(Este texto está fora de ordem temporal)
“É preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.”
— Friedrich Nietzsche
Saí com uma Amy Fake naquela noite meio sem querer, meio pra distrair. Tinha passado o dia inteiro reorganizando a vida — como quem varre a alma pelos cantos da casa. Ou como quem tenta fazer Marie Kondo no emocional, sem sucesso.
Mas a verdade é que meu carro não estava dos melhores. O para-brisa não funcionava e, claro, como toda boa história dramática exige, começou a chover assim que botamos o pé na rua.
(A Netflix teria orgulho do timing.)
— Vamos mesmo assim? — eu perguntei.
— Vamos tentar? — ela respondeu com aquele sorriso que é sempre um “sim” vestido de desafio.
Enquanto íamos, começamos a rir, eu e Amy, porque quando eu tinha motinha a gente combinava de conhecer a Colômbia (por reparação histórica ao que o colombiano me causou) de Pop 100. Falamos: “Vamos de carro e sem para-brisa mesmo.”
E fomos. Rindo debaixo d’água. A caminho da vida real.
(A Vida Real™, esse spin-off de tragédia cômica que ninguém pediu pra participar.)
Paramos numa loja de autopeças. Comprei o fluido do limpador de para-brisa, achando que aquilo salvaria nossa aventura. Só que, distraído, passei também por dentro do carro. O cheiro ficou insuportável.
Uma mistura de oficina mecânica com lança-perfume de carnaval vencido.
(Se existisse um “Eau de Caos”, teria sido lançado naquele momento.)
Tontos, rindo, sem saber se era da chuva ou do vapor ácido que dominava o carro, fomos direto pra gráfica buscar os quadros revelados. Meus desenhos. Minha história. Colocamos tudo nas molduras, penduramos atrás da cama, e claro, a Amy fake quis meter a mão até na bolha da cueca do meu autorretrato semi-nu.
— Tira a mão daí! Me respeita, aí ninguém toca mais — eu disse.
Mas ia quebrar minhas próprias regras mais tarde (e minha cara).
(Plot twist nível Shonda Rhimes.)
Durante a conversa, dissemos que a vida parecia uma série. E de fato parecia. Todo o núcleo agora estava perto de onde eu me mudei. Alguns atores saíram, outros ficaram.
Nas séries, os personagens somem quando têm um spin-off, ou quando o ator se envolve num escândalo.
(Aqui, no máximo, some quando te bloqueia no Instagram.)
Ficamos imaginando o que teria acontecido, na vida real, com os atores dos personagens desaparecidos.
E então… ele apareceu. O dublê de Elvis.
Mais louco que nós dois (ou tão louco quanto eu).
Com cara de figurante que virou protagonista por erro de roteiro.
Começamos a supor se estávamos todos dentro de um hospício, rindo e criando uma realidade que não existe. Ou se éramos apenas mendigos, pedindo cigarro na rua, achando que estávamos sendo incomodados por mendigos enquanto, na verdade, estávamos embaixo de uma marquise.
Nietzsche diria que enlouquecer é dançar com o real até ele desistir de ser verdade.
E, a partir daí, dançamos.
(Com passos coreografados por Lars von Trier.)
Combinamos de comprar uma Ranger velha e ir pra Colômbia. Elvis, sem show agora, topou dirigir pra gente.
(Dava pra chamar a série de “Os três doidos e uma caminhonete.”)
Amy fake se foi.
Eu e Elvis também.
Ele é sempre tão querido, tão fofo, tão educado. Se ofereceu pra me levar em casa.
Eu ofereci um whisky. Que virou uma playlist. Que virou outro whisky.
(Sequência básica de possessão emocional nos anos 2020.)
Ele me colocou pra ouvir eyes On Fire, do Blue Foundation. Eu nunca tinha ouvido essa música. Ou talvez ela tenha se perdido em algum lapso temporal de memória dissociada.
A música tocava e entrava na minha cabeça como uma ameaça ou uma cantada.
Tive uma das conversas e noites mais divertidas em muito tempo. Desci pra buscar bebida rindo e pulando como se eu tivesse 20 anos (mas tenho 40).
E eu, que não tenho deixado ninguém nem tocar na cueca da minha imagem desenhada, acabei beijando um menino 16 anos mais novo.
Não sei se foi porque ele leu meus textos — ou leu meus olhos.
Deitamos embaixo do meu semi-nu em uma noite que parecia ter 40 pessoas em uma casa de 70 metros.
Que podem ser todas nossas personalidades, se (re)encontrando na dança nietzscheana. Em um after existencial com trilha sonora inconsciente.
Dormimos.
Bem, não — antes ele bateu a cabeça sem querer na minha boca. O lábio inchou, deu um sangue prensado.
Meu Deus? Como vou esconder isso em audiências e vida normal?
Como explicar que eu não estava transando com ele?
Aí lembrei: eu não devo explicações pra ninguém.
Eu não tenho mais vinte anos.
(Só o algoritmo que insiste.)
Cuidei dele que tava meio bêbado (não que eu não estivesse). Dormimos.
Acordo no outro dia e ele quer tomar ovo com vinagre!
(Que tipo de pessoa toma ovo com vinagre?)
Talvez o mesmo tipo que lê Nietzsche por prazer e topa dirigir pra Colômbia.
Fiz um pão de queijo pra ele e dei os ovos.
Não queria cozinhar.
Estava com tanta vergonha dele que mal conseguia sair do quarto.
A memória da noite se confundia entre devaneio e delírio, e a única coisa real eram meus lábios latejando.
Fui um péssimo anfitrião. Pedi desculpas.
Ele é daquele tipo de cara que não lê só seu texto.
Ele te interpreta como se fosse teatro expressionista com uma pretensão de estar na Europa de 1980.
E foi assim — na minha varanda de móveis da mesma época.
Um personagem complexo que enriquece a trama.
Freud dizia que todo ato falho é um desejo expresso.
E talvez tenha sido isso: meu tesão intelectual escorregando na saliva de um beijo.
(Psicanálise + indie rock + ressaca emocional = fórmula do caos moderno.)
Não deveria ter beijado o Elvis.
Não se beija o Elvis.
Se ouve.
Mas ele disse que leu Nietzsche —
E eu, que me apaixono por frases e fissuras, beijei.
Espero que ele continue: “steadily emerging with grace.”
Não, essa história não vai ser uma história de amor, por motivos óbvios.
E esse texto não vai ser publicado.
Mas ele… ele eu espero que tenha seu contrato renovado para todas as outras temporadas.
(Shuffling the cards of your game…)
Se você estiver lendo esse texto, coloque, assim que puder, Eyes on Fire pra tocar baixinho.
Feche as cortinas. E dance com a loucura, como quem ama o próprio abismo — e sabe que ele retribui, de vez em quando, com um gole.