelle.


Jung, se estivesse vivo e inscrito no X (ex-Twitter, atual hospício), diria que estou em conflito entre minha persona e minha sombra. Em casa, esperam o filho pródigo. O menino que nunca deu trabalho. O moralmente inatacável. E eu até tento. Mas sinceramente? Esse papel está fora do meu range. Em São Paulo, a sombra brilha. Posso ser múltiplo, duvidoso, intenso. Posso errar. Posso tentar de novo. E o melhor: ninguém desrespeita minha mãe — mesmo sem saber que eu tenho uma.


Começo a achar que não sou mais natural de lugar nenhum. E, pela primeira vez, isso não me desespera. Ser de lugar nenhum é, talvez, a única forma de pertencer ao que importa. Já não me interessa o que dizem em padarias pequenas. Quero conversar com atendentes de cafeteria que me tratam como se eu fosse famoso, mesmo sem saber meu nome. Em São Paulo, todo mundo está ocupado demais com a própria ruína pra se preocupar com a minha. E isso é um alívio.


Na verdade, acho que descobri meu milagre. E ele não mora mais no CEP da minha infância. Meu milagre é saber que posso ir — e posso voltar. Que não preciso ser só de onde nasci, porque agora tenho onde pousar. Tenho um endereço, mesmo que provisório, onde me olho no espelho e gosto de quem vê. E do reflexo que vejo. Não quero plateia. Não preciso de testemunhas.


Essa semana em São Paulo vai ser boa. Não porque algo extraordinário vá acontecer. Mas porque estou sozinho — e não estou triste. Pela primeira vez, viajar desacompanhado não é ausência. É decisão. Ninguém com placa no desembarque. E tudo bem. Levei minha própria mala. Paguei minha própria corrida. Fui meu próprio abraço.


Eu finalmente comecei a aceitar que ninguém vai me levar ao aeroporto, eu sou sozinho, e prefiro ser — mas começo a torcer pra que um dia, alguém me espere em algum lugar, sem me julgar, sem precisar de mim, só por celebrar minha presença. E, quem sabe um dia, ter uma mala pra levar junto comigo onde eu for.


Enquanto isso, sigo. Porque, apesar de santo de casa não fazer milagre, eu me tornei um — não um santo, um milagre ambulante, que anda por aí com uma mala de mão, uma ironia na língua e uma fé desorganizada de que vai dar certo — mesmo que ninguém esteja esperando por mim no portão de desembarque.


Talvez, no fundo, a sabedoria popular já soubesse: a gente tem um defeito crônico de desvalorizar o que é próximo demais. O santo de casa tem cheiro de mofo conhecido, de roupa estendida no varal. Já o santo de fora tem aura, brilho e marketing.


E é assim que começo essa semana: com um milagre que não aconteceu no meu quintal. Mas que — ironicamente — floresce toda vez que eu volto pra São Paulo. Mesmo que ninguém perceba. Mesmo que ninguém acredite. Mesmo que eu não tenha auréola ainda… (continua - ou “nunca acaba”)


segunda-feira, 9 de junho de 2025

A Noite com 40 Personalidades num apartamento de 70 Metros ou O Beijo do Dublê de Elvis


(Este texto está fora de ordem temporal)


“É preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.”

— Friedrich Nietzsche


Saí com uma Amy Fake naquela noite meio sem querer, meio pra distrair. Tinha passado o dia inteiro reorganizando a vida — como quem varre a alma pelos cantos da casa. Ou como quem tenta fazer Marie Kondo no emocional, sem sucesso.


Mas a verdade é que meu carro não estava dos melhores. O para-brisa não funcionava e, claro, como toda boa história dramática exige, começou a chover assim que botamos o pé na rua.

(A Netflix teria orgulho do timing.)


— Vamos mesmo assim? — eu perguntei.

— Vamos tentar? — ela respondeu com aquele sorriso que é sempre um “sim” vestido de desafio.


Enquanto íamos, começamos a rir, eu e Amy, porque quando eu tinha motinha a gente combinava de conhecer a Colômbia (por reparação histórica ao que o colombiano me causou) de Pop 100. Falamos: “Vamos de carro e sem para-brisa mesmo.”

E fomos. Rindo debaixo d’água. A caminho da vida real.

(A Vida Real™, esse spin-off de tragédia cômica que ninguém pediu pra participar.)


Paramos numa loja de autopeças. Comprei o fluido do limpador de para-brisa, achando que aquilo salvaria nossa aventura. Só que, distraído, passei também por dentro do carro. O cheiro ficou insuportável.

Uma mistura de oficina mecânica com lança-perfume de carnaval vencido.

(Se existisse um “Eau de Caos”, teria sido lançado naquele momento.)


Tontos, rindo, sem saber se era da chuva ou do vapor ácido que dominava o carro, fomos direto pra gráfica buscar os quadros revelados. Meus desenhos. Minha história. Colocamos tudo nas molduras, penduramos atrás da cama, e claro, a Amy fake quis meter a mão até na bolha da cueca do meu autorretrato semi-nu.


— Tira a mão daí! Me respeita, aí ninguém toca mais — eu disse.

Mas ia quebrar minhas próprias regras mais tarde (e minha cara).

(Plot twist nível Shonda Rhimes.)


Durante a conversa, dissemos que a vida parecia uma série. E de fato parecia. Todo o núcleo agora estava perto de onde eu me mudei. Alguns atores saíram, outros ficaram.

Nas séries, os personagens somem quando têm um spin-off, ou quando o ator se envolve num escândalo.

(Aqui, no máximo, some quando te bloqueia no Instagram.)


Ficamos imaginando o que teria acontecido, na vida real, com os atores dos personagens desaparecidos.


E então… ele apareceu. O dublê de Elvis.

Mais louco que nós dois (ou tão louco quanto eu).

Com cara de figurante que virou protagonista por erro de roteiro.


Começamos a supor se estávamos todos dentro de um hospício, rindo e criando uma realidade que não existe. Ou se éramos apenas mendigos, pedindo cigarro na rua, achando que estávamos sendo incomodados por mendigos enquanto, na verdade, estávamos embaixo de uma marquise.

Nietzsche diria que enlouquecer é dançar com o real até ele desistir de ser verdade.

E, a partir daí, dançamos.

(Com passos coreografados por Lars von Trier.)


Combinamos de comprar uma Ranger velha e ir pra Colômbia. Elvis, sem show agora, topou dirigir pra gente.

(Dava pra chamar a série de “Os três doidos e uma caminhonete.”)


Amy fake se foi.

Eu e Elvis também.

Ele é sempre tão querido, tão fofo, tão educado. Se ofereceu pra me levar em casa.


Eu ofereci um whisky. Que virou uma playlist. Que virou outro whisky.

(Sequência básica de possessão emocional nos anos 2020.)


Ele me colocou pra ouvir eyes On Fire, do Blue Foundation. Eu nunca tinha ouvido essa música. Ou talvez ela tenha se perdido em algum lapso temporal de memória dissociada.

A música tocava e entrava na minha cabeça como uma ameaça ou uma cantada.

Tive uma das conversas e noites mais divertidas em muito tempo. Desci pra buscar bebida rindo e pulando como se eu tivesse 20 anos (mas tenho 40).

E eu, que não tenho deixado ninguém nem tocar na cueca da minha imagem desenhada, acabei beijando um menino 16 anos mais novo.

Não sei se foi porque ele leu meus textos — ou leu meus olhos.


Deitamos embaixo do meu semi-nu em uma noite que parecia ter 40 pessoas em uma casa de 70 metros.

Que podem ser  todas nossas personalidades, se (re)encontrando na dança nietzscheana. Em um after existencial com trilha sonora inconsciente. 


Dormimos.

Bem, não — antes ele bateu a cabeça sem querer na minha boca. O lábio inchou, deu um sangue prensado.

Meu Deus? Como vou esconder isso em audiências e vida normal?

Como explicar que eu não estava transando com ele?


Aí lembrei: eu não devo explicações pra ninguém.

Eu não tenho mais vinte anos.

(Só o algoritmo que insiste.)


Cuidei dele que tava meio bêbado (não que eu não estivesse). Dormimos.


Acordo no outro dia e ele quer tomar ovo com vinagre!

(Que tipo de pessoa toma ovo com vinagre?)

Talvez o mesmo tipo que lê Nietzsche por prazer e topa dirigir pra Colômbia.


Fiz um pão de queijo pra ele e dei os ovos.

Não queria cozinhar.

Estava com tanta vergonha dele que mal conseguia sair do quarto.

A memória da noite se confundia entre devaneio e delírio, e a única coisa real eram meus lábios latejando.

Fui um péssimo anfitrião. Pedi desculpas.


Ele é daquele tipo de cara que não lê só seu texto.

Ele te interpreta como se fosse teatro expressionista com uma pretensão de estar na Europa de 1980.

E foi assim — na minha varanda de móveis da mesma época.

Um personagem complexo que enriquece a trama.


Freud dizia que todo ato falho é um desejo expresso.

E talvez tenha sido isso: meu tesão intelectual escorregando na saliva de um beijo.

(Psicanálise + indie rock + ressaca emocional = fórmula do caos moderno.)


Não deveria ter beijado o Elvis.

Não se beija o Elvis.

Se ouve.


Mas ele disse que leu Nietzsche —

E eu, que me apaixono por frases e fissuras, beijei.


Espero que ele continue: “steadily emerging with grace.”

Não, essa história não vai ser uma história de amor, por motivos óbvios.

E esse texto não vai ser publicado.


Mas ele… ele eu espero que tenha seu contrato renovado para todas as outras temporadas.

(Shuffling the cards of your game…)


Se você estiver lendo esse texto, coloque, assim que puder, Eyes on Fire pra tocar baixinho.


Feche as cortinas. E dance com a loucura, como quem ama o próprio abismo — e sabe que ele retribui, de vez em quando, com um gole.